“Só sei que foi assim” será lançado em Salvador no dia 15 de julho, na Livraria LDM, e propõe uma reflexão sobre como estereótipos sobre o Nordeste foram construídos e perpetuados ao longo do último século

Como se formou a imagem do Nordeste associada ao atraso, à pobreza e à ignorância? E por que esses estereótipos continuam presentes no imaginário brasileiro? Essas são algumas das questões que norteiam “Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste”, novo livro do jornalista e pesquisador Octávio Santiago, publicado pela Autêntica Editora.
A obra será lançada em Salvador na próxima terça-feira (15), às 18h30, na Livraria LDM do Shopping Bela Vista. O evento integra as comemorações pelos 34 anos da livraria e contará com um bate-papo entre o autor e a promotora de Justiça Fernanda Pataro de Queiroz.
Resultado da pesquisa de doutorado de Santiago na Universidade do Minho, em Portugal, o livro analisa como discursos políticos, culturais e midiáticos contribuíram para a construção de uma identidade subalternizada do povo nordestino ao longo dos últimos cem anos. A proposta é compreender as raízes históricas desse preconceito e discutir como essas narrativas continuam influenciando a percepção sobre a região e sua população.
“Se os primeiros quatro séculos da nossa história oferecem uma chave para entender os conflitos entre os Brasis, os últimos cem anos trazem uma constatação incômoda. Grande parte das declarações feitas sobre o Nordeste e sua população, logo após sua formalização no papel, permanece inalterada. Ao ponto de ainda ouvirmos as mesmas sentenças depreciativas de 1925, como se, em um país em constante transformação, a percepção de uma parte dele sobre os nordestinos fosse a única coisa que não tivesse evoluído”, afirma o autor.
Com linguagem acessível, mas sem abrir mão do rigor acadêmico, a publicação está organizada em cinco atos, inspirados na dramaturgia clássica. Cada um deles aborda um dos pilares da discriminação contra os nordestinos, passando por temas como desigualdade social, racialização, estereótipos físicos e culturais, além da associação recorrente da região à seca, ao fanatismo religioso e à violência.
Entre os conceitos apresentados está o chamado “Complexo de Macabéa”, formulado a partir da personagem do romance “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector. Para Santiago, a protagonista simboliza o apagamento da identidade nordestina e a construção de uma imagem marcada pela submissão, invisibilidade e culpabilização.
O autor também analisa episódios contemporâneos que evidenciam a permanência desses estigmas. Um dos exemplos é a repercussão da novela “No Rancho Fundo”, da TV Globo, cuja representação dos personagens reacendeu discussões sobre caricaturas do Nordeste no audiovisual. Outro caso citado é o do “homem gabiru”, personagem de uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 1991, que comparava nordestinos pobres a uma “nova espécie humana”, reforçando processos de desumanização.
Além do resgate histórico, a obra aborda avanços recentes no enfrentamento ao preconceito regional. Entre eles está a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que passou a reconhecer injúrias dirigidas a nordestinos como crime de racismo. Segundo Santiago, o entendimento representa um marco no reconhecimento das violências simbólicas sofridas por essa população e fortalece o combate à discriminação.
Voltado a educadores, estudantes, jornalistas e leitores interessados em compreender as dinâmicas sociais brasileiras, “Só sei que foi assim” propõe uma revisão crítica das narrativas construídas sobre o Nordeste e convida o público a refletir sobre os mecanismos que sustentam esses preconceitos até os dias atuais.
Serviço
Lançamento do livro “Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste”
Quando: 15 de julho, às 18h30
Onde: Livraria LDM – Shopping Bela Vista (L2, Alameda Euvaldo Luz, 92, Pernambués)
Participação: Bate-papo com o autor Octávio Santiago e a promotora de Justiça Fernanda Pataro de Queiroz.
Sobre o autor
Octávio Santiago é jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, em Portugal. Desenvolve pesquisas nas áreas de estudos culturais, mídia e identidade, com foco na representação social do Nordeste no Brasil. Também é autor do romance Coisa fraca no sol não prospera, publicado em 2021 pela Editora Escribas.


