Apresentação estratégica foi produzida antes de encontros do senador com autoridades americanas e defende alinhamento do Brasil aos interesses de Washington no setor de minerais críticos

Um documento elaborado por André Marinho, aliado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apresenta diretrizes para uma eventual parceria entre Brasil e Estados Unidos na exploração e no processamento de minerais críticos e terras raras durante um possível governo do parlamentar. A apresentação, intitulada “Prosperity Partnership”, ‘Parceria para a Prosperidade’ em tradução livre, foi revelada pelo site Amado Mundo neste sábado (12) e teria sido produzida em março deste ano, antes de encontros de Marinho e Flávio com autoridades norte-americanas.
Com 22 páginas, o material foi elaborado em inglês e tem, na capa, a identificação “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign”. As demais páginas exibem a marca do senador acompanhada do slogan “Prosperity Partnership”. Segundo a reportagem, a autoria de Marinho consta nos metadados do arquivo e foi confirmada pelo próprio empresário.
O documento descreve uma proposta de aproximação estratégica com os Estados Unidos, com o objetivo de transformar o Brasil em um fornecedor relevante de minerais críticos e em um polo de processamento desses recursos alinhado aos interesses ocidentais. Entre os setores citados estão inteligência artificial, defesa, transição energética e mobilidade elétrica.
A apresentação critica a política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à China e aos minerais estratégicos. O texto classifica a administração petista como “pró-China” e aponta, entre os riscos de uma eventual continuidade do atual governo, a possibilidade de o Brasil permanecer como fornecedor de matérias-primas e perder oportunidades de industrialização.
Em contraposição, o plano associado a um eventual governo Flávio Bolsonaro defende o alinhamento com os Estados Unidos, a aceleração de reformas na legislação minerária e no licenciamento, a atração de capital estrangeiro e o desenvolvimento da indústria nacional. A proposta também prevê a integração entre investimentos americanos e ativos brasileiros.
Entre as metas apresentadas no documento estão a criação de um sistema de fornecimento de minerais críticos independente da China e a transformação do Brasil em um dos principais fornecedores globais desses recursos fora do território chinês. O texto projeta, em um horizonte de dez anos, investimentos entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões em mineração, refino e processamento, além da criação de 500 mil a 1 milhão de empregos e de um possível aumento de 1,5 a 2,5 pontos percentuais no Produto Interno Bruto (PIB).
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A apresentação foi elaborada em 19 de março de 2026, aproximadamente duas semanas antes de André Marinho viajar aos Estados Unidos para uma reunião com o vice-presidente americano, J.D. Vance. Em maio, Flávio Bolsonaro também esteve em Washington, onde se reuniu com o presidente Donald Trump e com o vice-presidente americano.
Segundo o Amado Mundo, Flávio afirmou, em um discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Dallas, no dia 28 de março, que o Brasil poderia ser uma solução para os Estados Unidos reduzirem a dependência da China em relação aos minerais críticos, especialmente as terras raras.
Em entrevista ao site, André Marinho afirmou que o documento foi uma iniciativa pessoal e negou que tenha relação com a campanha de Flávio Bolsonaro. O empresário também declarou que a apresentação não foi encaminhada nem apresentada a autoridades americanas e que não houve pedido ou orientação da campanha para sua elaboração.
“Esse estudo foi uma iniciativa exclusivamente minha e estava armazenado em meu dispositivo”, afirmou Marinho, segundo a reportagem. Ele também negou ter tratado de recursos estrangeiros para campanhas eleitorais brasileiras. A campanha de Flávio Bolsonaro mas não respondeu aos questionamentos sobre a autoria, o conteúdo e a eventual relação com o documento.
Relação com acusações de financiamento estrangeiro
A divulgação do documento ocorre em meio a acusações de que a campanha de Flávio Bolsonaro poderia ter recebido recursos de empresários americanos ligados à Rockbridge Network, rede de financiadores políticos associada ao trumpismo. As acusações foram apresentadas pelo presidenciável Renan Santos, do partido Missão, mas, conforme a reportagem, não foram acompanhadas de provas.
André Marinho admitiu ter estudado a possibilidade de instalar no Brasil uma célula da Rockbridge e afirmou que foi responsável por aproximar o empresário Pedro Sang da rede. A conexão é citada na reportagem no contexto das suspeitas sobre eventuais repasses financeiros à campanha do senador.
A legislação eleitoral brasileira proíbe que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, recursos de origem estrangeira para financiamento de campanhas. No entanto, a existência do documento sobre terras raras, por si só, não comprova que houve financiamento estrangeiro, nem demonstra que a campanha de Flávio Bolsonaro tenha encomendado ou utilizado a apresentação.



