Estudo divulgado na revista Historical Biology analisou fósseis coletados entre 1859 e 1906 na região

Um estudo coordenado por professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) identificou uma nova espécie de dinossauro, a Tietasaura derbiana, na bacia do Recôncavo Baiano. De acordo com a pesquisa, publicada em uma publicação científica internacional em abril, se trata da ossada mais antiga encontrada na América do Sul para um grupo de dinossauros, já raros de serem localizados na região.
O trabalho divulgado na revista Historical Biology analisou fósseis coletados entre 1859 e 1906 na região, principalmente em terras indígenas de Massacará e llhas. Os ossos foram redescobertos por paleontologistas recentemente, expostos no Museu de História Natural de Londres.

O achado dos pesquisadores foi nomeado em homenagem à Tieta do agreste, personagem emblemático do autor baiano Jorge Amado. Já o “sobrenome” do dinossauro recebeu o nome do geólogo e naturalista Orville A. Derby, fundador do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil e um dos pioneiros da paleontologia brasileira.
Durante a análise, foi identificada a espécie nova, a primeira no Brasil de um dinossauro do grupo dos ornitísquios, uma ordem de dinossauros herbívoros, caracterizados pelo focinho em forma de bico e pela estrutura da pélvis que se assemelha à das aves.
“Os achados descritos nesta pesquisa representam, não apenas uma das faunas de dinossauros mais diversas deste intervalo de tempo, mas também uma descoberta histórica importante”, ressalta Bandeira. “As ocorrências de dinossauros em depósito Pré-Barremiano, ou seja, de cerca de 130 milhões de anos atrás, são raras, mundialmente falando, e consideradas produto de uma escassez global de depósitos continentais desse período”, completa.
Os resultados publicados neste mês de abril fornece novas perspectivas sobre a evolução e diversificação dos dinossauros, além de destacar a necessidade de preservar coleções históricas para o avanço da ciência.
A pesquisa foi coordenada pelas pesquisadoras Kamila Bandeira e Valéria Gallo, ambas do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (Ibrag) da Uerj. De acordo com elas, a descoberta da Tietasaura derbiana mostra que a espécie existiu no Brasil durante o Cretáceo, período da era Mesozoica em que ocorreu a fragmentação do ex-continente Gondwana.
Ele deu origem ao que hoje conhecemos por América do Sul, Antártica, Austrália e África. O estudo revela ainda que outras espécies similares à encontrada no Recôncavo Baiano foram observadas no litoral de países da África.
Na avaliação do presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, Hermínio Ismael de Araújo Júnior, a pesquisa é um “achado único na paleontologia brasileira” por mostrar evidências de que um grupo raro de dinossauros na América do Sul viveu no Brasil.
“Esses dinossauros são muito raros na América do Sul, e a Tietasaura é um dos primeiros achados desse grupo. No Brasil, antes desse achado, a gente tinha unicamente pegadas, como por exemplo as encontradas lá na Bacia de Sousa (PB), também datadas do Cretáceo. A gente praticamente não tinha ossos ou dentes desses animais encontrados no Brasil. Esse achado é muito importante porque ele consiste numa raridade em termos de registro para a América do Sul como um todo, e em especial para o Brasil”, afirma o pesquisador.
De acordo com ele, a descoberta ainda produz alterações na forma como a dispersão desses animais foi percebida na História. Araújo Júnior avalia que, pelo período em que foi encontrado na região, é possível que os ornitisques, grupo em que a Tietasaura está enquadrada, podem ter uma origem diferente do que se entendia antes dentro da paleontologia.



