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Boca de Brasa movimenta a cultura de centros periféricos de Salvador 

Foto: Lane Silva

Criado em 1986 pela Fundação Gregório de Mattos, o Boca de Brasa nasceu com a proposta de democratizar o acesso e a fruição das artes nas periferias de Salvador. Com quase 40 anos de existência, chega à maturidade não apenas mantendo os objetivos e valores de origem, mas se colocando nas trincheiras da defesa e promoção de uma política que fomenta a cultura nas periferias como instrumento de existência, resistência e resiliência.  

De uma iniciativa itinerante para levar apresentações artísticas a bairros periféricos, se reinventando enquanto festival até se transformar em movimento, o Boca de Brasa cresceu e passou a ser, também, desde 2018, espaços culturais e polos criativos. Atualmente, são oito em pleno funcionamento e três em fase de implantação. Até 2025, devem chegar a quinze, ajudando a desenvolver, revelar, reverberar a potência criativa e criadora das periferias soteropolitanas. 

A Prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Mattos, mantém espaços Culturais Boca de Brasa no Subúrbio 360 (Vista Alegre), Espaço Boca de Brasa CEU de Valéria (Lagoa da Paixão), Espaço Boca de Brasa Centro (Barroquinha) e Espaço Boca de Brasa Cajazeiras (Cajazeiras X). A partir de 2022, para alcançar novos territórios,  a FGM passou a fechar parcerias com outras instituições para implantação dos Bocas de Brasa. Naquele ano, a cooperação foi formalizada com o Serviço Social da Indústria – SESI, onde foi implantado o Boca de Brasa Cidade Baixa, em funcionamento no Centro Cultural Sesi Casa Branca (Itapagipe).

Foto: Lane Silva

Ainda em 2022, a FGM firmou parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Emprego e Renda, dando origem aos Polos Criativos Boca de Brasa, que assumem um conceito mais amplo do que os limites do Espaço Boca de Brasa. São, na verdade, zonas territoriais que concentram atividades formativas, de produção, articulação, difusão, circulação e fruição cultural, reverberando para o seu entorno os resultados dessas atividades. Os Polos atuam a partir do tripé Escola Criativa Boca de Brasa, Espaço Boca de Brasa e Festival Boca de Brasa. 

Conforme o Diretor de Patrimônios e Equipamentos Culturais da FGM, Chicco Assis, nos Polos Criativos, o programa tem contribuído para que os jovens das periferias se tornem agentes ativos na construção de uma sociedade mais inclusiva, representando não apenas a diversidade cultural, mas a étnico-racial, religiosa, geracional e de gênero. Em 2023, após processo formativo, quarenta iniciativas culturais e criativas foram contempladas com o prêmio Eu sou Boca de Brasa, recebendo um valor de R$10.000,00 e, além disso, mentoria para o aprimoramento do trabalho que desenvolvem.  

Em 2024, a FGM promoveu o 7° Festival Boca de Brasa. O evento contou com diversas manifestações artísticas, apresentações de poesia e literatura, shows de AFROCIDADE, Quabales e Favelê com participação de Vandal, ÁTTOXXÁ. Painelistas locais e de diversos cantos do país, entre eles, o rapper, cantor e criador da CUFA, MV Bill (RJ), também participaram. Como nas edições anteriores, um momento importante do evento foi a apresentação dos trabalhos das iniciativas culturais e criativas participantes das atividades formativas da Escolas Criativas Boca de Brasa, realizadas nos Polos Cajazeiras, Centro, Cidade Baixa, Subúrbio e Valéria.  

Foto: Lane Silva

Neste ano, novas parcerias foram firmadas com organizações da sociedade civil, a exemplo do Bloco Afrô Malê Debalê (Abaeté) e Centro Comunitário Mãe Carmen/Terreiro do Gantois (Federação), além da Associação Fábrica Cultural na Ribeira. Com o apoio da Secretaria Municipal de Educação, repetindo o sucesso do Boca de Brasa 360, foram ou estão sendo implantados três espaços: nas escolas Nossa Senhora dos Anjos (Brotas), Clériston Andrade (São Marcos) e na Organização de Auxílio Fraterno, na Liberdade. 

Portanto, o Programa Boca de Brasa enaltece o protagonismo das pessoas que fazem arte e cultura nos territórios classificados como periféricos, atua pelo fortalecimento da economia criativa, fator que foi potencializado, sobretudo, depois da parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SEMDEC), conforme sinaliza o Diretor de Patrimônio e Equipamento Culturais da FGM, Chicco Assis. Nessa direção, a titular da SEMDEC, Mila Paes reafirma a importância da Secretaria com a FGM, lembrando que essa união fez com que o Boca de Brasa aproximasse a cultura e a arte do empreendedorismo. “Enquanto gestão, estamos trabalhando para que essas dinâmicas gerem riqueza porque, no fundo, é o que todo mundo quer com a sua arte”, afirma Mila.

Ressalta-se que o Programa Boca de Brasa visa incentivar a cultura na periferia de Salvador, resgatando a cidadania por meio do fortalecimento das diversas manifestações artísticas. Uma iniciativa que enche de orgulho o presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro, que destaca a importância desse trabalho de descentralização da cultura. Mas, esse movimento, para Guerreiro, vai também na direção de estruturar ou fomentar a cultura dos territórios. Em alguns bairros, o gestor aponta o pioneirismo dos polos, enquanto que em outros o Boca de Brasa ganha existência para dialogar com os artistas, manifestações e toda a diversidade dos bairros. 

Foto: Lane Silva

Fomentar o que já existe, lançando luz e dando apoio às ações e coletivos genuinamente locais. Para o presidente da Fundação Gregório de Matos, Fernando Guerreiro, essa é a natureza do Programa Boca de Brasa, que se constrói em um forte diálogo com o território a partir da diversidade. Além disso, Guerreiro pontua que o programa faz rodar a cadeia produtiva do mercado cultural que, muitas das vezes, sobrevive pela criatividade e o entusiasmo de grupos de artistas. Mas, há outro ponto, igualmente relevante para Guerreiro sobre o Boca de Brasa: “É a chance de darmos visibilidade a locais e pessoas que, muitas das vezes, são representados pela grande mídia através das histórias de violência”, ressalta. 

Nestes anos todos, milhares de pessoas já foram atendidas pelo Boca de Brasa e tiveram as suas histórias de vida transformadas ou ressignificadas. É o caso, por exemplo, do jovem Carlos Victor de Jesus, de 20 anos. Natural do bairro de Valéria, entre os anos de 2018 e 2022, ele passou pelo programa. Uma experiência que deu a ele a oportunidade de se qualificar e evoluir para o mercado de trabalho e para adentrar no universo cultural: “Eu acredito que o Boca de Brasa me deu a oportunidade de evoluir no mercado de trabalho. Além disso, foi um projeto que me serviu de porta de entrada nesse universo cultural”. Atualmente, Victor é representante do seu território no Conselho Municipal de Política Cultura, tendo, desta vez, a chance de contribuir com o debate sobre as políticas culturais do município de Salvador neste órgão colegiado.

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