Com o enredo “Togo – o Assigamé e o Império das Nana Benz”, bloco afro vai destacar a resistência dos povos africanos e o protagonismo das mulheres no comércio e na história do país da África Ocidental

O Ilê Aiyê anunciou, no último domingo (1º), o tema que vai conduzir o desfile do bloco afro no Carnaval de 2027. Com o enredo “Togo – o Assigamé e o Império das Nana Benz”, o Mais Belo dos Belos vai apresentar a história do país da África Ocidental, destacando a resistência de seus povos, a ancestralidade africana e o protagonismo feminino na construção econômica e social da nação.
A escolha marca o retorno do primeiro bloco afro do mundo às referências do continente africano e reforça a proposta de utilizar o Carnaval como instrumento de valorização da história e da cultura negra. A narrativa terá como um dos principais pontos a trajetória das Nana Benz, mulheres togolesas que conquistaram protagonismo no comércio de tecidos e se tornaram referências de autonomia econômica e organização feminina.
A construção do tema surgiu a partir de uma viagem de Vovô do Ilê, presidente e fundador da entidade, ao Togo. O interesse pelo país e pelo pan-africanismo levou a equipe de pesquisa do bloco a aprofundar os estudos sobre a história, as manifestações religiosas e as formas de resistência de seus povos.
“Vovô queria que o tema fosse focado no grande mercado que tem lá, que é chamado de Assigamé. Ele queria que a gente falasse sobre a importância desse mercado e a gente descobriu a história das Nana Benz”, explica Sandro Teles, pesquisador e produtor do Ilê Aiyê e um dos coordenadores do Festival de Música do bloco.
O enredo destaca a trajetória das Nana Benz, mulheres que conquistaram espaço na economia do Togo, especialmente na capital, Lomé, entre as décadas de 1960 e 1990. O título, associado ao prestígio e à autoridade dessas comerciantes, faz referência às Mercedes-Benz que algumas delas conseguiram adquirir com os lucros dos negócios.
Oriundas da classe trabalhadora, as Nana Benz construíram uma rede comercial que se tornou referência no mercado de tecidos africanos. A atuação dessas mulheres ganhou força no Grand Marché de Lomé, conhecido localmente como Assigamé, importante centro de comércio e circulação cultural do país.
Além da capacidade de articulação econômica, as comerciantes se destacaram por ocupar espaços tradicionalmente reservados aos homens, desafiar estruturas de submissão de gênero e estabelecer redes de solidariedade feminina. O comércio de tecidos chegou a alcançar grande relevância na economia togolesa, tornando-se uma das principais atividades comerciais do país.
O Assigamé também será apresentado como um espaço de preservação de práticas culturais, tradição oral e conhecimentos ancestrais. A proposta do Ilê é mostrar como o mercado ultrapassa sua função econômica e se relaciona com a identidade e a organização social do povo togolês.
“É isso que a gente procura fazer com esse tema, contar a história do Togo, pré-colonial, falar um pouco sobre o período colonial e a luta pela independência, contar a história, a importância do mercado, o Assigamé, a importância das mulheres, das Nana Benz”, afirma Sandro Teles.
A pesquisa que fundamenta o enredo também percorre diferentes períodos da história do Togo, desde as organizações dos povos pré-coloniais até os processos de colonização alemã e, posteriormente, de administração franco-britânica. A narrativa pretende abordar as formas de resistência das populações locais e a luta pela independência do país.
Outro eixo do tema será a influência das tradições religiosas africanas, especialmente o culto aos Voduns, e suas conexões com manifestações culturais presentes no Brasil. A proposta busca evidenciar os vínculos históricos e culturais entre os dois países, incluindo referências à religiosidade, à culinária e às celebrações populares.
Entre essas aproximações está a relação entre Aneho, cidade togolesa considerada irmã de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Os dois municípios compartilham referências de preservação da ancestralidade africana e da memória de seus povos.
Com o tema, o Ilê Aiyê mantém a tradição de transformar sua participação no Carnaval em um espaço de difusão da história africana e afro-brasileira. A escolha também dá continuidade ao trabalho de valorização das trajetórias de resistência e das contribuições de povos negros para a formação cultural e social.
O enredo vai orientar as composições que participarão do 52º Festival de Música Negra Ilê Aiyê, responsável por selecionar as músicas que integrarão o repertório do bloco no Carnaval de 2027.
O lançamento do tema é uma realização do Ministério da Cultura e da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, com coordenação da Caderno 2 Produções e produção da Central Black. A iniciativa conta com apoio do ITS Brasil e parceria do Salvador Capital Afro, Cidade da Música, Secretaria Municipal de Cultura e Prefeitura de Salvador. O projeto tem patrocínio do Grupo Belov e patrocínio master da Petrobras, por meio da Lei Rouanet.



