Ministro disse que aguarda detalhes para tomar providências e que pediu duas vezes ao diretor da PF os nomes das pessoas que teriam recebido o hacker no prédio da Defesa.
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou neste domingo (20) que vai reiterar à Polícia Federal que envie ao ministério as informações sobre as reuniões do hacker Walter Delgatti com integrantes do Ministério da Defesa. Segundo o ministro, ele voltará a pedir as informações na segunda-feira (21) pois aguarda detalhes dos encontros para tomar providências internas.
Na sexta-feira (18), Múcio enviou um ofício à Polícia Federal (PF) solicitando os nomes dos militares que se reuniram com o hacker Walter Delgatti Neto durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL).
Informações das jornalistas Juliana Braga e Andréia Sadi, do g1, apontaram que o ministro já havia sinalizado que faria o pedido, depois de participação de Ariovaldo Moreira, advogado do hacker, em programa do GloboNews.
Na ocasião, Moreira revelou que houve um encontro entre Walter Delgatti, seu cliente, Paulo Sérgio Nogueira, general do Exército, Eduardo Gomes da Silva, coronel do Exército e um grupo de servidores.
O ofício foi elaborado pela Defesa na quinta-feira (17) e revisado na sexta-feira (18) por Múcio. De acordo com a publicação do g1, o chefe da pasta vinha mantendo contatos constantes com o delegado-geral da corporação, Andrei Passos.
DEPOIMENTO:
O hacker Walter Delgatti Neto disse em depoimento à CPI dos Atos Golpistas que foi recebido no Ministério da Defesa e que “orientou” o relatório da Defesa sobre as urnas eletrônicas entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após as eleições presidenciais. Delgatti teria, inclusive, se encontrado com o então titular da pasta, general Paulo Sérgio Nogueira, além do coronel Eduardo Gomes da Silva e um grupo de servidores.
Múcio afirmou que pediu diretamente ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, os nomes das pessoas que teriam recebido o hacker nas dependências do ministério. Ainda segundo o ministro, a Defesa não tem registro dos encontros. A Polícia Federal confirmou ao blog da jornalista Andréia Sadi que Múcio pediu os nomes, mas que aguardava um ofício para entregar a relação.
“Não recebi nenhuma informação. Amanhã, devo tomar providências, cobrar outra vez, ver se alguém viu a pessoa. Estou pedindo desde o início da semana, sexta-feira mandei um ofício. Antes havia sido dois telefonemas para Andrei, que disse que logo que tiver manda para mim”, disse Múcio.
No sábado (19), Múcio e os comandantes das três Forças Armadas se reuniram com o presidente Lula. Na reunião de aproximadamente duas horas, os chefes da Marinha, Exército e Força Aérea disseram ao presidente que desejam que militares que estejam envolvidos em atos golpistas sejam investigados e punidos, caso seja constatada culpa.
Hacker diz à PF que entrava pela porta dos fundos nas idas ao Ministério da Defesa
O hacker Walter Delgatti Neto afirmou à Polícia Federal que entrava no Ministério da Defesa para debater urnas eletrônicas de uma forma não usual: pela porta dos fundos.
Advogado de Delgatti, Ariovaldo Moreira confirmou ao Globonews que essa informação constou no depoimento dado à PF na última sexta (18) – marcado após o hacker falar à CPI dos Atos Golpistas no Congresso e dar novos detalhes de sua relação com o governo Jair Bolsonaro.
Na avaliação do advogado, essa entrada pelos fundos acontecia para que a presença do hacker não ficasse registrada nos sistemas da portaria principal.
Delgatti Neto afirmou à CPI que, nesses encontros, ele “orientou” a íntegra do conteúdo do relatório do Ministério da Defesa sobre as urnas eletrônicas entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em novembro de 2022, após as eleições presidenciais.
Ele disse também que participou dessas reuniões a pedido do então presidente Jair Bolsonaro.
O hacker disse que se reuniu cinco vezes no Ministério da Defesa com técnicos da pasta e que a posição final do ministério sobre a confiabilidade do sistema eleitoral foi definida por ele. A PF e a CPI buscam provas de que essas reuniões foram, de fato, realizadas.
A atuação de Delgatti na Defesa
O hacker disse em depoimento à CPI dos Atos Golpistas que “orientou” a íntegra do conteúdo do relatório do Ministério da Defesa sobre as urnas eletrônicas entregue ao TSE em novembro de 2022, após as eleições presidenciais.
O relatório não apontou qualquer fraude na votação, mas pediu que o tribunal fizesse “ajustes” no sistema eleitoral já rejeitados tecnicamente por entidades fiscalizadoras e disse que não era possível atestar a “isenção” das urnas.
A posição do Ministério da Defesa, sugerindo dúvidas sobre a isenção das urnas, divergiu de todas as demais entidades fiscalizadoras nacionais e internacionais. Essas entidades foram unânimes em comprovar que a urna eletrônica é segura e que as eleições foram limpas.
Segundo Delgatti Neto, embora não tenha escrito o texto em si, foi ele quem chegou a essas conclusões e as transmitiu aos técnicos do Ministério da Defesa.
“A ideia inicial era que eu inspecionasse o código-fonte, só que eles explicaram que o código-fonte ficava somente no TSE e apenas servidores do Ministério da Defesa teriam acesso a esse código. Então, eles iam até o TSE e me repassavam o que eles viam, porque eles não tinham acesso à internet, eles não podiam levar uma parte do código; eles acabavam decorando um pedaço do código e me repassando”, relatou Delgatti.
“Então, tudo isso que eu repassei a eles consta no relatório que foi entregue ao TSE. Eu posso dizer hoje que, de forma integral, aquele relatório tem exatamente o que eu disse, não tem nada menos e nada mais”, prosseguiu.
O relatório da Defesa foi algo inédito nas eleições de 2022, criado após pressão do então presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) – que insistiu pela participação das Forças Armadas como entidades fiscalizadoras do processo.
Até o ano passado, as Forças Armadas participavam apenas da logística do processo eleitoral, transportando urnas a regiões de difícil acesso e garantindo a segurança dos locais de votação.
Pedido de invasão às urnas
Delgatti também revelou, em depoimento à Polícia Federal, que em setembro de 2022, véspera das eleições, teve um pedido para uma tentativa de invasão às urnas. Segundo o hacker, ele se encontrou com Carla Zambelli, que fez a ele o pedido.
Na sequência, ele disse em depoimento que chegou a tentar, mas que o código fonte não estaria disponível em um computador online e não conseguiu. Em troca, como relevado pelo blog, ele invadiu o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e emitiu um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, que foi entregue a Zambelli.
Após o depoimento, Zambelli foi alvo de operação da PF nesta quarta-feira, a mesma que prendeu novamente Delgatti. Além da prisão, a PF determinou a apreensão do passaporte e bens acima de R$ 10 mil.



