Em Salvador, a data é festejada não só para aqueles que vão depositar seus presentes, mas por aqueles que estão prontos para fazer uma grana extra
Casa de Iemanjá no Rio Vermelho | Foto: Yasmin Cardim
Yemoja, Janaína, Mãe d’Água, Dandalunda, Rainha do Mar. São muitos os nomes reverenciados para celebrar a mãe de todos os orixás, conhecida tradicionalmente como Iemanjá. Do sagrado ao profano, o dia 2 de fevereiro é o momento de expressar gratidão pela fartura, conquistas ou mesmo pela graça de poder reverenciar a Mãe das Águas por mais um ano. Nessa data, o mar é tomado pelo aroma da alfazema e, nos corações dos devotos, a gratidão floresce por ter uma mãe tão sensível, protetora e, acima de tudo, generosa.
Essa tradição é intrínseca às práticas religiosas afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, mas estende-se além das comunidades religiosas, sendo adotada por brasileiros em diferentes contextos, como os pescadores, homens que dependem das bênçãos da mãe Iemanjá para prover o sustento diário de seus lares.
PARA OS PESCADORES
Para o pescador Roberto Pantaleão, é uma honra continuar a tradição da festa da Rainha e a maior felicidade está na abundância dos peixes. “A festa de Iemanjá é tradicionalmente realizada pelos pescadores aqui da praia de Santana. Os pescadores mantêm essa tradição há mais de 100 anos e a origem dessa devoção é a fé dos pescadores. Muitos têm o Candomblé como religião, mas, para além disso, é a fé que sempre os impulsionou”, afirma o pescador.
Ele conclui: “Se eu já consegui coisas através de Iemanjá? O mar é um mistério e só o fato de conseguir adentrar e trazer fartura nos peixes, já é uma grande felicidade”.
Pescador Roberto Pantaleão | Foto: Yasmin Cardim
O pescador Joel Antônio, de 84 anos, considera único o sentimento de poder retribuir àquela que dá tudo, o muito que os pescadores recebem de Iemanjá. “O ato de levar os presentes significa muito, acredito que não só para mim, mas para todos os pescadores que vivem no mar. Até porque a gente não faz nada sem as águas, são elas quem nos dão o sustento. Eu lembro que o primeiro presente foi entregue em uma caixa de sapato na praia de Amaralina. A gente passa o ano todo tirando coisas [peixes] do mar, e o que poderíamos dar em retorno?”
Pescador Joel Antônio | Foto: Yasmin Cardim
Joel destaca que a bonificação da mãe das águas é o maior presente que ele pode ter todos os dias: “A gente, primeiro, pede licença para o mar, faz uma oração e pede para nos dar fartura, e é difícil voltarmos sem peixe. É por isso que essa data é tão importante para nós, que vivemos nas águas, dia e noite”.
COMERCIANTES
Ainda sobre bênçãos, fartura e gratidão à Mãe das Águas, a vendedora ambulante Valdete Nunes compartilhou com o Portal Umbu sua rotina diária e como esse período festivo na cidade impacta seus lucros de maneira notável. “Eu trabalho aqui há 15 anos, e todos esses materiais, sou eu quem confecciono, faço tudo à mão. As guias, os chaveiros, tudo sou eu quem faço”.
“Normalmente, trabalho no Bonfim, coloco minha guia e vendo lá, mas numa festa como essa de Iemanjá, venho para cá, chego às 4 da manhã, já estou aqui e já bati minha meta. Eu trabalho sem parar porque gosto de ter meu pão de cada dia e, com as bênçãos de Deus e Iemanjá, as vendas deste ano serão boas.”
“O dia 2 de fevereiro significa fartura para mim, pois saio, peço a Deus que me guie, venho, vendo meus objetos para as pessoas levarem para Iemanjá e volto para casa com meu trocado no bolso”, afirma a vendedora.
Valdete Nunes – Comerciante durante a Festa de Iemanjá | Foto: Yasmin Cardim
Adriane Rocha
Adriane Rocha: Mulher negra, 23 anos, jornalista, filha das águas de Salinas da Margarida, leitora, neta de Dona Ivone e Sr Guegé, fã de Vander Lee e umbucado de coisa por aí...