Programação gratuita da Tenda Paraguaçu reúne pesquisadores, escritores e artistas entre 5 e 8 de novembro, em Cachoeira, com atividades sobre letramento racial, tecnologia e memória afro-brasileira

A literatura negra, a ancestralidade e os impactos do racismo nas tecnologias digitais estão entre os destaques da 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA), que acontece de 5 a 8 de novembro, no Recôncavo Baiano. Durante o Mês da Consciência Negra, a programação da Tenda Paraguaçu reúne escritores, pesquisadores e artistas para discutir como a literatura, a educação e a inteligência artificial se relacionam com as desigualdades raciais e a preservação de saberes afro-brasileiros.
Entre os destaques está a participação da cientista da computação, pesquisadora e ativista antirracista Nina da Hora, que divide a mesa de abertura com a jornalista Miriam Leitão na quinta-feira (5), às 11h. Com o tema “Penso, logo… IA: distopias à vista?”, o encontro terá mediação do especialista em cultura Zulu Araújo e abordará os dilemas éticos da inteligência artificial e os riscos de reprodução de desigualdades por sistemas automatizados.
Na ocasião, Nina da Hora lança o livro “Do rosto ao vetor: uma história da medição do rosto, da eugenia ao algoritmo”. A obra investiga o conceito de epistemicídio computacional, relacionado ao apagamento ou à distorção de conhecimentos e identidades de grupos historicamente marginalizados.
Para a pesquisadora, os sistemas de inteligência artificial não estão separados das desigualdades existentes na sociedade. “A IA aprende com dados, e os dados que temos no Brasil carregam a nossa história: quem foi abordado pela polícia, quem conseguiu crédito, quem foi fotografado e quem nunca entrou nos registros. Um sistema treinado com isso aprende essas diferenças como se fossem normais e devolve o resultado com cara de decisão técnica”, afirma.
Vozes negras da Bahia ocupam a programação
A programação da quinta-feira também inclui o sarau “Sued Nunes Não Anda Só”, às 19h. O encontro reúne a cantora e compositora Sued Nunes, a poeta, MC e produtora cultural Afropecado, a poeta e declamadora Duda Santhana, a rapper e compositora MC Jaynne e o escritor, poeta e pesquisador Matheus Kawan.
A proposta é valorizar a produção artística negra da Bahia e do Recôncavo, aproximando diferentes linguagens e experiências coletivas de enfrentamento ao racismo. Para Matheus Kawan, o encontro destaca a força do pertencimento e das trajetórias compartilhadas.
“Acredito que nossas vozes e linguagens artísticas, embora distintas, irão se conectar a partir do senso de comunidade e pertencimento. Quando nosso eu se reflete em quem se parece com a gente, os caminhos se povoam pelas experiências compartilhadas”, afirma o poeta.
Na avaliação de Kawan, a presença da literatura afro-baiana no evento também representa o reconhecimento da potência estética e política dessas produções. “Temos muito a escrever, dizer, criar, oferecer e prosperar. Nenhuma história opressora pode se sobrepor a uma luta memorável”, declara.
Ancestralidade como tecnologia e possibilidade de futuro
Na sexta-feira (6), às 15h, a mesa “Inteligência ancestral, memórias afrofuturistas” propõe uma reflexão sobre a oralidade africana e diaspórica como forma de preservar conhecimentos e imaginar outros futuros. Participam o escritor afrofuturista Ale Santos e Cesar Sobrinho, pesquisador, professor e tradutor de contos populares africanos e afrodiaspóricos. A mediação será da professora, pesquisadora e crítica literária Cristian Sales.
O debate questiona a ideia de que tecnologia está necessariamente associada a máquinas e plataformas digitais. Para Ale Santos, conhecimentos desenvolvidos por povos africanos, amazônicos e latino-americanos também constituem formas de tecnologia, capazes de contribuir para a organização social, a sustentabilidade e a preservação cultural.
“As tecnologias culinárias, musicais e artísticas, por exemplo, ajudam a manter tradições, conectar indivíduos durante gerações e preservar o equilíbrio com o meio ambiente”, explica o escritor.
Ale Santos também destaca a importância de ampliar a presença de referências afro-brasileiras e indígenas na literatura fantástica, no cinema, nos videogames e em outras áreas do entretenimento. Para ele, a valorização dessas narrativas permite criar imaginários de futuro que não dependam exclusivamente de referências estrangeiras.
Debate aborda racismo nos sistemas de inteligência artificial
A programação da Tenda Paraguaçu será encerrada no sábado (7), às 18h, com a mesa “Inteligência artificial e racismo: algoritmos da branquitude”. O encontro reúne a pedagoga e escritora Nilma Lino Gomes, ex-ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, e Tarcízio Silva, pesquisador em políticas tecnológicas, doutor em Ciências Humanas e Sociais e mestre em Comunicação. A mediação será da professora e vice-reitora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jamile Borges.
A discussão abordará como sistemas tecnológicos podem reproduzir estruturas históricas de poder, preconceitos e discriminações raciais. O tema se relaciona ao debate sobre os dados utilizados no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial e sobre a representação de diferentes grupos sociais nessas tecnologias.
A proposta da curadoria também aproxima o letramento racial do letramento literário. Segundo Marielson Carvalho, curador da Tenda Paraguaçu, a formação de leitores envolve a compreensão do mundo antes mesmo do contato com a palavra escrita.
Inspirado no pensamento do educador Paulo Freire, segundo o qual “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, Carvalho destaca a importância da oralidade, das histórias contadas pelos mais velhos e dos conhecimentos transmitidos entre gerações. A programação, nesse sentido, reúne literatura escrita e oral como caminhos para ampliar a compreensão sobre a sociedade e reconhecer diferentes formas de produção de conhecimento.
A 14ª FLICA tem patrocínio do Governo do Estado da Bahia, por meio do FazCultura, da Secretaria da Fazenda (Sefaz), da Secretaria de Cultura (SecultBA) e da Secretaria da Educação (SEC). O evento integra o Bahia Literária, programa da Fundação Pedro Calmon, vinculada à SecultBA, e é realizado pela SCHOMMER Produções.
Serviço
- Evento: 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA), Tenda Paraguaçu
- Quando: de 5 a 8 de novembro de 2026
- Onde: Feira do Rio Paraguaçu, Cachoeira (BA)
- Entrada: gratuita
- Mais informações: Instagram oficial da FLICA



