
A Orquestra Afrosinfônica e a cantora, compositora e multi-instrumentista, Marisa Monte levaram o público baiano ao delírio na noite desta sexta (04), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador. O espetáculo foi organizado como parte das celebrações dos 51 anos da Coordenadoria Ecumênica de Serviços (Cese), em prol da captação de recursos para os Pequenos Projetos da instituição, que já reúne em sua trajetória mais de 14 mil projetos que beneficiam cerca de 10 milhões de pessoas entre membros da população rural e urbana na Bahia e no Brasil.
Para Sônia Mota, diretora executiva da Cese, a celebração se dá pela conquista de poder trazer para o público da Bahia um show da cantora Marisa Monte com a Orquestra Afrosinfônica, sob a batuta do maestro Ubiratan Marques. “51 anos de serviço às populações mais vulnerabilizadas do nosso país. Essa é a Cese. Apoiando vários projetos, inúmeros em todo o Brasil, tanto na área urbana quanto na área rural. Juventude, quilombolas, povos indígenas. Esse é o momento que celebramos por saber que estamos no lado certo da história. Defendendo direitos, direitos humanos, quando a gente sabe que no Brasil cada vez mais sabemos o quanto essa pauta vem sendo criminalizada”, afirmou Sônia Mota, diretora executiva da Cese.
Antonio Dimas, coordenador de projetos da Cese, relata que esse show coroa a 5ª edição do Música e Direitos, num diálogo entre a Cese e a sociedade para falar de direitos humanos, legado à arte, à cultura e à música. Para Dimas, quase não se vê a arte, a cultura e a música associadas à luta pelos direitos humanos, os direitos para as populações mais vulneráveis, mais fragilizadas. Segundo ele, o show beneficente tem a importância não só para levantar recursos para apoiar projetos, mas por ressoar na sociedade.
Patrícia Gornano, coordenadora de comunicação da Cese, falou sobre o trabalho de fomentar e ampliar a fala da instituição ao longo dos anos nas comunidades rurais e urbanas da Bahia e pelo Brasil. Para Gornano, estar na Cese ao longo de doze anos é uma grata alegria. A Cese, segundo Patrícia, nesses 51 anos, fortaleceu diversas iniciativas de movimentos populares: “projetos sementes” de mulheres indígenas, de mulheres negras, juventudes, comunidades rurais e urbanas. O apoio dado pela instituição é fruto de cooperação internacional, de fundações e institutos — são recursos e mobilizações muito caras.
“Nossa mobilização tem o propósito de fortalecer todas as lutas e pautas relacionadas aos direitos humanos. Em período de retrocesso e ataque à democracia, defender os direitos humanos na base, nos territórios onde nem sempre os recursos públicos chegam, é a missão da Cese. Para gente, promover esse show é de extrema importância por conseguir mobilizar em nosso país recursos através da arte e da cultura, com apoio de artistas como Letieres, Lenine, Gilberto Gil, Ubiratan Marques e agora a nossa Marisa Monte”, finalizou Gornano.
A Orquestra
Criada em 2009, a Orquestra Afrosinfônica é um coletivo de pessoas negras, que atua no universo da diáspora no desenvolvimento de processos de pesquisa, estudo e construção de repertório. A Orquestra reúne 19 instrumentistas, além das quatro vozes femininas, que aliam o desafio de uma abordagem erudita à música afro-brasileira com inspiração na musicalidade das religiões de matrizes africanas e em canções populares, reforçando a tradição dos grupos afros da capital baiana na poesia de suas composições. Nesse contexto, a percussão, os sopros e as vozes são elementos principais.
Violoncelista e contrabaixista da Orquestra Afrosinfônica, Angelo Santiago, lembrou que o grupo completa 15 anos de existência. Para coroar essa data especial, o momento não poderia ser melhor do que a apresentação desta sexta-feira ao lado da ativista de Direitos Humanos, Marisa Monte, em prol dos projetos da Cese.
Para Angelo, fazer parte da Afrosinfônica é saber a importância de se celebrar uma instituição como a Cese com seus 51 anos de trajetória, proporcionando equilíbrio e uma vida melhor para todos os povos, parafraseando a música “Vilarejo” da cantora Marisa Monte. “Eu acho que toda uma proposta de contribuição para uma sociedade para que se tenha mais equidade e equilíbrio social é importante, e as ações são as coisas mais importantes. O discurso é importante, a palavra é fundamental, mas a ação é o fundamento da transformação”, vibrou o músico.
Corista da Orquestra Afrosinfônica e destaque da música pop em Salvador, Gab Ferruz destacou a importância de cantar ao lado de Marisa Monte celebrando a 5ª edição do “Música e Direitos”, por conta dos 51 anos de atuação da Cese. A cantora teve seu álbum Ferruz, lançado em janeiro de 2025, e não escondeu a emoção de estar no palco sob a regência do maestro Ubiratan Marques e a elegância musical de Marisa Monte.
“Participar do naipe de vocês da Orquestra Afrosinfônica é um presente de orixá pra mim, pra minha vida, pra minha carreira, em poder partilhar com os meus, trazendo à música esse momento, essa partilha com Marisa e o Cese. Poder ajudar de alguma maneira todas essas famílias através dessa apresentação, muitas e tantas famílias, me deixa muito feliz e muito grata. Agradeço à Cese, à Marisa, à Afrosinfônica por me permitir estar nesse palco”, finalizou Ferruz.
O espetáculo
Cercada de carinho dos admiradores do seu trabalho, a cantora Marisa Monte viveu um momento especial antes de subir ao palco. Com a presença do babalorixá, escritor e antropólogo-pesquisador Vilson Caetano, sacerdote do Terreiro Ilê Obá L’Okê, e de Padre Lázaro, pároco da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, sediada no Pelourinho, uniu a fé e a devoção em forma de oração. Isso porque, antes do espetáculo iniciar, com toda a equipe de músicos, produção e membros da Cese reunidas, eles pediram para que Deus e os orixás fizessem da noite desta sexta (04), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, uma noite de paz e de vitórias durante toda a apresentação da cantora carioca e da Orquestra Afrosinfônica.
Numa plateia lotada com um público repleto de baianos, turistas, personalidades da música e da gestão cultural da Bahia, a juventude marcou presença para prestigiar a cantora Marisa Monte e a Orquestra Afrosinfônica, é o caso da produtora cultural Tássia de Matos. Natural da cidade de Cachoeira e radicada em Salvador, a jovem definiu como “emocionante” estar presente num show da cantora Marisa Monte. Segundo ela, desde criança é muito fã da Orquestra Afrosinfônica e, desta forma, a cachoeirense uniu a sua paixão pela música e por sua profissão em financiamento de projetos coletivos para curtir o show beneficente na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

Marisa Monte, que é filha do engenheiro Carlos Saboia Monte, ex-diretor da Escola de Samba Portela, no Rio de Janeiro, se transformou em uma das principais vozes da Música Popular Brasileira. Alcançando a fama em 1989, a cantora carioca chegou a estudar na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mudando-se para Roma, na Itália, onde estudou belcanto.
Como mestre de cerimônia e cantando na abertura da 5ª edição do “Música e Direitos Humanos”, a cantora e escritora Beatriz Tuxá, oriunda do povo Tuxá Kiniopará, aldeia próxima da cidade de Ibotirama (BA), emocionou a todos na abertura do show beneficente da Cese. Tuxá traz em suas canções e poesias suas vivências e as histórias do seu povo. Ela é bacharel em Comunicação Social em Produção Cultural pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e ativista da causa indígena, buscando desenvolver projetos que promovam visibilidade à cultura dos povos originários.
Marisa Monte entrou no palco ovacionada pelo público que lotou a Concha Acústica do Teatro Castro Alves. No repertório do show, estão as canções do próprio repertório de Marisa misturadas com os hits da Música Popular Brasileira. Entre as músicas apresentadas pela artista ao lado da Orquestra Afrosinfônica estão “Vilarejo”, “Preciso Me Encontrar”, “Carinhoso” “Panis Et Circenses”, entre outros hits da discografia de Marisa.
Em um arranjo musical especial desenvolvido pelo maestro Ubiratan Marques, a cantora Marisa Monte encantou a todos a cada acorde da sua música “Lendas das Sereias”, homenageando as entidades do mar em uma rica homenagem à cultura afro-brasileira e à crença popular.
*Matéria escrita por Patrícia Bernardes Sousa, jornalista, redatora e mobilizadora de projetos de Impacto Social na Bahia e no Brasil.



