Um cachimbo da paz de ouro está entre os 32 itens que retornarão a Gana sob acordos de empréstimo de longo prazo

O Reino Unido vai enviar a Gana algumas das “joias da coroa” do país, 150 anos após saqueá-las da corte do rei Asante. Um cachimbo da paz de ouro está entre os 32 itens que retornarão a Gana sob acordos de empréstimo de longo prazo, as informações foram reveladas pela BBC.
Serão 17 peças do Victoria & Albert Museum (V&A) e outras 15 do Museu Britânico. O negociador-chefe de Gana disse esperar “um novo senso de cooperação cultural” após gerações de hostilidade.
Alguns dos países que reivindicam artefatos disputados temem, porém, que empréstimos possam ser usados para sugerir reconhecimento de propriedade do Reino Unido.
Tristram Hunt, diretor do V&A, disse à BBC que os itens de ouro das joias da corte são o equivalente às britânicas “joias da Coroa”.
Entre os itens que estão sendo emprestados, a maioria levada durante as guerras do século XIX entre britânicos e os Asante, estão uma espada de Estado e emblemas de ouro usados por funcionários encarregados de limpar a alma do rei.
Hunt diz que quando os museus detêm “objetos com origens em guerra e saques em campanhas militares, temos responsabilidade com os países de origem de pensar em como podemos compartilhá-los hoje de forma mais justa”.
“Não me parece que todos os nossos museus cairão se construirmos esse tipo de parceria e intercâmbio.”
Hunt enfatiza, no entanto, que a nova parceria cultural “não é restituição pela porta dos fundos”, o que significa que não é uma maneira de devolver a propriedade permanente a Gana.
Os contratos de empréstimo de três anos, com opção de prorrogar por mais três, não são firmados com o governo de Gana, mas sim com Otumfo Osei Tutu II, o atual rei Asante conhecido como Asantehene, que participou da Coroação do Rei Charles em 2023.
Asantehene tem um influente papel cerimonial, embora seu reino agora seja parte da democracia moderna de Gana.
Os itens serão expostos no Museu do Palácio Manhyia em Kumasi, capital da região de Asante, para celebrar o jubileu de prata do Asantehene.
Os artefatos de ouro Asante são o símbolo maior do governo real Asante e acredita-se que sejam dotados dos espíritos dos antigos reis Asante.
Eles têm uma importância para Gana comparável aos Bronzes de Benin, as milhares de esculturas e placas saqueadas do palácio do Reino de Benin, no atual sul da Nigéria, pela Grã-Bretanha. A Nigéria vem pedindo o retorno dos itens há décadas.
“Eles não são apenas objetos, eles também têm importância espiritual. Fazem parte da alma da nação. São pedaços de nós que estão retornando”, disse à BBC Nana Oforiatta Ayim, conselheira especial do ministro da cultura de Gana.
Ela diz que o empréstimo foi “um bom ponto de partida” no aniversário do saque e “um sinal de algum tipo de cura e reconhecimento da violência que aconteceu”.
Os museus do Reino Unido possuem muitos outros itens levados de Gana, entre eles uma cabeça de troféu de ouro que está entre as peças mais famosas entre as joias Asante.
Os Asante construíram o que já foi um dos estados mais poderosos e impressionantes da África Ocidental, negociando, entre outras coisas, ouro, têxteis e pessoas escravizadas.
O reino era famoso pelo seu poder militar e riqueza. Mesmo hoje em dia, quando o Asantehene aperta mãos em cerimônias oficiais, ele pode estar com pulseiras de ouro tão pesadas que precisa da ajuda de um assessor cujo trabalho é apoiar seu braço.
Os europeus foram atraídos para o que mais tarde chamaram de Costa de Ouro pelas histórias da riqueza africana, e a Grã-Bretanha travou repetidas batalhas com os Asante no século 19.
Em 1874, após um ataque Asante, as tropas britânicas lançaram uma “expedição punitiva”, na língua colonial da época, saqueando Kumasi e tomando muitos dos tesouros do palácio.
Fonte: BBC
Foto: British Museum



