
A Bahia deve registrar cerca de 2.170 novos casos de câncer colorretal em 2026, segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Desse total, aproximadamente 590 diagnósticos devem ocorrer em Salvador. No Brasil, a previsão é de 53.810 novos casos da doença no mesmo período, o que reforça o alerta de especialistas para a prevenção e o diagnóstico precoce.
Também chamado de câncer de intestino, o câncer colorretal é atualmente o segundo tipo de tumor mais frequente entre homens e o terceiro entre mulheres no país, desconsiderando os casos de câncer de pele não melanoma. No cenário mundial, projeções da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) indicam que o número de novos diagnósticos pode saltar de cerca de 1,9 milhão, registrados em 2020, para 3,2 milhões por ano até 2040, um crescimento estimado em 63%.
De acordo com especialistas, hábitos relacionados ao estilo de vida estão entre os principais fatores de risco para a doença. O oncologista Eduardo Moraes explica que a obesidade, tradicionalmente associada a doenças cardiovasculares, também está ligada ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer, incluindo o colorretal. Segundo ele, alimentação inadequada, sedentarismo, histórico familiar, inflamações intestinais crônicas e presença de pólipos no intestino aumentam a probabilidade de surgimento do tumor.
O alerta ganha maior relevância diante do cenário de excesso de peso no país. Dados do sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, indicam que 62,6% da população brasileira apresenta sobrepeso, enquanto 25,7% vive com obesidade.
Para reduzir os riscos, especialistas recomendam mudanças no estilo de vida. Entre as orientações estão manter uma alimentação rica em fibras e alimentos in natura ou minimamente processados, limitar o consumo de carne vermelha, evitar o tabagismo, praticar atividades físicas regularmente e reduzir o consumo de bebidas alcoólicas.
Alterações no hábito intestinal, como diarreia ou constipação, mudanças no apetite, anemia, presença de sangue nas fezes, fraqueza, perda de peso sem causa aparente e dores abdominais estão entre os sintomas que podem indicar a doença. Segundo médicos, ao perceber qualquer um desses sinais, é fundamental procurar atendimento médico para investigação.
Especialistas alertam, no entanto, que os sintomas muitas vezes aparecem apenas em estágios mais avançados do câncer, o que contribui para diagnósticos tardios e aumento da mortalidade. Por isso, o rastreamento por meio de exames periódicos é considerado essencial.
O câncer colorretal engloba tumores que se desenvolvem no cólon, que é parte do intestino grosso, e no reto. Cerca de 90% dos casos têm origem em pólipos, lesões benignas que surgem na parede interna do órgão e podem evoluir para câncer ao longo do tempo.
A colonoscopia é o exame mais eficaz para a detecção precoce desses tumores. O procedimento consiste na introdução de um tubo flexível com câmera na extremidade, permitindo visualizar o intestino grosso e identificar ou remover pólipos e lesões suspeitas.
A recomendação geral é que o primeiro exame seja realizado entre os 45 e 50 anos em pessoas sem sintomas ou fatores de risco, com repetição a cada cinco ou dez anos, conforme orientação médica. Em pacientes com histórico familiar de câncer de intestino ou doenças inflamatórias intestinais, o rastreamento pode começar mais cedo.
Segundo especialistas, quando o câncer colorretal é diagnosticado em estágio inicial e tratado adequadamente, as chances de cura podem superar 90%.
Estudos recentes conduzidos por pesquisadores baianos também têm contribuído para ampliar o conhecimento sobre a doença e melhorar as estratégias de tratamento.
Uma pesquisa liderada pelo oncologista Bruno Protásio identificou que tumores localizados no lado direito do intestino apresentam prognóstico pior do que aqueles situados no lado esquerdo. O estudo acompanhou mais de 250 pacientes com câncer colorretal em estágio III tratados com cirurgia e quimioterapia, ao longo de cerca de cinco anos. O trabalho foi publicado na revista científica Clinical Colorectal Cancer e também divulgado pela Universidade de São Paulo.
Os resultados indicam a necessidade de atenção redobrada no acompanhamento de pacientes com tumores nessa região do intestino, considerada de maior risco para evolução desfavorável da doença.
Outro estudo, conduzido pela oncologista Mônica Kalile durante pesquisa de mestrado na Fiocruz Bahia, comparou a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) com tratamentos convencionais em pacientes com adenocarcinoma de reto localmente avançado, o tipo histológico mais comum de câncer colorretal.
A análise, que acompanhou 137 pacientes atendidos em centros oncológicos da Bahia entre 2019 e 2023, mostrou que a TNT apresentou taxas de resposta clínica e patológica quase três vezes superiores às terapias tradicionais. Além disso, a abordagem reduziu em mais de 50% a necessidade de retirada do esfíncter anal e o uso permanente de colostomia.
Segundo os pesquisadores, a terapia combina quimioterapia sistêmica e quimiorradioterapia antes da cirurgia, com o objetivo de reduzir o tamanho do tumor e aumentar as chances de sucesso do tratamento. A estratégia também pode contribuir para preservar funções do organismo e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.


