...

Portal UMBU

Subúrbio Ferroviário: território fundante da Salvador popular

Entre trilhos, marés e memórias, a região moldou a capital baiana a partir do trabalho, da cultura e da resistência de seu povo.

Foto: Reprodução

Quando se fala em Salvador, muitos imaginam o Centro Histórico ou os cartões-postais da orla atlântica. Mas há uma outra cidade que pulsa e sustenta a capital baiana há mais de um século: o Subúrbio Ferroviário. Muito antes de ser rotulado como periferia, o Subúrbio foi território estruturante da expansão urbana, econômica e cultural da cidade.

A implantação da estrada de ferro em 1860 redefiniu o mapa urbano de Salvador, conectando a capital ao interior e organizando a ocupação ao longo da Baía de Todos-os-Santos. Os bairros cresceram acompanhando os trilhos e o mar. Plataforma, Periperi, Paripe, Lobato, Alto de Coutos, Escada, Itacaranha, Praia Grande, formando uma cidade linear, marítima e operária.

O Subúrbio foi território do trabalho: ferroviário, industrial, portuário e marítimo. Ali consolidou-se parte significativa da classe trabalhadora soteropolitana, cuja força produtiva ajudou a erguer a cidade formal, sendo uma área periférica da cidade historicamente marcada pelas desigualdades sociais.

Mas o mar sempre foi mais do que paisagem. A pesca artesanal constitui uma das bases históricas da economia local, movimentando não apenas as comunidades ribeirinhas e praieiras, mas também abastecendo mercados e restaurantes da capital. Pescadores e marisqueiras mantêm saberes tradicionais que atravessam gerações, garantindo sustento, identidade e circulação econômica dentro e fora do território.

Essa vocação marítima se desdobra no potente campo da gastronomia suburbana. Bares, botecos, restaurantes familiares e cozinhas comunitárias oferecem cardápios variados, com destaque especial para os frutos do mar frescos da região: peixes, mariscos, moquecas, ensopados e preparações que carregam memória, técnica e ancestralidade. A culinária local é também economia criativa, turismo de base comunitária e afirmação cultural.

A história do Subúrbio não se explica apenas por sua geografia, mas pelas instituições que estruturaram sua vida social, cultural e espiritual.

Árvore centenária e sagrada do terreiro Ilê Axê Kalé Bokun | Foto: Tonny Bittencourt/Divulgação

O Ilê Axé Kalè Bokùn é um marco fundamental. Reconhecido como o único exemplar da tradição não Ijexá na Bahia e Patrimônio Cultural da Cidade de Salvador, a comunidade-terreiro do Kalè Bokùn representa a complexidade das matrizes africanas presentes no território e reafirma o Subúrbio como guardião de patrimônios ancestrais.

No campo da memória e das artes visuais, o Museu Acervo da Laje, espaço de memória, artística, cultural e de pesquisa, criado em 2011, tornou-se referência internacional de museologia comunitária, preservando narrativas do território a partir de quem o vive.

Na música e na afirmação identitária, o trabalho do bloco afro Araketu em 1980 consolidou o Subúrbio como celeiro de produção cultural negra contemporânea, estruturando autoestima e pertencimento comunitário.

O antigo Esporte Clube Periperi reafirmou o esporte, cultura e entretenimento como ferramenta de organização popular e convivência comunitária. Sendo uma casa de shows locais e nacionais, bailes carnavalescos, sambas e o famoso baile funk Black Bahia, no idos de 1970 e 80.

O Parque São Bartolomeu articula natureza, espiritualidade e resistência, sendo um dos mais importantes territórios ambientais e sagrados da cidade. O parque está inserido em uma área remanescente de Mata Atlântica, na bacia do Cobre.

Parque São Bartolomeu | Foto: Divulgação/Conder

O histórico Porto das Sardinhas evidencia a centralidade da economia marítima popular e a relação estrutural do Subúrbio com a Baía de Todos-os-Santos.

E é impossível falar da organização cultural e política da região sem destacar o papel do Movimento de Cultura Popular do Subúrbio (MCPS), que dá continuidade ao ativismo de gerações anteriores de lideranças sociais e culturais, ao longo da constituição da região.

O MCPS consolida-se como um dos principais articuladores das pautas culturais e sociais do território, promovendo formação, mobilização comunitária e valorização da identidade suburbana. Sua atuação fortalece e demonstra que o Subúrbio não é apenas espaço de produção cultural, mas também de elaboração política e construção de consciência territorial.

Com a implantação do VLT – Veículo Leve sobre Trilhos, no antigo traçado ferroviário, inaugura-se um novo ciclo de mobilidade e reorganização urbana, apresentado como marco de modernização e integração.

Foto: Feijão Almeida/GOVBA

No entanto, é fundamental que esse novo e chamado “progresso” não reproduza a lógica histórica de apagamento territorial.

A construção do VLT precisa avançar no diálogo com as comunidades, respeitar lideranças locais, proteger patrimônios culturais e ambientais e gerar desenvolvimento com justiça social.

O Subúrbio não pode ser apenas corredor de passagem. É território de memória, protagonismo, economia popular e produção de cidade.

Entre marés, trilhos e ladeiras, o Subúrbio segue escrevendo sua própria história. Cada pescador, cada marisqueira, cada artista, cada liderança comunitária reafirma diariamente que este território tem voz, tem projeto e tem direção.

O futuro que se anuncia só será legítimo se nascer do diálogo com quem sempre sustentou essa cidade. Porque a resistência, no Subúrbio Ferroviário, não é reação, é organização, é permanência e é protagonismo popular.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

POSTS RELACIONADOS

plugins premium WordPress
Ir para o conteúdo