Iniciativa da professora Bia Barreto na Escola Municipal Cidade Nova utiliza elementos da diáspora africana para alfabetizar e fortalecer identidade de alunos negros; projeto já inspira outras unidades

Foto: Jefferson Peixoto/ Secom PMS
O que começou com um caso de intolerância religiosa dentro da sala de aula se transformou em um projeto pedagógico que está mudando a forma como crianças negras se enxergam na escola. Criado pela professora Bia Barreto na Escola Municipal Cidade Nova, em Salvador, o Afrobeto utiliza referências da diáspora africana como ferramenta de alfabetização e letramento.
O projeto nasceu depois que uma criança se recusou a aceitar uma bala dada pela diretora por considerá-la “macumbeira”. A partir do episódio, a turma passou a pesquisar o significado da palavra “macumba” e identificou referências africanas presentes no cotidiano brasileiro. “As crianças começaram a trazer elementos como acarajé, berimbau, capoeira, dendê e efó. Cada uma passou a compartilhar um pouco da própria história e das suas vivências. No final, tínhamos uma lista de A a Z construída coletivamente”, contou Barreto.
No lugar de referências distantes da realidade dos alunos, o material passou a trabalhar com palavras e símbolos ligados à cultura afro-brasileira e africana — “A de acarajé”, “B de berimbau”, “D de dendê”, “S de samba”, “T de tambor”, “Y de yorubá”. A proposta é definida pela idealizadora como uma “tecnologia de afroletramento”.
A diretora da unidade, Andreia Fernandes, afirmou que o projeto passou a integrar o cotidiano pedagógico e contribuiu para a redução de conflitos. A escola atende cerca de 260 alunos. “Vivemos em uma comunidade onde cerca de 90% do público é negro, então precisamos fortalecer a autoestima e o pertencimento dessas crianças. O Afrobeto ajudou muito nisso, porque elas passaram a se reconhecer dentro do material pedagógico.” Segundo ela, a melhora é perceptível principalmente no recreio e nas aulas de educação física, antes marcados por situações de bullying e preconceito.
O impacto é sentido pelos alunos. “As atividades fazem a gente se reconhecer mais e entender coisas que antes eu não conhecia”, afirmou Graziele Conceição, 10 anos. Sofia Gabriela dos Santos, 9 anos, disse que passou a aprender mais sobre a África e a cultura afro-brasileira. “As aulas ficam mais divertidas e interessantes.”
O Afrobeto já começa a alcançar outras unidades por meio de convites recebidos por Bia Barreto para apresentar a experiência em diferentes espaços educacionais. O projeto ganhou ainda um desdobramento com o Afro Goods, uma releitura afrorreferenciada dos livros de colorir, com personagens negros em atividades ligadas à cultura afro-brasileira, como tocar tambor e jogar capoeira. Há edições temáticas, como o Afro Goods da Malandragem, em homenagem ao Santuário de Seu Zé Pilintra, e o Afro Goods da Copa do Mundo, sobre representatividade negra no futebol.
“Percebemos que o afroletramento começa antes mesmo da alfabetização. As crianças menores também precisam se identificar nas imagens e nas brincadeiras. Então criamos materiais para trabalhar pertencimento e identidade desde cedo”, explicou a professora.



