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Xoxota, Piroska e os acertos e tensões envolvendo as bebidas nas festas de rua

Barraca da Loirinha | Foto: Claudio Rodolfo

E no princípio era a festa, e a festa foi feita para o povo e pelo povo. Este sabia que, antes de usar o Verbo, ou seja, falar, é preciso molhar essa Palavra”… E assim nasceu a bebida de festa. Paródias à parte, o que se encontra para beber nas festas de rua é um capítulo importante da trajetória destes eventos e envolve estética, tensões e conflitos no campo da criatividade, normas, regras, debate sob o guarda-chuva da saúde pública, em meio a questões de formalidade, informalidade, ou seja, um mundo em meio ao já polissêmico campo. Então, pega uma batida, um refresco, um guaraná, uma cracudinha ou piriguete, e senta. Nestes próximos dias de festas para Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, e São Roque, em Salvador, você já pode ler esta “batidinha aqui” e se preparar para, em meio a “molhar o bico” no meio da muvuca, após a devoção, mostrar seu know-how em bebida de festa. E vai aterrissar na folia em um passinho com a quebradeira, não de um enólogo, que isso é coisa mais à europeia, mas de uma ou um especialista em “enfiar o dente no bubuia”, um dos suprassumos do puríssimo PHD em “Festologia”. Agora, dê o pedágio dos três golinhos “pro santo” e vamos ao que interessa em três pontos:

Gif: Tenor/Reprodução

1. A Barraca da Loirinha e suas criações: Xoxota, Piroska e o marketing ideal da bebida de rua

Passando pela Praça da Sé, bem em frente ao Palácio Arquiepiscopal, aquela belíssima e valiosíssima joia da arquitetura em território soteropolitano do século XVIII, cheio de histórias, ergue-se altiva a Barraca da Loirinha. Em uma placa bem colorida e ostensiva, dentre as já conhecidas “caipirinhas”, “caipiroska” e “capeta”, destacam-se “xoxota” e “piroca”, na parte de baixo da barraca, à direita. Mas, como a publicidade da barraca não está para brincadeira, bem acima tem um banner retangular bem maior com o anúncio: “Caipirinha, Xoxota, Piroska, Caipiroska, Coco Gelado, Capeta, Pastel Frito”.

A Xoxota é uma bebida gelada. Leva uva preta, acerola e morango, leite condensado, gelo e vodka. Se o cliente for mais afeito a um toque bem brasileiro, sai a bebida, cuja invenção os russos e poloneses disputam, e entra a cachaça. A Piroska é uma variação da Xoxota para, digamos, os pudores da preferência de gênero, que o povo desse negócio de bebida de festa pensa em tudo. E tem a Piroca: gelo, leite condensado, limão, kiwi e abóbora. Os preços variam de R$ 20 a R$ 35.

“E sai muito. Pela curiosidade, especialmente dos baianos. Baiano nunca deixa de tomar o que é da sua terra”. A análise é da empreendedora, mixologista (nome que se dá às criadoras e criadores de bebida. Afinal, isso aqui é ciência, viu?!) e bartender, Elisângela Mendonça, que é bem mais conhecida pelo apelido de Loirinha. Ela está no ramo de venda de bebidas em meio aos eventos desde criança, pois vem de uma família onde diversas pessoas tiveram negócios nas festas de rua, ou seja, as infelizmente desaparecidas barracas de madeira que eram protagonistas nos eventos de verão.

Barraca da Loirinha | Fotos: Claudio Rodolfo | Gif: Portal Umbu

2. As criações de Loirinha tem o DNA da luta perdida pelas barraqueiras e barraqueiros de largo

A Barraca da Loirinha é uma vitória de Elisângela Mendonça em meio a uma tempestade que começou com ventos leves, até que se tornou um furacão e “varreu” as barracas de madeira que faziam parte de forma ostensiva do cenário das festas de rua em Salvador. As barracas de madeira costumavam ser muito mais do que um ponto para beber: era extensão de bares dos bairros da cidade, ponto de referência para encontros entre amigos e palcos de shows durante as festas de verão.

Em minha pesquisa para a tese, encontrei uma reportagem de A Tarde da década de 1980 que conta como Alcione, a Marrom, lançou um dos seus LPs em uma das muitas barracas que faziam o bairro do Comércio ferver durante os dez dias da Festa de Nossa Senhora da Conceição, no entorno da igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. As novenas davam o suporte para noites agitadas e regadas a samba que se transformaram em uma queda de braço com a Arquidiocese de Salvador. Nossa Senhora da Conceição é a padroeira da Bahia. O protagonismo das barracas levou o então arcebispo de Salvador no período, o cardeal Dom Avelar Brandão Vilela, a ameaçar mudar a festa de data, que é 8 de dezembro (A Tarde, 9/12/1979, p. 3).

Em outro caminho, as barracas se tornaram alvo das regras da Vigilância Sanitária relacionada a comida e bebida. Em um determinado momento, os copos de vidro foram proibidos, alegando-se higienização inadequada. A venda de cerveja em garrafa de vidro também foi proibida. Isso, para mim, foi um golpe preciso na sociabilidade destes equipamentos. Mesmo uma pessoa que não consome álcool, como é o meu caso, mas convive com outras que bebem bastante, sabe que consumir uma garrafa de cerveja de 600 ml demandava sentar-se com ao menos uma amiga ou um amigo. Nessa brincadeira, o povo esvaziava uma grade. Quantas referências sobre o aproveitamento de uma festa não giravam sobre a quantidade de engradados (grades) de cerveja que se consumiu?

Sem a opção de dividir a garrafa de cerveja, a lata de 300 ml passou a fazer sucesso porque, inclusive, se consome em movimento. Aliado a esse fenômeno, vieram as exigências do “padrão”, ou seja, um modelo único para as barracas mediante pagamento de licença e o formato já em outro tipo de material, como o aço, metalon e alumínio, com coberturas de lona em PVC e polietileno absurdamente mais quentes e que não convidam a permanecer em sua estrutura por muito tempo.

Assim, as barracas de nomes criativos, referências de laços comunitários e que tinham uma estética própria — os bancos de madeira eram arrumados para formar figuras geométricas coloridas — desapareceram das festas de rua em Salvador. Agora é a era do isopor ou do cooler e com regras ainda mais duras, inclusive sobre determinados tipos de marca em critérios e contratos cada vez mais elaborados e no alto patamar de grandes negócios, o que inviabiliza a participação dos pequenos empreendedores.

Gif: Tenor/Reprodução

3. A volta por cima de Loirinha e o surgimento da sua barraca criativa na estrutura e no cardápio

Membro de uma família envolvida em várias gerações no negócio das barracas de festa, Loirinha acompanhou parte desse processo em que o negócio foi se tornando difícil de se manter. Seus pais tiveram barracas nas festas de rua, onde ela sempre esteve, mesmo quando criança. Tias e primas também. A mãe era dona de bar e, por extensão, montava barraca nas festas para manter a clientela confortável com um ponto de referência. Acompanhando as tendências, ela vendia desde as bebias industrializadas até os drinks à base de ervas, batidas de frutas, o famoso cravinho e as novidades que foram surgindo como o Capeta (guaraná em pó, chocolate em pó, leite condensado e vodka ou cachaça).

“Aí a Vigilância Sanitária, no final da década de 1990, 2000, proibiu o Capeta. Talvez até pelo nome, sei lá. Aí a gente deu um tempo e depois voltamos vendendo caipirinha, a cerveja enlatada, mas passamos por toda uma triagem, curso no Senac e, como minha mãe já estava com idade avançada, eu e minha irmã, fomos nos mantendo neste novo cenário das barracas.”

Da experiência, Loirinha, criou a Xoxota, já de olho no marketing mesmo. “Eu pensei: vou criar uma bebida para chamar a atenção do público. E veio a Xoxota”, conta. No começo, a receita levava vinho, mas ela percebeu um descompasso entre o custo de produção e o preço final para os clientes. “Eu então tirei o vinho e botei a uva preta”. Mas aí tem aquelas e aqueles que ficavam na indecisão do consumo pelo nome (é coisa que empreendedor tem que se ligar e achar solução, viu?), e ela, como excelente mulher de negócios, já pensou numa solução. “Teve gente dizendo que não gostava de Xoxota, então eu criei a Piroca”, relata Loirinha.

E, embora os baianos adorem pela criatividade e o duplo sentido, que é uma instituição na Bahia, turista também embarca na história, mesmo sem saber direito o que é o velho espírito da quinta série solto pelo Brasil inteiro. Ponto para a resistência e criatividade de Elisângela e sua Barraca da Loirinha!

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