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Não ganhamos o Oscar, mas fizemos história

Equipe de “O Agente Secreto” no tapete vermelho do Festival de Cannes | Foto: Soraya Ursine/Divulgação

Desde maio de 2025, quando a equipe de O Agente Secreto desceu pelas ruas de Cannes dançando frevo, o mundo percebeu que algo especial estava chegando aos cinemas. O Brasil não estava apenas pedindo passagem, estava ocupando. Levar duas palmas em uma mesma edição do cobiçado Festival de Cannes (direção e ator) foi uma confirmação disso. E aquilo foi apenas o começo.

Desde então, o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho colecionou prêmios, passando por quinze festivais e vencendo mais de vinte e cinco premiações, entre elas o Globo de Ouro, o Critics Choice e o Spirit Awards.

O Oscar seria apenas a coroação final de uma jornada incrível. E, mesmo que não tenha levado nenhuma estatueta, ser indicado a quatro categorias, inclusive, melhor filme, é um feito a se orgulhar. Para o Brasil, ter dois anos consecutivos com destaque na premiação mais prestigiada do cinema é também uma importante vitrine.

Apesar da frustração brasileira, a cerimônia do Oscar teve momentos memoráveis. A começar pela quebra de um tabu: finalmente, após 96 edições, uma mulher venceu na categoria de melhor direção de fotografia. E uma mulher negra. Autumn Durald Arkapaw não apenas venceu, como tornou esse momento ainda mais marcante ao pedir que todas as mulheres presentes no teatro se levantassem, pois ela não teria chegado ali sozinha. Pecadores, filme pelo qual foi responsável pela fotografia, também entrou para a história como a obra com maior número de indicações (dezesseis no total). O recorde anterior era de quatorze indicações para Titanic e A Malvada.

O grande vencedor da noite, no entanto, acabou sendo Uma Batalha Após a Outra. Ou melhor, Paul Thomas Anderson. Diretor aclamado, mas que ainda não tinha essa estatueta dourada, ainda que acumulasse cinco indicações em sua carreira. O cineasta já colecionava prêmios nos três principais festivais de cinema (Cannes, Veneza e Berlim) e já tinha um BAFTA; faltava mesmo o Oscar. O filme ganhou ainda a categoria principal de melhor filme, a nova categoria da premiação (direção de elenco), melhor roteiro adaptado, melhor montagem e melhor ator coadjuvante para Sean Penn.

Uma Batalha Após a Outra encerra, então, a temporada de premiações consagrado como grande vencedor. Mas isso não diminui o feito dos demais filmes de destaque, em especial Pecadores e, por que não, O Agente Secreto, obras que provavelmente entrarão para a história do cinema ao apontar para disputas de linguagem, mercado e representação. Isso pode servir de combustível para que o mercado brasileiro continue aquecido. Afinal, o cinema nacional não é mais uma promessa, e sim, uma possibilidade concreta de continuidade após dois anos consecutivos com destaques internacionais.

A inspiração maior está no exemplo da Coreia do Sul. Quando o país percebeu nos anos de 1980 que investir na indústria cinematográfica era vantajoso para a economia local, deu início a onda coreana que invadiu o mundo e culminou na consagração da animação Guerreiras do K-Pop como melhor animação, espaço tradicionalmente ocupado por estúdios como Disney e Pixar, além de canção original. Isto torna-se um lembrete estratégico: investimento consistente em cultura não gera apenas prestígio simbólico, mas impacto econômico e presença global.

Quando a diretora coreana Maggie Kang, ao receber o prêmio reforça a importância da representatividade, ela não está apenas celebrando uma vitória. Está nomeando uma demanda. Queremos nos ver. Nas telas, nas narrativas, nos imaginários.

E, se Cannes começou com um frevo, talvez o recado seja simples: quando essa presença acontece, ela não passa despercebida. Ela muda o ritmo o jogo. Que sejamos plurais, como o cinema merece.

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Gabriel Santos
Gabriel Santos
8 horas atrás

Boa analise!

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