Com coordenação nacional do IFBA, programa apoia 100 projetos e fortalece a educação intercultural no Brasil

Intelectual quilombola, pensador e referência na valorização dos saberes ancestrais, Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo, dedicou sua trajetória à defesa das epistemologias dos povos tradicionais e à crítica das estruturas coloniais de produção do conhecimento. É a partir desse legado que se estrutura o Programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais, iniciativa que busca transformar a formação docente no Brasil ao integrar, de forma sistemática, conhecimentos acadêmicos e saberes ancestrais.
O programa tem origem em edital lançado pelo Ministério da Educação (MEC) e é coordenado nacionalmente pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA), em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi). Já em execução, a iniciativa reúne 100 projetos de extensão em todas as regiões do país, com financiamento de até R$ 41,6 mil por proposta, voltados à formação de estudantes de licenciatura e professores da educação básica.
Como parte da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), o programa responde a um desafio histórico da educação brasileira: a implementação efetiva das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que determinam o ensino da história e cultura afro-brasileira, indígena e quilombola nas escolas.

Com distribuição equitativa entre regiões e eixos temáticos – saberes afro-brasileiros, indígenas e quilombolas -, o programa, que é implementando pelos Institutos Federais de cada estado, contempla iniciativas que envolvem desde práticas artísticas e culturais até línguas, narrativas, memórias e cosmociências.
Entre os exemplos, estão iniciativas como “Eu sou um Mandacaru”: Lutas e Resistências da Sabedoria Quilombola”, desenvolvida na Bahia, e “Línguas e Narrativas Tapeba: o Nheengatu e as Tradições Orais como Territórios Simbólicos de Resistência e Formação Intercultural”, no Ceará. No Rio Grande do Sul, está em execução “Artes das Nossas Ancestralidades: Curso de Pedagogia Griô”, enquanto, em Minas Gerais, um dos projetos apoiados é “Projeto Palavra Encantada: A Língua Pankararu e a Reexistência no Território da Aldeia Cinta Vermelha Jundiba ”. No Centro-Oeste, iniciativas como “Saberes Indígenas na Educação Básica: Cosmociências e Práticas Pedagógicas Sobreculturais”, desenvolvida em Goiás, reforçam o compromisso com a valorização das culturas indígenas, das memórias e das práticas educativas enraizadas nos territórios.
Reconhecimento
Uma das principais inovações é o reconhecimento de mestres e mestras de saberes tradicionais como formadores, em diálogo com professores e pesquisadores, ampliando o conceito de conhecimento no ambiente educacional. A expectativa é que os projetos em andamento contribuam para a sistematização de experiências pedagógicas inovadoras, com potencial de se consolidarem como políticas públicas permanentes. Além disso, a iniciativa reforça o papel dos Institutos Federais como agentes estratégicos na promoção da equidade e na articulação com territórios e comunidades tradicionais em todo o país.
A reitora do IFBA, Luzia Mota, destaca que a Escola Nacional Nego Bispo se diferencia por sua proposta inédita de integrar, de forma orgânica e sistêmica, os saberes tradicionais à formação de professores e licenciandos em todo o país. Segundo ela, é a primeira vez que a Rede Federal é mobilizada de maneira estruturada para essa missão, aproveitando sua ampla capilaridade territorial. São cerca de 700 campi distribuídos pelo Brasil. “Temos a capacidade instalada nos territórios para desenvolver projetos que trabalham saberes tradicionais nos eixos afro-brasileiro, indígena e quilombola, inserindo esses conteúdos na formação de futuros docentes e também na educação básica”, afirma.

Para a reitora, a iniciativa responde a uma dívida histórica da educação brasileira com os povos originários e com as populações afro-brasileiras. Nesse sentido, o programa atua como uma força estratégica para avançar na implementação da legislação já prevista, ampliando a formação de professores capazes de trabalhar esses conteúdos de forma interdisciplinar.
“A proposta é multiplicar o número de educadores preparados para ensinar saberes tradicionais, por meio da formação, da produção de materiais didáticos e da integração de mestres e mestras de saberes no cotidiano das instituições”, explica. Ela ressalta que, embora o programa represente um avanço importante, a transformação da educação é um processo contínuo, que demanda a ampliação de políticas públicas para garantir uma formação mais completa e representativa da diversidade cultural brasileira.
Já a coordenadora do programa, Cláudia Santos Malenduka, destaca que a criação da Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais está ancorada no compromisso institucional com a descolonização do currículo e a valorização de cosmovisões não hegemônicas, sendo resultado de uma construção histórica de diversos setores da educação brasileira. Na prática, a inserção dos saberes tradicionais promove uma mudança significativa na formação docente: mestres e mestras deixam de ser apenas objetos de estudo e passam a atuar como formadores, em equivalência aos docentes acadêmicos.

“Os impactos já podem ser percebidos tanto nos territórios quanto nas instituições participantes. Há um fortalecimento das relações entre as instituições de ensino e as comunidades tradicionais, além do surgimento de práticas pedagógicas que valorizam identidade, pertencimento e ancestralidade”, afirma. Para a coordenadora, embora o legado do programa ainda esteja em construção, a iniciativa aponta para a consolidação de uma política pública permanente de equidade, baseada na valorização da diversidade epistemológica.
Filha de Nego Bispo, Joana Maria Bispo pontuou aspectos sobre a relação do programa com a preservação da memória do seu pai. “Nego Bispo dedicou a vida à luta quilombola e a nos ensinar o que ele aprendeu com os mais velhos e mais velhas. Então, esse programa que leva seu nome por si só já representa a memória e o legado de Nego Bispo, porque ele nos ensinou que a gente aprende mesmo quando são os nossos mestres que nos ensinam, e o saber, ele deve ser compartilhado e não pode ser mercadoria”, enfatiza.
Sobre o programa
Lançado em julho de 2025, o Programa Escola Nacional Nego Bispo promove a valorização e a integração dos saberes tradicionais na formação de licenciandos, na formação continuada de professores da educação básica e na atuação junto às comunidades. A iniciativa contribui para a efetividade das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 e da Portaria MEC nº 470/2024, ao incorporar mestres e mestras de saberes tradicionais ao ensino, à pesquisa e à extensão, fortalecendo perspectivas pedagógicas plurais e não eurocêntricas.

Com investimento de R$ 7,5 milhões até 2027, a ação é realizada em parceria com o Instituto Federal da Bahia e oferta cursos organizados em três eixos – saberes afro-brasileiros, indígenas e quilombolas -, estruturados em subeixos como Artes e Ofícios; Línguas e Narrativas; Memórias e Oralidade; e Cosmociências.
Quem foi Nego Bispo
Antônio Bispo dos Santos, que se tornou nacionalmente reconhecido como Nego Bispo, foi um intelectual quilombola, agricultor e escritor nascido no Piauí, em 1959, com importante contribuição ao pensamento crítico sobre colonialismo e produção do conhecimento.
Sua obra valoriza os saberes dos povos tradicionais e propõe o conceito de “contracolonização”, defendendo modos de vida baseados na coletividade, na relação com a natureza e na ancestralidade. Ao longo de sua trajetória, tornou-se uma das principais referências brasileiras na defesa das epistemologias quilombolas e na construção de alternativas ao modelo dominante de conhecimento.
Viveu grande parte da vida no Quilombo Saco-Curtume, em São João do Piauí, onde também faleceu, em 2023.




