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Encontro em Salvador discute arquivos comunitários, apagamento cultural e disputa por memória

Foto: Reprodução/YouTube/Zumví Arquivo Afro Fotográfico

Pesquisadores e ativistas participaram do encontro “Arquivos Comunitários, Território e Disputas pela Memória”, realizado em Salvador, com o objetivo de discutir o papel dos acervos na preservação de identidades e na construção de narrativas históricas. O evento reuniu representantes de iniciativas como o Zumví Arquivo Afro Fotográfico e o Museu da Maré, além de especialistas ligados a instituições públicas e projetos de memória.

Durante o Fórum Aberto, o jornalista e ativista Edson Cardoso, do ÌROHÌN: Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-brasileira, chamou atenção para o apagamento de práticas culturais cotidianas como sintoma de uma perda mais ampla de memória coletiva. “Me diga onde você vai achar uma cocada-puxa, uma cocada de coco verde. Existe uma cultura que está indo embora”, afirmou.

Segundo ele, não se trata apenas do desaparecimento de saberes, mas também da ruptura com experiências sensoriais e afetivas. “Quem sabia fazer já foi embora. Já não se tem mais nem a memória disso”, disse. Ao citar mudanças na alimentação, acrescentou: “Tem gente que não tem memória de que o feijão cheirava”, criticando o que considera uma descaracterização de referências culturais.

Cardoso também ampliou a reflexão para a dimensão histórica e racial do país. “Nós somos o país com o maior número de descendentes de africanos. E as pessoas estão querendo saber onde está a África”, questionou. Para ele, esse distanciamento revela falhas na transmissão de memória em uma sociedade marcada pela escravidão. “Milhões de pessoas formam o país que mais escravizou e por mais tempo escravizou”, afirmou, ao defender maior consciência histórica sobre esse legado.

A mediação do debate contou com o pesquisador Jean Camoleze, do Programa Pró-Memórias, que destacou o papel ambíguo dos arquivos na construção das narrativas. Segundo ele, registros institucionais podem tanto invisibilizar quanto resgatar trajetórias humanas.

“No arquivo do Estado, jovens negros mortos na periferia de São Paulo são números. A humanidade se perde ali”, afirmou. Em contraponto, Camoleze citou iniciativas que buscam reverter esse processo de desumanização. “Tem um coletivo chamado ‘Nome aos Números’ que escreve a memória desses jovens que foram mortos pela polícia militar e pela violência de Estado”, disse.

Para o pesquisador, esse contraste evidencia a disputa em torno da memória. “O arquivo, de um lado, pode desumanizar e, de outro, pode humanizar”, destacou.

Camoleze também reforçou a importância da memória como elemento estruturante das sociedades, retomando uma metáfora discutida no encontro. “Um povo sem memória é como um carro sem motor. E o que se faz com um carro sem motor? Você joga na ribanceira e ele se acaba”, afirmou. Segundo ele, a ausência de memória não apenas paralisa, mas também pode levar à destruição de identidades e histórias.

O encontro teve como foco a articulação entre iniciativas comunitárias e instituições públicas, discutindo temas como acesso, preservação e políticas de custódia. A proposta foi colocar em diálogo diferentes experiências e refletir sobre o papel político dos arquivos na afirmação identitária e na resistência ao apagamento histórico.

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