Ipirá foi reconhecida em 2024 como polo baiano de artefatos de couro e atrai mão de obra de cidades vizinhas, mas migrantes relatam dificuldades para ingressar no setor e precisam buscar outras formas de sustento

Foto: Agência Ross
Ipirá, município localizado a 202 quilômetros de Salvador, no centro norte do estado, não está no circuito turístico do litoral baiano, mas ostenta um título que poucas cidades no Brasil podem reivindicar: Capital da Produção Industrial e Artesanal de Calçados e Artefatos de Couro. O reconhecimento veio em abril de 2024, por meio de um projeto de lei do presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Adolfo Menezes, aprovado por unanimidade. Mas a tradição vem de muito antes, dos vaqueiros que cruzavam a caatinga e transformavam o couro em gibão, perneira e bota.
Hoje, o couro virou bolsa, cinto, carteira, sandália e sapato. O artesanato que nasceu nos fundos de casa se transformou em microempresas e fábricas de médio porte espalhadas pela cidade e pelo distrito de Rio do Peixe. E, junto com o couro, cresceu também um fluxo silencioso de trabalhadores que chegam de cidades vizinhas, como Serra Preta, Pintadas e Pé de Serra, atraídos pela promessa de trabalho em um setor que não exige diploma nem experiência formal.
O tamanho do negócio
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023, Ipirá tem um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 799,2 milhões e um PIB per capita de R$ 14.050,99. O município emprega formalmente 7,3 mil trabalhadores, mas o setor coureiro movimenta, aproxidamente, cerca de 7 mil pessoas na cadeia produtiva, número que evidencia a força do trabalho informal na cidade. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Ipirá é de 0,549, classificado como baixo pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Uma dissertação acadêmica intitulada “Produção dos artefatos de couro em Ipirá-BA: estratégias educacionais para a conscientização sócio-ambiental e ações de sustentabilidade”, de autoria de Lilian Cruz Santos, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PROFCIAMB) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em 2023, mapeou a produção local e apontou a necessidade de estratégias de conscientização socioambiental e sustentabilidade no setor, um indicativo de que a atividade convive com desafios ambientais e trabalhistas que ainda não foram enfrentados de forma estruturada.
A rota do trabalho que migra
Não há estatísticas oficiais sobre o fluxo migratório para Ipirá, mas a percepção de quem vive do ofício é de que a cidade funciona como um polo de atração regional. Trabalhadores de outras cidades chegam em busca de ocupação nas fábricas e oficinas e encontram dificuldades.
José Carlos, 35 anos, deixou o município de Pintadas há três anos acreditando que conseguiria uma vaga em uma fábrica de couro em Ipirá. Depois de meses entregando currículos e pedindo indicação, não foi contratado pelo setor. Para garantir o sustento da família, passou a trabalhar como auxiliar de obra. “Vim porque todo mundo dizia que aqui sempre tinha serviço nas fábricas de couro. Rodei bastante, deixei currículo, conversei com conhecidos, mas nunca apareceu uma oportunidade. A gente não pode esperar, então fui para a construção civil, que foi onde consegui ganhar meu dinheiro.”
Ana Lúcia (29) saiu de Conceição do Coité com a expectativa de trabalhar na produção de bolsas e cintos, atividade que já havia aprendido informalmente com familiares. Sem conseguir vaga nas oficinas e fábricas da cidade, encontrou emprego como atendente em um supermercado. “Quando decidi vir para Ipirá, pensei que seria fácil entrar em uma fábrica de couro, porque era isso que todo mundo comentava. Fiz entrevistas, procurei várias empresas, mas não deu certo. Hoje trabalho no comércio. Não era o que eu planejava, mas foi a oportunidade que apareceu para conseguir pagar as contas.”
Em 2013, a Feira do Couro (Ipirá Couro Show, Artes e Artefatos) reuniu representantes do segmento para discutir o futuro do setor. Mais de uma década depois, a produção segue marcada pela informalidade, pela descentralização e pela ausência de políticas públicas específicas. O título de Capital do Couro, conquistado em 2024, pode ser o início de uma mudança ou apenas mais um selo numa parede.



