
Em tempos de inteligência artificial, efeitos visuais cada vez mais sofisticados e produções construídas quase inteiramente em computadores, é digno de nota que Christopher Nolan realize um filme como A Odisseia. Rodado em película IMAX e privilegiando efeitos práticos, ou seja, aqueles criados artesanalmente no próprio set de filmagem. O que durante décadas foi o modo tradicional de fazer cinema tornou-se uma exceção. E, curiosamente, essa exceção passou a ter também valor comercial.
Há uma ironia interessante nisso. Em uma indústria que sempre perseguiu a inovação tecnológica para reduzir custos e ampliar possibilidades, o artesanal volta a ser vendido como diferencial. O mercado percebeu que existe um público disposto a pagar não apenas por uma história, mas por uma experiência estética singular. A tecnologia continua sendo uma ferramenta poderosa para a criação artística, mas ela parece ganhar ainda mais sentido quando dialoga com a materialidade do cinema, com a fotografia capturada em película, com cenários construídos de verdade, com corpos ocupando espaços reais. No fim das contas, a arte também encontra formas de resistir às lógicas da padronização, ainda que essa resistência seja, paradoxalmente, incorporada pelo próprio comércio.
Existem poucas salas IMAX 70mm no mundo e nenhuma delas no Brasil. Ainda assim, contamos com 12 salas IMAX digitais, que oferecem uma experiência superior à de uma sala convencional, especialmente para filmes concebidos nesse formato. Em Salvador, há apenas uma. E chama atenção o fato de que a única sessão legendada do filme nessa sala permanece esgotada há duas semanas, mesmo sendo um filme com mais de três horas de duração e iniciando às 21h. Enquanto isso, as sessões dubladas ainda apresentam lugares disponíveis. É um dado curioso que desmonta, ao menos em parte, a ideia de que o público brasileiro passou a preferir exclusivamente filmes dublados.
Vale sempre lembrar que optar pelo áudio original não é uma questão de elitismo, mas de experiência estética. A voz de um ator faz parte de sua interpretação tanto quanto sua expressão corporal ou seu olhar. Por melhor que seja o trabalho dos dubladores, trata-se inevitavelmente de uma nova interpretação. Além disso, a própria mixagem de som costuma ser comprometida no processo de dublagem. Como a trilha sonora original já chega praticamente finalizada, substitui-se apenas a faixa de voz, alterando o equilíbrio sonoro pensado pelos realizadores. Assistir ao filme em sua forma original significa experimentar a obra da maneira como ela foi concebida, tanto na imagem quanto no som.
Também chama atenção que, em uma época dominada pelos streamings e pela comodidade de assistir a filmes em casa, uma sala IMAX permaneça lotada em um domingo à noite para uma sessão de mais de três horas. É um sinal alentador para quem acredita no cinema como experiência coletiva. Muito se anuncia o fim das salas de exibição, mas momentos como esse mostram que elas continuam oferecendo algo que nenhuma televisão, por maior ou mais tecnológica que seja, consegue reproduzir: a imersão compartilhada, a concentração absoluta e o impacto sensorial de uma obra pensada para aquele espaço.
E A Odisseia comprova isso. É um filme concebido para ocupar a tela em toda a sua grandiosidade, mas também para revelar detalhes que só uma projeção dessa escala permite perceber plenamente. A experiência é tão envolvente que, ao final da sessão, a plateia respondeu da maneira mais antiga e espontânea que existe: com aplausos. Não para a tela, evidentemente, mas para aquilo que ela proporcionou.
Nolan não é o gênio incontestável que parte da crítica e do público costuma proclamar. Ainda assim, é difícil negar sua contribuição para a preservação de uma determinada ideia de cinema. Em um momento em que a cultura audiovisual parece cada vez mais orientada pelo consumo rápido e pela fragmentação da atenção, ele insiste em defender o cinema como rito, como espetáculo e como experiência artística. E isso, independentemente das qualidades específicas de cada filme, já representa um serviço importante à própria arte cinematográfica.
Que venham muitas obras como essa.


