
O AfroBusiness Comunicação chegou ao seu segundo dia, nessa quarta-feira (17), com presença da publicitária e estrategista em comunicação Luciane Reis na mediação do painel “Formação e Mercado”, que debateu o tema “Jornalismo Negro: Da Militância ao Modelo de Negócio de Mercado”. O encontro teve participação do jornalista e fundador do Instituto Mídia Étnica, André Santana, e do jornalista e fundador do Portal Dois Terços, Genilson Coutinho, o encontro discutiu os desafios do mercado de conteúdo jornalístico e das mídias de narrativa negra no Brasil e na Bahia.
“Acho importantíssimo a gente fazer esse debate sobre de que forma a população negra tem se organizado, provocado o mercado e tem tentado se inserir, apesar de toda estrutura racista que ainda exclui os agentes negros, sejam eles artistas produtores de conteúdo ou sejam trabalhadores da comunicação. É fundamental perceber que a gente tem insistido nisso e tem feito isso, no meu ponto de vista, honrando um legado ancestral de que sempre pessoas negras acreditaram que a comunicação era necessária para exigência de nossos direitos, nossa cidadania. Somos herdeiros de um legado em comunicação de gente que encontrou espaços muito mais difíceis em momentos muito mais difíceis desse país que nunca foi fácil pra gente, e continua não sendo, mas já foi muito pior”, enfatizou André Santana.
Considerado uma iniciativa pioneira e fundamental para o desenvolvimento econômico e social da comunidade negra no Brasil, o segundo dia de programação do AfroBusiness Comunicação ofereceu oportunidades de negócios e capacitação ao público presente na Biblioteca Central da Bahia.

“A importância que o AfroBusiness tem é a possibilidade de você discutir dinheiro. Acredito que esse evento nos desafia a sair da lógica de um simples produtor de conteúdo para um produtor de conteúdo monetizado e valorizado a partir do conhecimento que é produzido. A gente tem um histórico de pensar o Jornalismo e pensar a Comunicação somente na perspectiva da construção da informação e o AfroBusiness traz para o centro do debate esse conhecimento e esse saber que sustenta o Brasil, que é o conhecimento racializado, que durante muitos anos foi ignorado pela mídia tradicional, e que precisa também ser monetizado e gerar sustentabilidade, do mesmo modo que as mídias tradicionais invisibilizam essa pauta, invisibilizam esse segmento”, destacou Luciane Reis.
A democratização do acesso a recursos para organizações jornalísticas de interesse público, por meio de apoio financeiro flexível e de longo prazo, com foco no desenvolvimento institucional e na sustentabilidade, também foi tema da discussão conduzida por Genilson Coutinho.
Para Lucineide Sousa, natural de São Félix, no Recôncavo Baiano, eventos como o AfroBusiness são fundamentais para ampliar a compreensão sobre o papel da comunicação nas periferias e fortalecer as chamadas mídias alternativas.
“Estar dentro da capital baiana, discutindo isso, mas não deixando de lado os acontecimentos e todas as necessidades que temos em divulgar os nossos projetos no interior do Estado e também por todo país, é uma ferramenta de extrema importância que se faz necessário perpetuar. É compreender de que forma a Comunicação pode nos favorecer, tanto nesse lugar de empreendedorismo negro, de economia criativa, mas também desse lugar da gente colocar em pauta os nossos serviços e produtos e nos alavancar nesse sentido”, afirmou.

Já para a escritora, poeta e agente literária Bárbara Uila, natural de Serrinha, no Sertão da Bahia, eventos como o AfroBusiness têm relevância por promover uma perspectiva sobre o que acontece nas periferias em relação à cultura e aos movimentos sociais, associando comunicação, marketing e fomento de negócios. Além de promover o diálogo institucional com emissoras e ampliar o debate sobre o cumprimento da legislação da comunicação no Brasil, o AfroBusiness também destacou a importância da acessibilidade da informação, com a presença de intérpretes de Libras durante toda a programação.
Moradora do bairro de São Marcos, em Salvador, Mariana Dantas atua como intérprete de Libras em contextos jurídicos e palestras e ressaltou a importância da acessibilidade na comunicação. “Pessoas surdas estão em todos os lugares e ter um evento como esse, de âmbito nacional, falando sobre diversidade não poderia faltar a Língua Brasileira de Sinais (Libras)”, destacou.
Com destaque para cases de sucesso, o AfroBusiness recebeu, no turno da tarde, a jornalista, ativista, escritora e mestre em Cultura e Sociedade Midiã Noelle. Durante sua participação, ela compartilhou sua trajetória profissional nas políticas públicas de comunicação e os desafios na construção do Plano Nacional de Comunicação Antirracista.
“É fundamental a gente ter atividades que unam o nosso ecossistema. Quando a gente fala em AfroBusiness é pensar em negócios, em empreendedorismo, mas também pensar em articulação de sobrevivência para nós enquanto população brasileira. Considerando a população negra, pois estamos falando a partir de um marcador, esse marcador racial. Falar de comunicação dentro desse evento é inovador. Eu acho ser muito corajoso da parte de vocês, enquanto idealizadores, reunir pessoas que estão em seus lugares, individuais e coletivos, restituindo a humanidade da população negra. É isso que fazemos, a partir da lógica ancestral, lógica de reconhecimento de quem veio antes da gente, entender que para fazermos a manutenção da dignidade da população negra se faz necessário restituir a nossa dignidade”, destacou Midiã.

A jornalista complementou afirmando que, até cerca de 140 anos atrás, a população negra era vista como objeto e que ampliar esse debate para áreas como educação, economia, saúde e, sobretudo, comunicação é fundamental para compreender como as violências raciais se perpetuam por meio da repetição de práticas e discursos. Além de fortalecer a presença de pessoas negras em posições de liderança e influência no setor, o encontro busca estimular novas conexões, fomentar parcerias e ampliar oportunidades para empreendedores, comunicadores e agentes da economia criativa negra.
Encerrando a programação do segundo dia do evento na Biblioteca do Estado da Bahia, foi realizado o Painel 3, com o tema “Comunicação Negra como Negócio, Mercado e Desenvolvimento”. A mesa contou com mediação do publicitário e articulador social Enderson Araújo e participação da jornalista e diretora da Soteropreta Comunicações e Portal Soteropreta, Jamile Menezes, além do publicitário, roteirista, comediante e creator baiano Tiago Banha.
“Iniciativas como AfroBusiness elas chegam para somar num mercado que está começando a ter evidência e se potencializar. A gente sabe que os espaços que são abertos para Humor, para Comunicação são abertos para galera branca. Eu estava conversando com o ator, dramaturgo e comunicador Sulivã Bispo e a gente percebe quando chegamos nos eventos de pessoas brancas e é percebido a partir do número de patrocínio. Como pra gente fazer uma ação, conseguir patrocínio é mais trabalhoso. Estamos sempre tendo que mostrar e validar a credibilidade sobre se conseguimos ou não executar o nosso trabalho. Dessa forma, eventos como esse servem para abrir espaços de diálogo entre os atores que estão fazendo business”, ressaltou Enderson.

Reforçar o papel da comunicação como ferramenta de transformação social é reconhecer a importância da diversidade na produção de conteúdos, na gestão de marcas, na formulação de estratégias e na construção de uma sociedade mais democrática e inclusiva.
“Eu entendo que o AfroBusiness Comunicação chega num bom momento por falar sobre diversidade na Comunicação, mas é importante ainda é a gente falar da presença negra na Comunicação e debater o protagonismo negro na Comunicação. Nós temos pouquíssimas mídias ainda resistentes aqui em Salvador, particularmente. No momento que eu criei o Portal Soteropreta em 2016, nós tínhamos algumas iniciativas que hoje não ultrapassam os dedos das nossas mãos abertas, então o AfroBusiness ele chega com esse início de trajetória que se faz necessário reunir esses profissionais, fazer com que eles se encontrem para voltarmos a pensar estratégia e caminhos. Não caminhos individuais, mas caminhos coletivos de rede para que se possa fortalecer ainda mais essa situação dos negros na Comunicação e dos veículos, das mídias e das iniciativas protagonizadas por pessoas pretas”, afirmou Jamile Menezes.
O AfroBusiness Comunicação é idealizado pela Associação Folia Africana, Zumbi Comunicação e Umbu Comunicação & Cultura e conta com o apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Fundação Pedro Calmon. O evento tem ainda apoio de mídia do Portal Soteropreta, Rádio Nova Brasil Salvador, Imagem Digital Out of Home, Rádio Salvador FM e Portal Umbu. O projeto conta com patrocínio da Caixa e do Governo Federal.
Texto: Patrícia Bernardes – jornalista, redatora, mobilizadora de projetos de impacto social em educação, letramento e cultura identitária, e repórter colaboradora do Portal UMBU




