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“É um ato político”: Terra Libris aposta em literatura, formação de leitores e editoras independentes em Salvador

Nova livraria será inaugurada nesta quinta-feira (14), no Cine Glauber Rocha, reunindo literatura, cinema, música e formação de leitores em um espaço voltado à curadoria e às editoras independentes

Valéria Pergentino e Kin Guerra em lançamento de livro na Terra Libris | Foto: Gabriela Bulhões

Em uma cidade marcada pela força de sua produção cultural e pela tradição literária que atravessa gerações, Salvador ganha nesta quinta-feira (14), um novo espaço dedicado ao livro, à formação de leitores e ao encontro entre diferentes expressões artísticas. Instalada no Cine Glauber Rocha, em frente à Praça Castro Alves, no Centro Histórico da capital baiana, a livraria Terra Libris nasce da inquietação de seus idealizadores diante da ausência de livrarias de curadoria na cidade e da necessidade de ampliar os espaços de circulação literária fora das lógicas estritamente comerciais.

O projeto é comandado pelos sócios-editores da Solisluna Editora, Kin Guerra e Valéria Pergentino, que enxergam a livraria como um espaço de escuta, formação cultural e trocas simbólicas entre leitores, autores e artistas.

Com formação em cinema e audiovisual, Kin Guerra afirma que sua trajetória sempre esteve ligada ao universo editorial. Filho do ambiente dos livros, ele conta que acompanhou desde cedo o surgimento de obras, autores e projetos que marcaram a história da editora criada há mais de três décadas. “Eu nasci no meio dos livros, no meio da editora, então vi durante esses 30 anos o nascimento de diversos livros, tipos diferentes, contextos e sonhos bem distintos entre si”, afirma.

Ao longo dos últimos anos, segundo ele, a Solisluna passou a ampliar sua atuação em circuitos nacionais e internacionais do mercado editorial, participando de feiras e eventos culturais em diferentes países. Foi justamente a partir dessas experiências que surgiu a percepção mais evidente sobre a carência de espaços literários com propostas curatoriais em Salvador.

“Nessas nossas andanças, a gente visita livrarias, ambientes do livro, bibliotecas, espaços de mediação cultural e mediação de leitura. E nesse sentido a gente não tem como não comparar com o momento que a gente vive hoje em Salvador”, diz.

Livraria recebeu na última sexta-feira o lançamento do livro ““É de ler, de comer ou de brincar?”, da da educadora Sálua Chequer, publicado pela editora Solisluna | Foto: Gabriela Bulhões

Embora reconheça a existência de livrarias importantes na capital baiana, Kin acredita que a cidade perdeu parte dos espaços voltados a uma relação mais próxima entre literatura e comunidade: “Existem livrarias importantes, sim, já fazendo um trabalho há muito tempo, algumas há décadas. Mas livrarias de curadoria, livrarias que têm uma proposta um pouco diferente, no sentido de ter uma escuta mais ativa e atenta aos leitores, ao contexto onde ela está inserida, infelizmente Salvador tem esse vazio”, afirma.

A proposta da Terra Libris surge justamente como resposta a essa ausência. Mais do que um espaço de venda de livros, a livraria pretende funcionar como ambiente de formação cultural e articulação entre diferentes públicos. “A gente percebeu que Salvador precisava desse ambiente, precisava entrar novamente num circuito de lançamentos de autores de fora, sendo uma ponte para o mundo”, ressalta.

Essa ideia de ponte aparece diretamente associada ao conceito de bibliodiversidade, apontado por Kin Guerra como um dos pilares centrais do projeto. Para ele, pensar a circulação de livros no Brasil exige compreender as desigualdades históricas do mercado editorial e a concentração da produção cultural em determinados eixos do país.

“O Brasil é um país diverso, multicultural, são vários países em um, se a gente analisar a partir da cultura”, observa. “A produção de conhecimento está extremamente concentrada em alguns bairros, algumas regiões do país. Então, é um trabalho que exige intenção e coragem de se propor a ter um acervo bibliodiverso.”

Segundo o editor, a proposta da Terra Libris é ampliar o espaço para editoras independentes, autores iniciantes e obras que normalmente não ocupam vitrines de grandes redes comerciais: “Uma livraria independente é uma empresa do livro que não está vinculada a um grupo econômico alheio ao mercado editorial. E os grandes grupos quase impõem o que vai ser lido”, pontua. “Então, a gente quer ter uma relação mais próxima com editoras independentes, com autores que estão começando, com autores que não são tão conhecidos pela população em geral.”

Foto: Gabriela Bulhões

Apesar disso, Kin faz questão de destacar que a livraria não pretende excluir grandes editoras de seu catálogo. “Não é que não teremos as grandes editoras. […] A questão toda é o nosso olhar atento sobre aqueles que muitas vezes não têm espaço”, explica.

A livraria será inaugurada com um acervo inicial de mais de 3 mil livros, número que ainda deve crescer nas próximas semanas. A proposta, no entanto, é que a curadoria permaneça em constante transformação, acompanhando as trocas com leitores e a dinâmica cultural da cidade: “Uma livraria é um ambiente vivo. Ela precisa ser ativa no sentido da escuta e das trocas. A proposta da Terra Libris é ter uma escuta ativa com o leitor, com a pessoa que vai, que conversa, que indica um livro”.

Segundo Kin Guerra, o espaço também terá atenção especial às produções baianas e às narrativas vindas de diferentes territórios do estado. “A Terra Libris tem essa proposta de ter os autores da terra, as histórias da Bahia, de Salvador, do Recôncavo, mas também sendo uma ponte para o mundo”, diz. “A gente quer ter histórias que migram de diversos cantos do planeta, principalmente do Sul Global.”

Além da literatura, outro eixo importante do projeto é o diálogo permanente entre diferentes linguagens artísticas e estar localizado dentro do Cine Glauber Rocha faz com que a relação entre cinema e literatura aconteça de maneira natural, mas os idealizadores pretendem ir além: “Isso é norte para a gente, é horizonte”, afirma Kin. “Haverá ciclos regulares de encontros que transversam entre as artes. A partir do livro nascem diferentes formas de viver e ver arte: artes visuais, música, cinema, teatro.”

A programação da livraria deve incluir clubes de leitura, ciclos de debate, encontros culturais e eventos voltados às relações entre literatura e outras manifestações artísticas. A proximidade com equipamentos culturais como o Teatro Gregório de Mattos também reforça essa proposta interdisciplinar. “Faremos isso com muita intenção, nesse processo de diálogo com a comunidade, com os leitores e também trazendo novos visitantes para lá”, afirma.

Para Kin Guerra, a escolha do local também carrega forte simbolismo histórico e cultural. Instalada em frente à Praça Castro Alves, próxima à Baía de Todos-os-Santos e à Igreja da Barroquinha, a Terra Libris pretende dialogar diretamente com a memória da cidade: “Ali a gente está na primeira rua do país [Rua Chile], na Praça Castro Alves, em frente à Baía de Todos-os-Santos, ao lado da Igreja da Barroquinha. Esse potencial simbólico precisa ser valorizado na curadoria”, afirma.

Livraria recebeu na última sexta-feira o lançamento do livro ““É de ler, de comer ou de brincar?”, da da educadora Sálua Chequer, publicado pela editora Solisluna | Foto: Gabriela Bulhões

Ao refletir sobre o papel de iniciativas independentes no cenário cultural brasileiro, ele define a criação da livraria como um gesto político e coletivo. “É um ato político, um ato intencional”, diz. “A gente percebe que São Paulo e o Sul do Brasil são quase outro país em relação à oferta e disponibilidade de livros comparados a outras regiões”. Nesse contexto, a Terra Libris pretende atuar também na formação de leitores, mediadores de leitura, livreiros e profissionais ligados ao universo editorial: “Sentimos responsabilidade de contribuir na formação de leitores, de mediadores de leitura, de livreiros e de profissionais do livro na nossa cidade”, afirma.

Em um cenário marcado pelo excesso de informações, pela circulação acelerada de conteúdos e pela disseminação de fake news, Kin acredita que o livro ganha ainda mais relevância como ferramenta de reflexão crítica e aprofundamento: “O livro nunca foi um objeto tão importante para a humanidade como agora, num momento de tanta fake news, tanta informação solta, tanto ruído que nos confunde; um bom livro, uma boa seleção, uma boa curadoria, onde a gente confia em receber uma recomendação de leitura, se torna muito importante.”

A inauguração da Terra Libris acontece nesta quinta-feira (14), às 19h, com entrada gratuita. A programação contará com apresentações musicais de Amadeu Alves, Juliana Alves e Chico Maia.

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