Sob o comando de vozes como Melly, Zezé Motta e Mariene de Castro, o evento transformou a Praça Maria Felipa em um epicentro de celebração e resistência durante o Julho das Pretas

A Praça Maria Felipa (antiga Praça da Cruz Caída), no coração do Centro Histórico de Salvador, foi palco de um encerramento apoteótico para o Circuito Mulheres Negras em Movimento 2026. Após dias de intensas atividades de formação, diálogos sobre empreendedorismo e mostras audiovisuais, o domingo foi coroado com uma maratona musical que reafirmou o sucesso da iniciativa promovida pela Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), dentro do programa Salvador Capital Afro.
O grande destaque do encerramento foi o show que reuniu um line-up de peso, simbolizando o encontro de gerações da arte negra brasileira. A noite culminou com a performance magnética de Melly, fenômeno da nova música baiana, após apresentações marcantes de ícones como Zezé Motta, Mariene de Castro e Márcia Short. A diversidade sonora também ganhou força com os shows de MC Tha e Karol Conká, além da presença sempre vibrante de Rita Batista, que conduziu os momentos de interlocução com o público.
Celebrando a realização do projeto, a cantora e apresentadora Larissa Luz destacou o impacto da iniciativa. “O Ancestranças é um espaço para celebrar tudo o que já conquistamos, honrar nossas existências e reafirmar nossa potência. Mulheres negras escrevem o mundo, constroem esse país e merecem ter sua voz e seus desejos celebrados não só hoje, mas o ano inteiro.”

Poesia e resistência na abertura
Dando o tom do que seria a última noite do Circuito, o palco foi aberto pela potência lírica do Slam das Minas. O coletivo, conhecido por transformar a palavra em instrumento de enfrentamento às opressões, apresentou rimas afiadas e uma performance marcante, preparando o terreno para as homenagens que se seguiram e conectando a literatura marginal ao protagonismo das mulheres negras no espaço público.
Tarde de movimento e tradição
O sucesso do domingo, no entanto, começou muito antes dos primeiros acordes musicais. O dia foi marcado por intensa movimentação na praça, com atividades voltadas às salvaguardas culturais e religiosas. Um dos momentos mais aguardados foi a apresentação especial da Casa de Maria Felipa, que trouxe à tona a memória da heroína da Independência da Bahia, cujo nome agora batiza o espaço da celebração.

A espiritualidade e a força das comunidades tradicionais também foram protagonistas por meio da Associação de Terreiros da Bahia (Egbe). A participação da entidade reforçou o caráter de pertencimento do evento, integrando as falas políticas ao axé que fundamenta a identidade de Salvador.
A ialorixá Mãe Diana de Oxum esteve presente e ressaltou a importância histórica do encontro. “Estar aqui hoje, no Mulheres em Movimento, é a continuação do caminho trilhado por referências como Maria Felipa, Dandara e Tereza de Benguela. Há muito tempo fomos silenciadas. Hoje, as mulheres negras podem contar suas histórias com relevância, fortaleza e, acima de tudo, com escuta.”
Balanço positivo
Realizado pela primeira vez em 2025, o Circuito Mulheres Negras em Movimento deu um salto significativo em 2026. Além dos shows, a ocupação de equipamentos como a Casa das Histórias e o Arquivo Público consolidou o projeto como uma das principais políticas públicas de valorização da mulher negra na capital baiana.
“Mais uma edição do Mulheres Negras em Movimento ocupando a Praça Maria Felipa com a potência das artistas e das empreendedoras que tanto movimentam o cotidiano da nossa cidade”, afirmou Chicco Assis, diretor de Cidadania Cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult).
O gestor destacou ainda que a proposta do evento é justamente valorizar o “corre” dessas mulheres. “É preciso fazer com que os momentos de plenitude sejam cada vez mais intensos na vida delas”, concluiu.

A vice-prefeita Ana Paula Matos também prestigiou o evento e reforçou o papel da iniciativa na valorização das mulheres negras: “O Mulheres Negras em Movimento é um circuito de políticas públicas pensado para marcar todo o mês de julho. Sob o tema ‘Do Corre à Plenitude’, reafirmamos nossa força na liderança e no mercado de trabalho, sem esquecer o direito da mulher negra de se divertir, sonhar e ser feliz. É a arte e a cultura exaltando a potência da mulher negra baiana para o mundo.”
Com a distribuição de acarajés pelo festival promovido pela ABAM e a reunião de centenas de afroempreendedoras, o evento encerrou sua jornada não apenas como um festival de música, mas como um movimento consolidado de ocupação de território, valorização da história e fortalecimento da economia criativa.



