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Entre ironias e autocríticas, Barbie se torna uma grande sacada capitalista “cor-de-rosa”

O filme mais esperado do ano vem com uma narrativa instigante e criativa. Barbie é um filme de fantasia e comédia com uma estrutura similar a grandes clássicos da famosa ‘Sessão da Tarde’.

Greta Gerwig, que assina o roteiro ao lado de Noah Baumbach (História de um Casamento), apresenta um universo próprio, com regras bem estabelecidas e rapidamente explicadas. É fácil entender o que faz sentido ali na Barbielândia, mesmo que não faça sentido na vida real.

A história acompanha a Barbie Estereotipada (Margot Robbie), que vive em um lugar perfeito, na companhia de amigas perfeitas – que também são Barbies -, fazendo coisas divertidas e imersas na certeza de que a sua invenção fez bem para meninas no mundo real. No entanto, quando mudanças de comportamento começam a acontecer, os eventos que se seguem levam a uma inevitável crise existencial.

Essa crise acontece justamente como uma quebra de paradigmas importantes dentro da narrativa fílmica, o que pode ser considerado como uma ‘virada de chave’ que muda completamente a percepção da personagem sobre si, seu corpo e seus costumes.

A decisão de ir para o mundo real para descobrir o que realmente estava acontecendo faz com que  a Barbie Estereotipada encontre uma série de mazelas sociais oriundas da sociedade patriarcal, como machismo, sexismo e assédio. Circunstâncias incomuns na Barbielândia, afinal o que prevalecia era nada menos que o oposto: o matriarcado.

Foto: Reprodução/Warner Bros. Brasil/Twitter

Diferente da Barbie, o seu namorado Ken (Ryan Gosling) encontra na vida “não tão cor-de-rosa assim” um local perfeito para si, afinal, o homem é o centro do mundo. Desse ponto parte a necessidade crítica do filme, mais uma vez, quando Ken reconduz a Barbielândia para que se torne também um local patriarcal e conservador.

Obviamente que esses questionamentos alcançam aqueles que são misóginos, homofóbicos, conservadores e retrógrados, mas também os queridos progressistas, que se colocam em posição de aliados, mas acabam apenas buscando um tipo diferente de protagonismo.

O fato de todos os Kens serem estúpidos não busca atingir homens de uma forma literal, mas ao deixar muitos deles irritados com o retrato genérico, cumpre perfeitamente seu objetivo.

Foto: Reprodução/Warner Bros. Brasil/Twitter

Para além das telas há vários pontos que são importantes citar no filme da Barbie. A primeira questão é justamente o humor ácido e as importantes críticas à sociedade machista e patriarcal que envolve todo o contexto fílmico. Entender as ‘sacadas’ do filme é algo que crianças, por exemplo, não entenderiam. São muitas nuances e comentários que exigem atenção.

Outro ponto importante é o quanto a febre “cor-de-rosa” impactou no mercado. Não apenas a venda de ingressos para o filme nos cinemas, como também de itens de vestuário como roupas, sapatos e acessórios na cor tema aumentaram drasticamente. A jogada de marketing da Mattel, em parceria com a Warner Bros. foi espetacular no contexto de mercado, afinal é uma empresa que alcançou, com êxito, o seu objetivo de se manter relevante. Mas para além disso, o que fazer com todas essas  informações do filme?

Com uma visão extremamente pessoal da autora desse texto, me sinto bem distante dessa realidade “cor-de-rosa”, afinal sou uma mulher negra em um contexto periférico, de origem quilombola e pesqueiro e fora do padrão mantido pela Barbie ao longo dos últimos anos. Penso que esse “hype” do filme nada mais é que uma tentativa de reparação histórica, como se agora fosse o momento das discussões mais  sérias estarem evidentes nos cinemas. Mas que reparação é essa depois de anos destruindo autoestima de diversas crianças, sobretudo negras?

Venho particularmente de um contexto social e familiar pobre, mas com consciência racial e de classe muito forte. Por isso, a distância se torna ainda maior. Nunca me vi em uma boneca estereotipada porque sempre tive consciência do meu papel dentro da minha comunidade e é justamente por isso que a crítica vem de 64 anos atrás, e não para o filme de hoje, afinal, vemos diversas Barbies, com diferentes corpos e personalidades. Por que essa reparação só veio hoje? E essas crianças que se tornaram adultas, como estão mentalmente?

O filme é uma discussão necessária justamente para desassociar a expectativa da realidade e isso inclui a não romantização da obra, principalmente quando se vem de uma realidade negra. O mundo do lado de cá é completamente diferente do “pink”, somos seres reais que estão na luta diariamente por espaço, vez e voz.

Acredito que estamos alcançando espaços importantes nas discussões depois de passar quatro anos de repressão e sofrimento. É justamente por isso que se o nosso mundo hoje tivesse uma cor, com certeza seria vermelho, representando a democracia, o sangue dos nossos que morreram antes para que eu tivesse esse pensamento crítico e, ouso dizer que se a minha Barbie tivesse um nome, com certeza seria Marielle Franco.

O portal Umbu foi convidado a assistir o filme pela empresa UP Media.

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