
Eu assisti, no dia 15, no Palácio dos Festivais, ao longa-metragem “Feito Pipa”, durante a 54ª edição do Festival Internacional de Cinema de Gramado 2026, realizada de 12 a 22 de agosto, no Rio Grande do Sul. Dirigido por Allan Deberton, com roteiro de André Araújo, o filme revela a vida de Gugu (Yuri Gomes, ator baiano de 11 anos), órfão de mãe, apaixonado por futebol, que vive em Quixadá, no sertão do Ceará, com Dilma, sua avó materna.
O longa saiu do festival com cinco estatuetas do Kikito: Melhor Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), Melhor Atriz (Teca Pereira), Melhor Direção (Allan Deberton), Menção Honrosa (Yuri Gomes) e Melhor Filme pelo júri popular.
Esse é o segundo festival em que a produção cearense é premiada. Em fevereiro, o filme venceu o Urso de Cristal, concedido pelo Júri Infantil Generation Kplus, e o Grand Prix, concedido pelo Júri Internacional da Mostra Generation Kplus do Festival Internacional de Berlim.
Não se trata aqui de uma crítica cinematográfica, até porque não tenho expertise para uma análise técnica apurada. Compartilho apenas minhas impressões, com base nas emoções que alcançaram minha alma no dia da sessão e no debate com o elenco no dia seguinte.
“Feito Pipa” apresenta uma história sensível sobre relações de amor entre os personagens, em suas vivências e limites. O universo subjetivo de Gugu, sua identidade própria, fora dos padrões convencionais, sua força e criatividade se impõem diante das adversidades do cotidiano, do luto materno e dos conflitos com o pai.
O que mais chama atenção é a leveza com que os dramas familiares são vivenciados pelo protagonista. Os medos, carências e inseguranças, inerentes à nossa condição humana, transformam Gugu e Dilma em parceiros fortes, imbatíveis, livres para serem o que escolheram viver.
No bate-papo com o público e os jornalistas, no dia 16, no Hotel Serra Azul, em Gramado, Lázaro Ramos descreveu o processo de liberdade na construção de seu personagem, pai de Gugu, atravessado pela dor da perda trágica da companheira, o amor pelo filho e a angústia de tentar protegê-lo. Teca Pereira falou da emoção de enfrentar seus próprios medos, típicos da idade, e da integração com o elenco.
“Feito Pipa” é uma lição sobre como criar memórias afetivas com quem convivemos, sem máscaras ou conveniências. É também um olhar maduro sobre os laços familiares conflituosos, que tendem a ser romantizados com hipocrisia na nossa sociedade.
O envelhecimento e a perda do vigor físico são abordados poeticamente e com realismo, sem excessos. Tive a nítida sensação de estar diante de um Brasil profundo, plural, assumidamente diverso e com tensões que envolvem a disputa de poder nos territórios onde nosso povo finca suas raízes.
Todos os prêmios recebidos foram justos, pelo elenco primoroso, com destaque para as crianças, pela bela fotografia e pelo enredo envolvente.
Agora vamos esperar o lançamento oficial nas salas de cinema do país, em 5 de novembro, para embarcar na viagem de Gugu e Dilma e voar livremente feito pipa.



