
A historiadora e escritora baiana Luciana da Cruz Brito lançou nesta sexta-feira (19) o livro “Reparação: memória e reconhecimento”, obra organizada por ela que reúne reflexões sobre políticas antirracistas e caminhos para reparar séculos de violências históricas, somando-se às demandas por justiça e igualdade. O lançamento aconteceu às 19h, no Zumví Arquivo Fotográfico, no Pelourinho, e contou com a participação dos escritores Alex de Jesus e Valdecir Nascimento, além de representantes da militância negra baiana.
“O título do livro na verdade é uma fórmula”, afirma o escritor Alex de Jesus. Para o escritor e professor adjunto do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco, a reparação descrita na obra da qual faz parte chama atenção para o não reconhecimento do negro numa sociedade que expõe sua visibilidade.
Em tempos de debates sobre o verdadeiro conceito de democracia e a distorção do uso dos direitos civis à anistia, Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra e articuladora da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, falou ao Portal UMBU sobre a importância dessa literatura para as cerca de milhões de mulheres negras ainda vivas no Brasil.
“Estou no Comitê Nacional para levar um milhão de mulheres negras para Brasília e eventos como esse, nesse contexto onde reparação é um dos eixos estruturantes e marco de contemporaneidade de nossa luta, nos mostra o quanto é importante que possamos abrir portas, busquemos o que já foi produzido sobre o tema, mas que a gente aprofunde e refine o tema para que a gente não fique duvidando sobre o conceito real do que é reparação e bem viver”, afirmou a historiadora pela UFBA e mestra pela UNEB, que entrou no Movimento Negro Unificado (MNU) aos 20 anos e fundou o Grupo de Mulheres do MNU.
Para Valdecir, reparação não é uma questão de conceituação. A historia conta que, da sua perspectiva, ao usar a palavra “reparar”, se faz necessário aprofundar, pois é necessária uma “reparação da existência” e não só monetária. A fundadora do Grupo de Mulheres do MNU não menospreza a importância da reparação monetária, mas afirma ser necessário requerer a parte que cabe ao povo negro, ressaltando a importância de se pensar no futuro do povo negro do país.
Presente no lançamento literário, o escritor e jornalista Zé Ricardo Ferreira destaca a importância do Centro Histórico como ponto de encontro e referência não só para a valorização do Pelourinho, mas também para quem transita diariamente pelo local e que produz cultura no entorno ou tem esse espaço como fonte de inspiração.
“A própria possibilidade de pessoas e escritoras negras de estarem em casa falando sobre o seu trabalho, apresentando o seu trabalho em alinhamento, se combinando. Somos nós falando de nós mesmos num lugar ao qual nós nos sentimos pertencentes. Eu faço curadoria de literatura afrocentrada, de literatura negra e afro-indígena, e o texto de Luciana da Cruz, a linguagem dela e a forma como ela nos olha é de extremo respeito, cuidado e que precisa ser partilhada”, enfatizou o jornalista.

Para o escritor e jornalista baiano, tanto a escrita de Luciana da Cruz como as demais escritoras negras referenciadas dão ao público a oportunidade de conhecer um pouco mais da nossa história e de quem nós somos, o que se torna o ponto central de eventos como este e viabiliza a tomada posse do que é nosso de fato.
Já para José Carlos, historiador e diretor de Relações Institucionais da Zumví, lançamentos literários como o da obra de Luciana da Cruz são uma abertura de “portas” para outros lançamentos literários, tendo o espaço da Zumví como possibilidade de ocupação racial na cultura.
“Luciana é uma grande pesquisadora no campo da história social e tem uma visão incrível sobre as relações humanas, o ativismo militante e a visão do negro na sociedade brasileira. Esse livro ‘Reparação: memória e reconhecimento’, trazendo essa série de autores que dialogam com relações afirmativas do povo negro e suas narrativas, apresenta elementos críticos, mas também entrega um trabalho de pesquisa e coletânea incrível”, afirmou o mestre em História Social pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
O encerramento do evento contou com um coquetel para os convidados, oferecido pela empresa empreendedora baiana “Me Despache”, que serviu um buffet de quitutes da culinária baiana aos fãs da literatura de Luciana da Cruz e Alex de Jesus. O livro está disponível para compra online no site da editora Fósforo e também no site da Amazon.
Texto por: Patrícia Bernardes Sousa – jornalista, redatora, colunista, mobilizadora de projetos de Impacto Social em Educação, Letramento e Cultura Identitária e repórter colaboradora do Portal Umbu.


