
A promotora de Justiça e escritora baiana Lívia Sant’Anna Vaz lançou, na Paris, a edição francesa de seu livro “Quotas Raciaux : pour une égalité réelle”, obra que já se consolidou como referência no debate sobre ações afirmativas no Brasil. A publicação chega ao público europeu em meio a um cenário de tensões raciais e políticas, propondo um diálogo entre a experiência brasileira e os desafios enfrentados por países da Europa.
A agenda de lançamento inclui eventos em cidades como Marselha, Toulouse e Lyon, além de passagens pela Suíça e Bélgica. A turnê ocorre em um contexto de contrastes: enquanto o Brasil acumula mais de duas décadas de políticas de cotas com impactos na ampliação do acesso ao ensino superior e ao serviço público, a França ainda enfrenta entraves institucionais para adotar medidas semelhantes, em razão de um modelo que privilegia o chamado “universalismo” e restringe a coleta de dados étnico-raciais.
O lançamento também ganha dimensão política diante de recentes posicionamentos internacionais. Durante votação na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre uma resolução que reconhece a escravidão africana como o maior crime contra a humanidade, a França e outros países europeus optaram pela abstenção, postura criticada pela autora.
Segundo Lívia Sant’Anna Vaz, a resistência europeia em adotar políticas de reparação está diretamente ligada à dificuldade de enfrentar o passado colonial. Para ela, a ausência de reconhecimento institucional contribui para a manutenção das desigualdades raciais. A jurista defende que a experiência brasileira demonstra a importância de nomear as desigualdades como etapa essencial para combatê-las.
A obra também dialoga com episódios recentes na política francesa, como a eleição de prefeitos com origens africanas, que foi acompanhada por manifestações racistas e questionamentos sobre identidade nacional. Entre os casos está o de Bally Bagayoko, eleito em Saint-Denis ainda no primeiro turno, cuja vitória foi seguida por ataques e discursos discriminatórios.
Com prefácio do intelectual Mamadou Gaye, a edição francesa apresenta ao público europeu os fundamentos jurídicos e históricos das ações afirmativas. No livro, Lívia Sant’Anna Vaz questiona a ideia de meritocracia em contextos marcados por desigualdades estruturais e defende as cotas raciais como instrumento de promoção da igualdade real e de fortalecimento da democracia.
Integrante do Ministério Público da Bahia, a autora é reconhecida internacionalmente por sua atuação no enfrentamento ao racismo institucional. Mestre em Direito Público pela UFBA e doutora pela Universidade de Lisboa, ela também já foi destacada pelo ranking do MIPAD como uma das pessoas de ascendência africana mais influentes do mundo na área de Lei e Justiça.



