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O custo do silêncio: menopausa afeta a carreira de quase metade das trabalhadoras no Brasil

Dados mostram que a omissão do Estado e do setor privado sobre o climatério gera perdas bilionárias e expulsa mulheres no auge da maturidade profissional do mercado.

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Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o debate corporativo sobre equidade de gênero costuma ser pautado por homenagens simbólicas, mas ignora um gargalo estrutural que afeta diretamente a economia e a permanência feminina no mercado de trabalho: a menopausa. Longe de ser apenas uma questão fisiológica, o tema representa hoje a maior lacuna de política pública em saúde feminina no Brasil, com impactos diretos na produtividade e na progressão de carreira.

A conclusão é do relatório “A Força Invisível da Economia: Mulheres na menopausa e o futuro do trabalho no Brasil”, elaborado pelo Instituto Esfera. O documento escancara o peso demográfico dessa população: há cerca de 29 milhões de brasileiras entre 40 e 65 anos na fase climatérica. Destas, 63% são economicamente ativas e, em grande parte, as principais provedoras de renda de suas famílias.

Apesar da força de trabalho expressiva, os dados do estudo revelam um ambiente hostil. No Brasil, 47% das trabalhadoras relatam impactos negativos da menopausa na vida profissional, índice superior à média global de 36%. Os reflexos são medidos em números: 26% apontam queda de produtividade devido a sintomas físicos e cognitivos severos, como brain fog (névoa mental), fadiga crônica e insônia. O estigma é tão enraizado que 17% têm receio de comunicar a condição aos gestores e 49% percebem o período como uma barreira real à progressão na carreira.

Falha estrutural do Estado e miopia corporativa

O relatório do Instituto Esfera aponta que tratar a menopausa de forma pejorativa ou negligenciá-la gera perdas estruturais graves. No âmbito público, a fragmentação do Sistema Único de Saúde (SUS) impede um manejo sistêmico. A ausência de uma política nacional vinculante e as barreiras de acesso à Terapia Hormonal da Menopausa (THM) resultam no agravamento de doenças crônicas a longo prazo, como Alzheimer, osteoporose e problemas cardiovasculares, sobrecarregando a previdência e o próprio sistema de saúde.

No setor privado, a ausência de suporte contrasta com o avanço das agendas ESG (Ambiental, Social e Governança). O mercado empurra mulheres no auge de sua qualificação e experiência para fora das empresas por não implementar medidas de baixo custo e alto impacto. O documento sugere que adaptações no ambiente físico (climatização e flexibilização do código de vestimenta), políticas de teletrabalho e horários adaptáveis deveriam ser tratadas como ferramentas estratégicas de retenção de talentos, e não como concessões.

Para além das flores e discursos no Dia da Mulher, o relatório traça um diagnóstico claro para governos e empresas: apoiar mulheres durante o climatério não é apenas uma obrigação de saúde pública, mas uma decisão econômica racional. A criação de uma Política Nacional de Atenção ao Climatério e a inclusão do tema nos programas de saúde ocupacional das empresas são os primeiros passos para estancar um custo econômico muito superior ao investimento necessário para garantir o suporte adequado.

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