De olho na cláusula de barreira e na viabilidade das chapas para 2026, deputados estaduais e federais esvaziam siglas médias

Vitor Bonfim, Bebeto Galvão e Ronalto Carletto
Abertura da janela partidária no último dia 5 de março acionou o cronômetro para a reconfiguração de forças políticas na Bahia rumo às eleições de 2026. O que se vê nos bastidores não é um debate ideológico, mas uma corrida pragmática pela sobrevivência política.
Dois fatores são importantes para entender essas movimentações. O primeiro é escapar da guilhotina da cláusula de barreira e o segundo, garantir espaço em chapas proporcionais que tenham densidade suficiente para eleger seus quadros (o temido quociente eleitoral). Neste cenário, legendas médias sofrem, enquanto máquinas com fundo eleitoral gordo ou controle de prefeituras avançam.
Abaixo, o panorama geral das principais movimentações e tensões já consolidadas ou em vias de fato no estado:
1. Movimentações do Avante O Avante, comandado na Bahia pelo ex-deputado Ronaldo Carletto, assumiu o papel de protagonismo nesta janela. Usando o capital político de ter se tornado uma das legendas com maior número de prefeituras no estado, o partido atrai quem busca uma chapa competitiva sem o engarrafamento das siglas tradicionais.
- Vitor Azevedo: O deputado estadual confirmou no fim de semana sua saída do PL para ingressar no Avante. O movimento tira Azevedo da oposição formal e o joga na base aliada do governador Jerônimo Rodrigues, garantindo a ele uma estrutura partidária municipalista mais robusta para tentar a reeleição.
- Bebeto Galvão: A saída do suplente de senador após 23 anos no PSB para ingressar no Avante reflete a busca por uma chapa de deputado federal que lhe dê viabilidade matemática, algo que o PSB baiano hoje tem dificuldade em garantir sozinho.
2. O encolhimento do PP e a resistência de Neto Carletto Enquanto Ronaldo Carletto engorda o Avante, seu sobrinho, o deputado federal Neto Carletto, tem sido pressionado. No entanto, o parlamentar garantiu permanência no Progressistas (PP) ao menos até 2026, focando sua janela partidária apenas na atração de vereadores para sua base. O PP baiano segue numa corda bamba, com deputados estaduais ameaçando desembarcar caso o Governo do Estado não cumpra a promessa de entregar mais espaços na iminente reforma do secretariado.
3. Movimentos no núcleo governista
- Vitor Bonfim no PT: O deputado estadual articula sua saída da federação (PV) rumo ao próprio PT. O cálculo é frio: Bonfim quer disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados e sabe que a estrutura petista (que lidera, junto com MDB e União Brasil, o número de filiados no interior do estado) oferece a musculatura necessária que o PV não tem.
- A fratura na Família Coronel: A disputa pelas vagas majoritárias na chapa de Jerônimo está forçando um racha no PSD. Com a saída do senador Angelo Coronel (PSD) da chapa prioritária, especula-se sua ida para a oposição (União Brasil).
4. A oposição: União Brasil e a reformulação da direita No campo da direita, o movimento é de concentração de forças para fazer frente ao PT no interior.
- O PL desidratado: O partido de Jair Bolsonaro na Bahia sofre baixas de parlamentares que não querem ficar reféns do radicalismo ideológico que atrapalha composições no interior. Além de Vitor Azevedo, quadros municipais como o vereador soteropolitano Alexandre Aleluia se preparam para migrar para o Novo, legenda que tenta se reestruturar no estado sob o comando de seu pai, José Carlos Aleluia, para abrigar candidaturas à Câmara Federal fora da sombra do PL.
- União Brasil à espreita: O partido de ACM Neto atua como o principal receptor da insatisfação governista. Além de buscar filiar Angelo Coronel, a legenda tenta pescar deputados estaduais de legendas como PDT e PSDB/Cidadania, que correm risco severo de não atingir a cláusula de barreira.
Até o dia 3 de abril, o mercado político baiano funcionará como uma bolsa de valores. A moeda de troca é a reforma administrativa do governo Jerônimo Rodrigues. Se o governador não acomodar os insatisfeitos do PSD, PP e MDB no primeiro escalão de forma rápida, a debandada que hoje atinge siglas menores (PV, PSB) subirá degraus, atingindo os grandes pilares do governo e encorpando o Avante e o União Brasil.


