Casos de queda de alcance e banimentos se somam a alertas da ONU sobre tratamento desigual nas eleições de 2026; empresa nega interferência política.
Texto: Lorena Ifé

“O que tem de errado na pergunta ‘Vai fazer uma postagem com Vorcaro também?’ Até então, nada.” Foi essa a mensagem que Murilo Vilas Boas, 30, advogado e criador de conteúdo político, tentou publicar nos comentários de uma postagem no Instagram, aplicativo administrado pelo grupo Meta, que fazia críticas ao presidente Lula (PT). No entanto, ele foi impedido de publicar o comentário. Logo abaixo do campo de comentários, apareceu um aviso em vermelho: “Os comentários neste post foram limitados”.
Na mesma publicação, Murilo escreveu “Vamos de Bolsonaro”, e o comentário foi publicado sem qualquer restrição. “Comentando positivo de Bolsonaro, ele liberava. Quando eu fazia a real ação com Vorcaro, ele limitava”, denunciou.
Vorcaro, citado por Murilo, é Daniel Vorcaro, empresário e ex-banqueiro, dono do Banco Master. Ele está preso e é investigado pela Polícia Federal (PF) em um caso que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), envolvendo suspeitas de fraudes financeiras, corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
Conversas obtidas pela PF revelaram contatos frequentes entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República. Segundo informações divulgadas, Flávio teria cobrado R$134 milhões do empresário para produzir Dark Horse, filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. A relação entre os dois e a origem dos recursos destinados ao longa-metragem também são alvo de apuração.
Vilas Boas também teve sua conta no Threads, rede social que pertence ao mesmo grupo, bloqueada após publicar conteúdos sobre as eleições diretamente na plataforma e alcançar grande repercussão. Segundo ele, o bloqueio ocorreu sem qualquer justificativa.
“Eu publiquei o seguinte texto: ‘Em Teodoro Sampaio ainda estamos insatisfeitos e vamos aumentar essa votação para o presidente Lula no segundo turno’. A publicação trazia uma imagem com o resultado do primeiro turno da minha cidade”, relatou. O município fica no interior da Bahia e é a cidade natal de Murilo.
Desde então, ele afirma que não consegue mais publicar diretamente no Threads, apenas compartilhar conteúdos do Instagram. “O conteúdo é lícito: manifestação espontânea de eleitor, sem ofensa, sem desinformação, sem pedido de voto pago ou impulsionamento. A publicação teve alcance orgânico expressivo”, declarou. Murilo afirma ter apresentado recurso à Meta, argumentando que não havia qualquer ilegalidade no conteúdo. Até a publicação desta reportagem, segundo ele, não havia recebido resposta, e a conta continuava sem ser restabelecida.
Esse episódio integra um conjunto de relatos que usuários das plataformas da Meta têm apresentado como indícios de um padrão de distribuição desigual de conteúdo algorítmico ao longo das eleições brasileiras de 2026. O caso isolado de Murilo, somado a inúmeros outros relatos semelhantes, ajuda a compor o que organizações da sociedade civil e especialistas da Organização das Nações Unidas – ONU descrevem como um ecossistema digital em que conteúdos de um campo político parecem enfrentar barreiras invisíveis que os do campo oposto não encontram.
A pesquisadora e criadora de conteúdo Samira Soares, 31, do perfil @narrativasnegras, começou uma série chamada “É preciso mudar a fotografia do poder” durante a pré-campanha. O engajamento estava “comum, normal”, segundo ela. Mas quando começou a compartilhar vídeos sobre Lula, tudo mudou. “Sempre que eu compartilhava algo sobre o presidente Lula, eu sentia que esse alcance caía”, relatou.
“Nessas últimas duas semanas, durante o segundo turno, foi que percebi uma queda brusca no meu alcance”, relata. Amigas e parentes também mencionaram que deixaram de ver suas publicações. Segundo Samira, não eram usadas hashtags de ataque a adversários, apenas marcadores como #Eleições2026 e #LulaPresidente. “De fato, a Meta reduziu completamente o meu alcance”, conclui.

O que diz a Meta
Em nota oficial enviada à imprensa e publicada em seus canais, a Meta afirmou que não há interferência política. Em comunicado público, a empresa afirmou que “não toma partido nessa nem em nenhuma outra eleição” e que “são falsas e infundadas as alegações de que estamos favorecendo ou interferindo em nome de qualquer candidato ou grupo político” . A empresa atribui os episódios a “incidentes técnicos” e afirma que suas regras “valem igualmente para todos”.
O alerta da ONU
Na véspera do segundo turno, especialistas da ONU emitiram um alerta sobre “restrições à expressão política legítima” nas plataformas da Meta durante as eleições brasileiras. O grupo citou “interrupções temporárias da conta de campanha de um candidato”, “diferenças no engajamento do público, feeds de usuários, contagens de visualizações e alcance”, e “disparidades entre os principais partidos políticos na geração de imagens por IA” .
Além disso, peritos apontaram que “milhares de contas e publicações enfrentaram suspensões, visibilidade reduzida e limites de compartilhamento, incluindo jornalistas, defensores de direitos humanos, atores da sociedade civil e criadores de conteúdo” .
É o caso da ativista indígena Ybotyra Soares, 25 anos, do povo Kixelô Kariri, publicitária, criadora de conteúdo e uma das lideranças do coletivo Raiz Retorna. Ela teve as contas @ybotyraa e @raizretorna banidas pela Meta sem aviso prévio e denunciou o ocorrido em sua conta reserva, @ybotyrareserva.
“Infelizmente, eu tive minha conta banida pela Meta sem nenhum tipo de motivo por ter me posicionado politicamente”, afirmou. “Era uma conta de 19 mil seguidores que eu conquistei com muito esforço, o ano todo trabalhando para isso.”
Segundo ela, não houve publicação específica que justificasse a medida. “Não foi um post específico, não teve um bloqueio antes, não teve um aviso sobre publicação indecente ou algo nesse sentido.” A comunicadora relata que o banimento afetou sua renda e sua atuação como voz do seu povo. “Era também a minha voz para poder falar sobre o meu povo, sobre minha cultura. Lá eu tinha contratos, lá eu tinha parcerias.”
Ybotyra diz que tenta recorrer, mas não obtém resposta. “Eu tô tentando recorrer, mas eu sei que é difícil, eles não respondem. E o advogado também é muito caro.” Para ela, o episódio se conecta ao contexto eleitoral: “Eu acredito que a Meta tem interferido de uma forma muito estranha nas eleições daqui do Brasil.”
O Comitê de Supervisão da Meta — órgão independente criado pela empresa — admitiu falhas. Em nota, o colegiado afirmou que “a aplicação excessivamente rigorosa das políticas antifraude da Meta às contas de anúncios do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, representa uma falha que deveria ter sido encaminhada a uma equipe interna de especialistas responsáveis pela análise de casos”. O comitê também cobrou que a empresa estabeleça “indicadores públicos que avaliem de forma transparente a eficácia de suas medidas” .
Organizações da sociedade civil se unem para denunciar a Meta
É nesse cenário que a organização CTRL+Z, que articula pessoas e instituições para enfrentar as big techs no Brasil, lançou a plataforma #VazaBigTech, em parceria com o Sleeping Giants Brasil. O objetivo é receber denúncias sobre problemas sistêmicos que, de outra forma, não chegariam ao conhecimento público. Para denunciar, o usuário acessa o site, descreve o caso com detalhes e anexa provas. A equipe pode entrar em contato durante a apuração, e o anonimato é permitido. A recomendação é usar o navegador Tor para segurança máxima.
Em outubro, a organização levou denúncias ao Ministério Público Federal em conjunto com a ARTIGO 19, a Conectas e o Sleeping Giants Brasil. Dois dias depois, como relatado na newsletter da organização, as respostas começaram a chegar: “as denúncias que a CTRL+Z, a ARTIGO 19, a Conectas, e o Sleeping Giants Brasil levaram ao Ministério Público Federal viraram duas medidas concretas.” A organização também foi até a porta da Meta em São Paulo protestar.
Um levantamento da CTRL+Z catalogou 1.121 relatos de censura, banimento, restrições ou queda de alcance no período eleitoral. 36,8% envolve supressão de alcance, 32% relatam restrições de funcionalidade e 22% são banimentos . A maioria dos afetados é de cidadãos e cidadãs comuns, mas há dezenas de influenciadores, comunicadores, pesquisadores e movimentos estudantis.
Para Samira Soares, a sensação é de que o conteúdo simplesmente desaparece na rede. “Hoje é um post teste, já tô vendo que ele não tá sendo alcançado”, disse ela. Até o fechamento da matéria o reels de Samira que denuncia a censura da Meta tinha mais de 7 mil visualizações, mais de 1200 curtidas e 247 comentários.
A CTRL+Z segue recebendo denúncias em tiraamao.ctrlz.org.br, onde também é possível assinar a petição contra a interferência das big techs nas eleições.



