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Samba, território e resistência: Proibido Proibir celebra 45 anos e cobra valorização do gênero no Carnaval

Foto: Arquivo pessoal

Criado no Engenho Velho da Federação a partir de rodas de samba entre amigos, o bloco Proibido Proibir construiu, ao longo de mais de quatro décadas, uma trajetória marcada pela defesa do samba, da cultura negra e da atuação social nas comunidades de Salvador. Fundado em 1980, o bloco se consolidou como uma das principais referências da chamada Quinta do Samba, no Circuito Campo Grande.

Dirigente do bloco, Luiz Claudio, conhecido como Luizinho ou Lula, conta que a origem do Proibido Proibir está diretamente ligada à iniciativa do pai, Raimundinho, e de um grupo de moradores do bairro. “Meu pai, Raimundinho, junto com um grupo de amigos, se reunia para fazer samba aqui no Engenho Velho da Federação. Dessas rodas surgiu o bloco Proibido Proibir, criado em 1980. No começo, a gente tinha uma charrete, um trenzinho, um trailer puxado por um jipe, com uma banda tocando em cima”, relembra.

Primeiros anos do bloco foram fora do circuito oficial do Carnaval | Foto: Arquivo pessoal

Nos primeiros anos, o desfile acontecia fora do circuito oficial do Carnaval e reunia apenas homens, com vestimenta padronizada. Sem acesso aos grandes espaços da festa, o bloco passou a ocupar as ruas do próprio bairro e, mais tarde, avançou até o Campo Grande, mesmo fora do horário oficial. “Era a alegria de um bloco de periferia chegando ao Campo Grande. Mesmo sem público naquele horário, para a gente era importante ocupar aquele espaço e mostrar que também podia estar ali”, afirma Luiz Claudio.

Com o crescimento dos ensaios dominicais, surgiu a Banda Proibido Proibir, formada inicialmente pelos próprios integrantes do bloco. O grupo ganhou projeção e passou a circular por diferentes bairros de Salvador, pelo Recôncavo baiano e até por outros estados. “O que começou como um grupo de amigos acabou criando a Banda Proibido Proibir, que virou uma banda de show, com outra projeção e outro nível de trabalho”, explica.

Um dos momentos mais difíceis da trajetória ocorreu no fim dos anos 1990, após a tentativa frustrada de trazer Netinho de Paula para participar do desfile. A repercussão foi grande, mas a estrutura financeira do bloco não comportou os custos. “Foi uma dor muito grande. A gente não tinha estrutura financeira para aquilo. Depois disso, meu pai reuniu os amigos e disse: ‘A partir de hoje, o bloco precisa ser pensado como empresa’”, conta.

Ausência de Netinho de Paulo causou frustração na época | Foto: Arquivo pessoal

A decisão levou a uma reestruturação profunda. Raimundinho apostou recursos próprios, formalizou o grupo e recolocou o bloco nas ruas no ano seguinte, priorizando artistas locais. “A gente voltou com a prata da casa, com grupos daqui mesmo, e o público respondeu”, afirma Luiz Claudio.

Em 2001, o Proibido Proibir firmou parceria com o grupo Revelação, que durou cinco anos e levou o bloco a atingir a marca de 6.500 associados no Campo Grande. Apesar do sucesso, a direção optou por encerrar o acordo. “Chegou um momento em que a fantasia custava R$ 400, R$ 500, e a nossa comunidade não conseguia acompanhar. A gente percebeu que estava se afastando da origem, que sempre foi fazer um bloco para o bairro”, diz o dirigente.

De volta às origens, o bloco passou a investir novamente em artistas locais e a fortalecer o samba produzido na cidade, com parcerias com grupos como Quebra do Pagode, Opção 3, Moraes, Catulé e Fuzucada. Também foi pioneiro na ocupação da Feira de São Joaquim com ensaios semanais. “A gente ficou seis anos fazendo ensaio todo domingo na Feira de São Joaquim. Hoje a feira virou um polo turístico do samba, com vários grupos que surgiram a partir desse movimento”, destaca.

Luiz é dirigente do bloco Proibido Proibir | Foto: Arquivo pessoal

Mais recentemente, o Proibido Proibir firmou parceria com a Bonfim Produções e com a banda Terra Samba, atraindo um novo perfil de público sem abandonar a identidade do bloco. Em 2026, no entanto, o grupo ficou de fora do edital Ouro Negro. Para Luiz Claudio, a situação revela uma contradição. “A Quinta do Samba só se mantém porque blocos como Proibido Proibir, Amor e Paixão, Pagode Total e Alerta Geral seguraram a peteca. Mesmo assim, o apoio público e privado ainda é muito insuficiente”, avalia.

Além do Carnaval, o dirigente ressalta o papel social desempenhado pelos blocos de samba ao longo do ano. Segundo ele, parte significativa dos abadás é distribuída por meio de cortesia solidária, trocada por alimentos que são doados a instituições. “O bloco não é só festa. A gente trabalha o ano inteiro com ação social, distribuição de alimentos, atendimento comunitário e atividades culturais”, afirma.

Luiz Claudio também defende o reconhecimento do samba como força econômica e cultural. “Hoje tem samba em Salvador de segunda a segunda. O samba gera emprego, renda, movimenta a economia e sustenta o Campo Grande”, diz.

Foto: Arquivo pessoal

No ano em que o Carnaval homenageia os 110 anos do samba, o dirigente cobra coerência do poder público e da iniciativa privada. “Não adianta dizer que o tema do Carnaval é o samba e abrir a festa com atrações de outros gêneros. Isso enfraquece a Quinta do Samba e quem vive do samba o ano inteiro”, critica.

Entre as propostas defendidas estão a criação de uma Casa do Samba, políticas públicas específicas e maior representação de sambistas nos espaços de decisão. “O samba é identidade, é resistência e precisa ser valorizado enquanto seus protagonistas estão vivos”, conclui.

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