
Em um país onde a maioria da população não se vê representada na ciência, o Mukengi surge como um gesto de ruptura e também de reconstrução. Criado em 2020 como uma iniciativa do Instituto Mancala, o projeto nasce da convicção de que não basta ampliar o acesso à ciência. É preciso transformá-la a partir de quem sempre esteve à margem dela.
O nome não é acaso. Mukengi, palavra de origem Kimbundu, língua banto falada em Angola, significa “pesquisador”. Ao adotá-lo, o programa não apenas nomeia, mas reivindica um lugar. O de pessoas negras e indígenas como protagonistas na produção de conhecimento científico. Não como exceção, mas como regra.
Desde sua primeira edição, o Mukengi reuniu jovens pesquisadores de diferentes regiões do Brasil, muitos deles os primeiros de suas famílias a ingressar na universidade, e os conectou a cientistas experientes que apostaram em algo ainda pouco comum no país. Uma ciência comprometida com os territórios, com a justiça social e com a transformação concreta da realidade.
O caminho não é abstrato. Primeiro vem a formação, um espaço de troca onde ciência, inovação, desigualdade racial e comunicação com comunidades são discutidos de forma integrada. Depois vem o movimento mais importante, o retorno ao território. É ali, no contato direto com as comunidades, que as perguntas ganham forma e as soluções começam a surgir.
E elas surgem.
Surgem em forma de tecnologias sociais capazes de mapear a fome em tempo real, permitindo que comunidades compreendam e enfrentem sua própria realidade com dados e autonomia. Surgem em plataformas que conectam resíduos a oportunidades, transformando o que antes era descartado em fonte de renda e dignidade. Surgem em ferramentas que combinam conhecimento ancestral e tecnologia para pensar o uso da energia de forma coletiva e sustentável, especialmente em territórios do semiárido.
Mais do que projetos, são respostas. Respostas que nascem de quem conhece o problema por dentro.
Ao longo de suas edições, o Mukengi construiu algo raro. Um espaço onde diversidade não é discurso, mas estrutura. Mulheres, pessoas negras, indígenas e oriundas de diferentes regiões do país não apenas participam. Elas lideram, criam, pesquisam e transformam.
Em 2025, essa potência ganhou ainda mais visibilidade com a realização do I Encontro Científico Mukengi, em Salvador. Um espaço pioneiro de diálogo entre
pesquisadores e comunidades, onde a ciência deixa de ser distante e passa a ser compartilhada, discutida e construída coletivamente.
Mas o próprio sucesso do Mukengi revelou seus limites. Projetos com impacto real exigem tempo, continuidade e acompanhamento. Foi a partir dessa constatação que o projeto iniciou sua transição para algo maior, um programa. Um programa capaz de sustentar pesquisas ao longo do tempo, apoiar financeiramente seus pesquisadores e garantir que as soluções não apenas nasçam, mas se consolidem.
Agora, o Mukengi dá um novo passo. Atravessa fronteiras. Em processo de internacionalização, inicia parcerias com instituições do Sul Global, como a Universidade de Rovuma, em Moçambique. Um movimento que reconhece que os desafios enfrentados no Brasil não são isolados e que as respostas também podem ser construídas de forma coletiva entre territórios que compartilham histórias, desigualdades e resistências.
O Mukengi não é apenas um programa de formação. É uma mudança de paradigma.
É a afirmação de que a ciência mais potente não nasce apenas em laboratórios, mas também nas comunidades, nas experiências vividas e nos saberes ancestrais. E que, quando essas vozes ocupam o centro da produção científica, o que se transforma não é apenas a ciência. É o futuro.



