
“Eu virei negro quando cheguei aqui“. A frase dita pelo franco-senegalês Mamadou Gaye resume não somente sua experiência no Brasil, mas também a dimensão política e simbólica dos ataques racistas que passou a enfrentar na Bahia enquanto ocupava posições de destaque em instituições culturais e diplomáticas. Intelectual, pesquisador, ex-diretor da Aliança Francesa em Salvador e ex-cônsul honorário da França na Bahia, Mamadou afirma que foi no Brasil, especialmente em Salvador, que passou a compreender de maneira mais profunda o lugar social imposto a corpos negros em sociedades marcadas pela herança colonial.
“Eu não nasci negro no Senegal. Eu sou senegalês, sou wolof por parte de pai e sou bambara a partir da minha mãe. O conceito de negro foi inventado por essa parte do mundo. Existe um pouquinho um conceito parecido na Europa, mas eu virei negro quando cheguei aqui”, contou em entrevista ao Portal Umbu.
As declarações acontecem em meio ao processo judicial movido após ataques racistas sofridos entre 2023 e 2024. Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), o cidadão francês Fabien Liquori enviou mensagens eletrônicas com conteúdo ofensivo e racista a instituições brasileiras e francesas, chamando Mamadou de “tirano africano” e afirmando que ele deveria “voltar ao seu buraco parisiense”. O caso ganhou novo capítulo neste mês, após audiência realizada na 9ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), onde Liquori responde por crimes contra a honra, injúria e injúria preconceituosa em razão da origem.
Ao longo da conversa, Mamadou falou sobre os impactos provocados pela violência racial, criticou o silêncio da representação diplomática francesa diante do caso e refletiu sobre as estruturas de poder que atravessam experiências negras em diferentes partes do mundo. Em diversos momentos, relacionou sua própria trajetória a uma dimensão coletiva da luta antirracista, recusando tratar o episódio apenas como um conflito individual.
“Esse caso me tocou, mexeu comigo. E não só por mim, mas por todas as pessoas que passam por isso. Pelas pessoas que não conseguem chegar até a justiça, pelas pessoas que chegaram até a justiça e não conseguiram uma reparação digna. O Brasil me ensinou muito sobre isso também. Eu aprendi aqui a me deixar atravessar pelos sentimentos. Então, claro que esse caso me atingiu, mas eu continuo de pé porque eu sei quem eu sou”, declarou.
Contando sobre suas origens familiares e políticas, Mamadou disse carregar uma forte herança comunitária construída ainda no Senegal e afirmou que essa consciência foi fundamental para enfrentar os desdobramentos de sua vida na Bahia.
“Eu venho de longe. Nasci no Senegal, de duas grandes famílias, a família da minha mãe e a família do meu pai. Eu sou o primeiro neto dos dois lados, então carrego comigo muita força, uma história longa. Eu sei quem eu sou e sei também do meu valor enquanto pessoa, dos princípios que me animam. Quando você tem essas referências de onde você vem, seus valores, seus princípios e qual é a sua missão na vida, você nunca está perdido.”
Ao falar sobre sua formação, o pesquisador também destacou a dimensão coletiva presente na cultura senegalesa e na forma como construiu sua visão de mundo. “Eu venho de uma sociedade em que tenho consciência de que eu sou quem eu sou por conta dos outros. Sem os outros eu não sou ninguém. No Senegal, as pessoas me apresentam como filho do meu pai, filho da minha mãe, neto de alguém. Sem eles eu não sou ninguém.”
Militante antirracista desde a juventude, Mamadou conta que carrega desde a infância uma indignação constante diante das injustiças sociais. “Eu não suporto injustiça de qualquer forma. E quando acontece comigo, eu sempre achei que era meu papel lutar para dar um exemplo, para ganhar direitos, para ganhar respeito. Nenhuma sociedade é perfeita, mas é da nossa responsabilidade fazer com que essas sociedades melhorem através dos nossos posicionamentos.”
A decisão de tornar o caso público, segundo ele, também faz parte dessa compreensão política da luta antirracista. Mesmo reconhecendo o desgaste emocional provocado pela exposição e pela necessidade de reviver os episódios de violência ao longo do processo judicial, Mamadou afirma nunca ter cogitado resolver o conflito de maneira silenciosa ou privada.
“Minha irmã, quando soube da repercussão do caso no Senegal, falou para mim que talvez essas coisas devessem ser resolvidas no privado. Existe muito isso, das pessoas quererem recuar, não se expor, não falar sobre o assunto. Mas eu tenho a convicção de que os direitos se conquistam na luz do dia. Tem um custo, mas é importante ir para a rua, é importante que a sociedade saiba disso.”
Segundo ele, o apoio de amigos, instituições acadêmicas e do Ministério Público da Bahia foi fundamental para atravessar o processo. Ainda assim, afirma que existe uma solidão inevitável quando a própria pessoa se torna o centro da violência racial.
“Eu consegui contar logo de cara com o apoio de um advogado, fui acolhido pelo Ministério Público, pelos amigos ao meu redor, pela universidade, pela própria Aliança Francesa. Mas quem estava na frente era eu. Diferente de outros casos em que já precisei atuar no passado, dessa vez quem era alvo da violência era a minha própria pessoa.”
Ao aprofundar a discussão sobre identidade racial, Mamadou relacionou sua experiência no Brasil ao conceito de “tornar-se negro”, desenvolvido pela psicanalista brasileira Neusa Santos Souza. Segundo ele, viver na Bahia transformou profundamente sua percepção sobre pertencimento, história e lugar social: “Me tornei negro com tudo o que isso significa de história, de olhar, de perspectiva, de lugar dentro da sociedade. Isso me aproximou profundamente da comunidade negra aqui na Bahia. Eu me sinto pertencente”.

Na avaliação do pesquisador, os ataques racistas sofridos também estão diretamente ligados às posições de liderança e visibilidade que ocupava em Salvador. Para ele, existe um incômodo histórico diante da presença de pessoas negras em espaços tradicionalmente associados ao poder intelectual e institucional. “Como assim um negro pode estar na frente de uma instituição importante da cidade de Salvador? Como assim um negro pode ser chefe de 30 funcionários? Como assim um negro pode ter essa cultura toda?”, exemplificou questionamentos recorrentes. “Isso não é esperado dentro desses espaços. Então, algumas pessoas queriam particularmente me derrubar justamente porque precisavam fazer um exemplo“.
Mamadou observa que o racismo atravessa pessoas negras independentemente de posição social, reconhecimento acadêmico ou prestígio profissional. Segundo ele, ocupar espaços de destaque não impede a violência e, em alguns casos, intensifica os ataques. “O racismo não diferencia”. Em outro momento da entrevista, acrescentou: “Sempre vai ter uma pessoa para lembrar que você não é digno de respeito”.
Ao comentar sua percepção sobre o sistema de Justiça, ele também criticou a tendência de associar vítimas legítimas apenas a figuras socialmente vulneráveis: “A justiça tem uma tendência de pensar que a vítima deve ser sempre uma pessoa muito humilde. Fazer reconhecer meu estatuto de vítima diante da justiça não foi simples justamente porque eu ocupava posições de prestígio.”
A sensação de desamparo institucional, segundo Mamadou, ficou ainda mais intensa diante da postura adotada pela representação diplomática francesa durante o caso. O pesquisador afirmou ter se sentido profundamente decepcionado com a ausência de manifestações públicas em defesa da sua trajetória profissional e contra os ataques racistas sofridos enquanto ainda exercia funções diplomáticas ligadas à França.
“Fiquei muito negativamente surpreso pela atitude da França. A representação diplomática francesa não se posicionou publicamente sobre esse assunto e perdeu uma oportunidade importante de afirmar princípios e valores“. Segundo Mamadou, o silêncio institucional contrastou com anos de atuação em defesa tanto de cidadãos franceses quanto brasileiros, especialmente durante a pandemia de covid-19, período em que afirma ter atuado diariamente para resolver situações emergenciais.
“Eu enfrentei a pandemia sozinho na minha casa, resolvendo cerca de 30 casos por dia. Tinha brasileiros e franceses precisando voltar para casa, precisando de ajuda, precisando localizar voos, transporte, assistência. Eu não fazia distinção entre brasileiros e franceses. Eu ajudava todas as pessoas que precisavam.”
Para ele, a ausência de respaldo institucional tornou a experiência ainda mais dolorosa: “Não é que a gente precise fazer um trabalho excelente para merecer respeito, mas quando você entrega um resultado excelente e mesmo assim sua competência é colocada em dúvida, isso dói”.
Ao comparar Brasil e França, Mamadou afirmou que as estruturas racistas operam de maneiras semelhantes em diferentes partes do mundo. Segundo ele, existe uma lógica internacional de minimização da violência racial e de questionamento constante das vítimas.
“O racismo é global. Os reflexos são muito parecidos de um território para outro. Existe uma tendência muito forte de minimizar o racismo, dizer que aquilo é só uma opinião ou questionar a competência da própria vítima. Cada caso de racismo vira uma nova oportunidade para a branquitude questionar a legitimidade da violência racista.”
Apesar disso, reconhece avanços importantes no contexto brasileiro, especialmente nas políticas de cotas raciais e na criação de instrumentos jurídicos específicos de combate ao racismo: “Em algumas dimensões, o Brasil está na frente”. A análise política de Mamadou também atravessa sua visão sobre direitos e cidadania. Durante a entrevista, ele citou o geógrafo Milton Santos para refletir sobre privilégios e desigualdade social no Brasil ao destacar que “a classe média brasileira quer privilégios, não quer direitos. Eu quero direitos para todo mundo. Não quero privilégio”.
Mesmo atravessado pelo processo judicial, Mamadou afirma seguir motivado pela atuação intelectual, política e cultural. Em diversos momentos da conversa, associou sua trajetória à defesa da educação, da saúde pública e da cultura como pilares fundamentais para transformação social. “Minha trajetória inteira é guiada pela coisa pública, pelo interesse nas pessoas, na cultura, na humanidade. A luta para mim não é sofrimento. É uma forma de viver a vida.”
Ao comentar sua visão política, relembrou uma conversa com o político francês Jean-Luc Mélenchon, liderança da esquerda francesa, cuja definição sobre militância afirma carregar consigo até hoje: “Anos atrás eu perguntei para ele o que era ser de esquerda. Ele respondeu: ‘Ser de esquerda é estar em estado de revolta permanente’. Eu sou revoltado em todos os sentidos. Revoltado sambando, revoltado no meu jeito de me colocar no mundo, revoltado quando vejo injustiça”.
Ao falar sobre propósito, expectativas e objetivos para o futuro, Mamadou voltou a falar sobre pertencimento, humanidade e propósito de vida. Disse acreditar que educação, saúde e cultura devem ser prioridades centrais em qualquer sociedade e afirmou desejar continuar atuando nesses campos entre Senegal, França, Brasil e outros territórios. “O propósito da vida é o amor. A gente está aqui para amar e ser amado […] A educação liberta as pessoas. Sem saúde a gente não consegue fazer nada. E a cultura faz o que a gente é”.



