Exibição acontece nesta quarta-feira (20), no Cineteatro 2 de Julho, a partir das 20h

A memória do Massacre do Cururupe, episódio de violência colonial contra o povo Tupinambá de Olivença ocorrido em 1559, volta ao centro da narrativa indígena nesta quarta-feira (20), às 20h, durante a exibição gratuita do documentário “Caminhada Tupinambá”, no Cineteatro 2 de Julho, em Salvador.
O filme acompanha a caminhada anual realizada pelo povo Tupinambá até as margens do Rio Cururupe, no sul da Bahia, em um movimento que mistura memória, espiritualidade, denúncia histórica e reafirmação territorial. Guiada pelas falas da cacica Maria Valdelice Jamopoty, primeira mulher cacique da Bahia e segunda do Brasil, a narrativa conecta o passado colonial às disputas contemporâneas pela terra, pela cultura e pela sobrevivência do povo Tupinambá.
Para Valdelice, a caminhada nasce justamente da necessidade de impedir que a violência sofrida por seu povo seja esquecida: “Para nós é importante porque ficamos muito tempo resistindo a toda violência”, afirma. “Amotara foi a São Paulo, convidada pela Folha de S.Paulo para reconhecer o manto, e quando retorna dessa visita, ela vem com essa força para a gente fazer essa caminhada até o Rio Cururupe.”
Ao longo da entrevista, a cacica retorna diversas vezes à figura de sua mãe, dona Nivalda Amaral de Jesus, a liderança indígena Amotara Tupinambá, personagem central no fortalecimento político e espiritual do movimento Tupinambá contemporâneo. Segundo ela, foi depois do encontro de Amotara com o Manto Tupinambá, em 2000, que a caminhada passou a ganhar uma dimensão ainda mais profunda.

“Ela constrói uma réplica do manto e usa também”, conta. “E nós vamos fazer esse momento aqui. É um momento de gratidão, um momento de força e também fortalecimento do povo. Por isso que a caminhada transforma essa memória de dor em resistência do povo.”
O documentário costura essa memória coletiva à história do próprio Manto Tupinambá, peça sagrada devolvida ao Brasil após séculos fora do país. Nas palavras de Valdelice, o reencontro com o manto ultrapassa qualquer dimensão museológica ou histórica: trata-se de um reconhecimento ancestral.“Foram muitas mãos para a gente conseguir esse retorno dele”, diz. “Mas ele faz esse reencontro espiritual também muito forte.”
Ao lembrar o primeiro contato de Amotara com o manto, a cacica fala pausadamente, como quem revisita uma memória ainda viva: “Ela contava que quando encontrou o manto pela primeira vez sentia uma grande emoção”, relata. “O manto puxou ela até ele, porque eram mais de 3 mil peças e ela conseguia chegar até ele. Quando botou a mão, só chorava. Em forma de fortalecimento mesmo, de reconhecimento, como ele reconheceu ela.”
Para Jamopoty, a devolução do manto representa não apenas uma vitória política, mas uma reafirmação da permanência histórica do povo Tupinambá: “A devolução foi força para a gente”, afirma. “Politicamente, você sabe que o povo não queria. Mas a ancestralidade é muito forte. Hoje toda a nossa história está na memória dos nossos anciãos e também na nossa força ancestral.”
Apesar da importância simbólica da repatriação, a líder aponta que a luta não termina com o retorno da peça: “Eu acho que não termina com a repatriação. Recomeça de novo”, declara. “Porque a repatriação é uma forma do governo brasileiro dizer que não foi roubado, foi doado. Mas a gente sabe que foi levado do nosso povo, a força do nosso povo.”
Enquanto fala sobre o futuro e os desafios da luta Tupinambá, a cacica conecta território, natureza e cultura como partes inseparáveis de uma mesma existência: “O desafio é a demarcação do território. Já foi assinada a portaria declaratória, mas ainda precisa da desintrusão, da demarcação física do território. Isso é passo a passo“, diz. “A preservação da cultura ancestral também é uma forma de unir mais o nosso povo. Porque uma coisa está ligada à outra: o manto, a demarcação da terra, a preservação da natureza. Está tudo unificado no pensamento das cacicas, da juventude e das lideranças também.”

Refletindo sobre o peso histórico de ocupar um espaço tradicionalmente reservado aos homens dentro das estruturas de liderança indígena, Valdelice diz: “Eu me considero a primeira porque eu fui a primeira”, afirma. “Antes de mim tinha a Amotara. Ela não foi cacique. Ela foi uma mulher guerreira que levantou o movimento Tupinambá e entregou a sua filha, que sou eu, para continuar a luta.”
A liderança reconhece os desafios de ocupar esse lugar, mas atribui sua trajetória à força ancestral herdada da mãe e das mulheres do território. “Sendo a primeira mulher cacique, é um desafio muito grande”, diz. “Mas eu consegui com a força ancestral. Já estava do meu lado uma grande guerreira.” E segue falando sobre a luta de outras mulheres indígenas: “As mulheres precisam continuar a luta por memória, território e justiça”, afirma. “As mulheres estão saindo do casulo, ocupando seu espaço de lutadora junto ao lado do homem, mas nunca atrás dele […] “A mulher é mãe, é avó, ela tem um coração enorme. Ela tem uma forma diferente de ver e buscar resultados. […] Eu sempre fiquei ao lado do homem. Nunca atrás dele.”
Comentando o peso político da caminhada retratada no documentário, Jamopoty analisa que se trata mais do que um ritual de memória, ela define o ato como uma resposta coletiva às tentativas históricas de apagamento indígena no Brasil: “Cada caminhada é uma forma de mostrar para o governo brasileiro, mostrar para a sociedade, que nós não fomos extintos”, afirma. “Estamos aí com uma história muito belíssima através das nossas anciãs.”
A cacica também anuncia novas mobilizações do povo Tupinambá nos próximos meses, incluindo uma vigília no Rio de Janeiro relacionada ao Manto Tupinambá e a tradicional caminhada realizada no último domingo de setembro. “Depois dos jogos indígenas tem o encontro dos jovens e anciãos”, conta. “E depois tem a caminhada do povo Tupinambá de Olivença. A gente continua junto nessa luta.”
O documentário Caminhada Tupinambá será exibido gratuitamente no Cineteatro 2 de Julho, em Salvador, com classificação livre.



