
A Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), realizou a Roda de Diálogos “Mulheres Negras em Movimento – Ética, equidade racial e valorização das mulheres negras no ambiente de trabalho”, nesta terça-feira (21), às 13h, na Sala Nelson Maleiro, da Fundação Gregório de Mattos (FGM). A primeira atividade da tarde contou a participação dos colaboradores da FGM que assistiram a palestra de Dra. Iracema Silva, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento e Prevenção ao Feminicídio – NEF da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPMJ) da Prefeitura Municipal de Salvador, Hanna Santana da Hora, coordenadora de Reparação e Promoção da Igualdade Racial da Secretaria Municipal da Reparação (SEMUR) e Silvia Russo, assessora especial da Diretoria de Planejamento e Projetos Culturais da FGM.
Para Iracema Silva, abordagens em torno do assédio moral e sexual no ambiente de trabalho com recorte na mulher negra são de extrema importância já que elas são diariamente atravessadas pelo racismo enquanto a desqualificação da sua cor. “Uma diversidade do ser tão linda que muitas vezes é utilizada para humilhar a mulher, discriminar e impedir que a mulher avance no processo natural do ser humano que é crescer, progredir, desenvolver inteligência e habilidades durante toda a sua trajetória de vida”, afirmou Iracema. Visando o ambiente laboral, a delegada aposentada da Polícia Civil da Bahia e mestra em Segurança Pública, Justiça e Cidadania ainda estimulou os servidores públicos presentes às questões de valorização e equidade da mulher bem como a ética que ela acredita ser uma ferramenta primordial de mobilização de pessoas no ambiente corporativo e empresarial. Já para Hanna da Hora, a importância do Circuito Mulheres Negras em Movimento é para além do Julho das Pretas. “Entendemos que Salvador estabelece, a partir de um Decreto Municipal, o Dia da Mulher Negra e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Afro-Caribenha, parar e refletir sobre a importância da mulher, da mulher negra numa cidade que é majoritariamente preta e reconhecer essa matripotência para que possamos entender essas desigualdades históricas para que consigamos avançar”, ressaltou Hanna.
Questões como o não reconhecimento da sua própria identidade racial e pertencimento cultural também foram abordadas durante a Roda de Diálogos nas instalações da FGM. “Eu faço parte do PCRI e percebo que muita gente não consegue se enxergar neste lugar de negritude. Nem de mulher preta, nem com relação às violências sofridas pela mulher preta. Muitas acreditam que violência é só bater, algo físico. Elas não conseguem, por exemplo, ainda enxergar o assédio como violência e a privação do direito de ir e vir como violência. O Circuito Mulheres Negras em Movimento é uma celebração que reverencia uma data muito importante para que se conscientize essas mulheres que se encontram ainda sem consciência para se proteger diariamente”, destacou Silvia Russo, membro atuante do Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI), em Salvador.
Larissa dos Santos, 36 anos, moradora de Cajazeiras, servidora pública e secretária executiva da FGM ressaltou a importância do Circuito Mulheres Negras em Movimento com programação itinerante dentro dos órgãos públicos de Salvador. “Eventos como esses que nos instrumentalizam enquanto mulher negra e servidora pública alinhados também com o PCRI nos mostram que não somos invisíveis nos espaços organizacionais, tanto nos setores públicos, privados e no terceiro setor também. Podemos ter um ‘mundo’ de conhecimento em nossas mãos”, disse Larissa. Jaqueline Sales, da Assessoria de Gestão da FGM, destacou a importância do Circuito como ferramenta de conscientização e necessidade de respeitar todas as mulheres, inclusive e principalmente as mulheres negras. “A Fundação Gregório de Mattos tem esse olhar atento e estamos felizes pela adesão expressiva na participação dos nossos servidores. Esperamos que essa atividade formativa renda bons frutos dentro e fora da FGM”, disse Jaqueline.

No âmbito do programa Salvador Capital Afro, durante a 2ª edição do Circuito Mulheres Negras Em Movimento 2026, no bairro do Comércio, em Salvador, aconteceu a visita guiada realizada pela OIE e a Casa das Histórias com a presença do grupo de Mulheres Matriarcas de Tubarão e da QUIAL Educativo. O projeto Matriarcas de Tubarão foi realizado e idealizado pelo Quilombo Aldeia Tubarão com apoio financeiro da CESE e apoio institucional da Pontos Diversos. As mulheres do Subúrbio Ferroviário de Salvador puderam conhecer durante toda a tarde a Casa das Histórias e a Galeria do Mercado Modelo de forma gratuita, interativa e integrativa.
Para Vitor Barbosa, educador na Casa das Histórias e Galeria do Mercado, através do Programa Educativo, receber a visita das Matriarcas de Tubarão, através de uma parceria com os Territórios de Cultura que a Casa das Histórias realizou junto a algumas comunidades de Salvador é uma grande alegria. “Nossa proposta é expandir enquanto repertório cultural da cidade e mostrar quais são os rostos que representam a nossa cidade, dentro da curadoria e da proposta da Casa. Nós visitamos esses Territórios e produzimos alguns materiais em cima dessas visitações, fomentando articulações e alguns eventos trazendo essas pessoas para conhecer de perto o nosso trabalho e visitar de forma mais personalizada a Casa das Histórias e a Galeria do Mercado”, ressaltou Vitor.
Marise Lima, sambadeira, moradora do bairro de Paripe/Tubarão e membro do QUIAL – Aldeia Quilombo de Tubarão, afirma ser um privilégio e uma alegria estar participando da visita guiada, dentro da programação do Circuito Mulheres Negras em Movimento 2026. “É a minha primeira vez e estou amando. Este lugar é uma ancestralidade. É muito bom estar aqui e quem puder vir visitar está convidado. Eu, como mulher preta, nesse espaço que fala e explica a nossa ancestralidade através de peças de arte, está sendo maravilhoso estar aqui”, afirmou Marise.
Já para a manicure e artesã Conceição das Mercês Oliveira, moradora de Paripe, é de grande importância possibilitar a mulheres de toda a cidade de Salvador o acesso à arte. “Estou super encantada. Eu sempre passei pela Casa das Histórias, olhava e dizia que um dia eu viria nesse prédio e hoje eu tive a oportunidade. Com o gancho desse Circuito, conseguimos mostrar que somos mulheres resistentes e precisamos estar dentro das histórias. Pra mim é um momento surreal”, disse Conceição.

Durante a visita guiada na Galeria do Mercado Modelo, Irlane dos Santos Santos, administradora e moradora do Alto das Pombas, na Federação, em Salvador, afirmou que atividades como essa só aumentam a credibilidade e referência da negritude durante as falas das mediadoras e mediadores durante cada espaço com peças de arte que é explicado na visita guiada. “O que existe por trás das imagens, das estruturas físicas das peças de arte são contadas por pessoas que são daqui de Salvador, conhecem a nossa história então não é apenas algo dito sem contexto. São histórias que passam de geração em geração com a nossa participação também. Podemos tirar dúvidas e contar as nossas memórias afetivas também nesse local”, disse Irlane.
No encerramento das atividades da tarde, após a visita guiada, as Matriarcas de Tubarão puderam participar de um bate-papo com os gestores de Cultura Chico Assis e Nell Araújo, Gerente de Educação e Conteúdos da OIE Brasil, responsável pelo Departamento de Complexo Cultural da OIE Salvador. “O Programa Educativo para nós é mais que uma missão. Quando estruturamos os eixos e práticas que seriam desenvolvidos, destacamos a valorização e disseminação da cultura afro-brasileira, entendemos a importância de nos fazer presentes durante a segunda edição do Circuito Mulheres Negras em Movimento. Celebramos a diversidade das mulheres que estão presentes nesta edição, bem como também o gênero diverso que Salvador nos traz. A cultura predominante de mulheres em nosso país que também contribuem para o aquecimento e expansão da economia criativa da nossa capital baiana e também de todo o país”, destacou Nell.
Dentro desse bate-papo de afeto e acolhimento das Matriarcas de Tubarão, Chico Assis também enfatizou o entendimento real do tema desta edição “Do Corre à Plenitude”. Para o gestor cultural, a importância do “corre” das mulheres negras só reforça também um direito à plenitude. “Mostrar a força da identidade empreendedora das mulheres dentro dos espaços públicos de cultura. Possibilitar que uma comunidade matriarcal, como essa do bairro de Tubarão, Subúrbio Ferroviário de Salvador, tenha acesso a equipamentos de arte e culturais como a Casa das Histórias e a Galeria do Mercado, são tão importantes pra contar a nossa história é com certeza garantir a plenitude dessas mulheres”, afirmou Chico Assis.

Ao longo das próximas semanas, o circuito promoverá oficinas, rodas de conversa, mostras de cinema, passeios afirmativos, apresentações artísticas, feiras de afroempreendedorismo, ações voltadas à saúde física e mental, atividades para crianças, formações e eventos culturais em diversos bairros da cidade. Entre os destaques também estão a Praça Maria Felipa em Movimento, nos dias 25 e 26 de julho, a II Corrida Viva o Samba – Edição Mulheres Negras em Movimento e o lançamento da Orquestra Feminina Ilú Obirim.
Realizada pela primeira vez em 2025, a iniciativa impactou cerca de 18 mil pessoas, alcançou 20 bairros, ocupou mais de 25 espaços da capital e reuniu aproximadamente 250 afroempreendedoras. Neste ano, a expectativa é ampliar o alcance das ações e consolidar o circuito como uma das principais políticas públicas de valorização das mulheres negras em Salvador.



