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Votar também exige chegar: o custo invisível da democracia

Foto: Jefferson Peixoto/Secom PMS

Acompanho a política há cerca de 15 anos. Já observei eleições por diferentes perspectivas: campanhas, disputas, debates e mudanças no comportamento do eleitor. Mas o último domingo de eleição me fez pensar sobre uma dimensão pouco discutida do voto: o custo de chegar até a urna.

Meu voto começou no ponto de ônibus.

Para quem escolheu votar usando o transporte público, percebeu que votar não é simplesmente sair de casa e chegar ao local de votação. É encontrar um ônibus, esperar, embarcar, enfrentar o trânsito e fazer o percurso de volta. É administrar tempo, distância, cansaço e, muitas vezes, reorganizar o dia inteiro.

Por isso, quando dizemos que o transporte é gratuito no dia da eleição, precisamos fazer uma pergunta: gratuito para chegar como?

Usei o transporte público para votar e a experiência me fez refletir sobre a diferença entre uma política pública anunciada e aquela efetivamente experimentada pelo cidadão. O problema não é apenas o preço da passagem. Existe o custo do tempo, da espera, do deslocamento e do cansaço. Para trabalhadores, idosos, pessoas responsáveis pelo cuidado de familiares e moradores de regiões mais distantes, esse custo pode ser ainda maior.

A questão ganhou dimensão constitucional. Em 2023, ao julgar a ADPF 1.013, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a inconstitucionalidade da omissão do poder público em oferecer transporte coletivo gratuito em dias de eleição, com frequência compatível à dos dias úteis. A decisão parte de um princípio fundamental: a falta de transporte ou de recursos para pagar a passagem pode se transformar em uma barreira material ao exercício do voto.

Em Salvador, para o primeiro turno das Eleições 2026, a Prefeitura anunciou gratuidade nos ônibus convencionais, BRT e STEC, das 6h às 20h, além do Elevador Lacerda. Também informou que manteria 100% da frota dos dias úteis.

Havia, portanto, uma operação institucional anunciada. Mas cumprir uma regra no papel não significa necessariamente garantir que o cidadão consiga exercer seu direito. É essa diferença que precisamos discutir, tendo como base que a democracia não começa quando o eleitor aperta “confirma”. Ela depende das condições materiais que permitem que ele chegue até a urna.

Política também acontece no ponto de ônibus

Essa experiência me fez pensar sobre a relação entre política e território.

Candidatos circulam pelas comunidades, conversam com moradores e constroem presença durante as campanhas. Mas o eleitor também percebe quem conhece sua realidade e quem está disposto a enfrentar seus problemas concretos.

Por isso, faço uma provocação especialmente à esquerda: precisamos prestar mais atenção à experiência cotidiana do eleitor.

Não basta falar sobre trabalhador, periferia, mobilidade, desigualdade e direitos sociais durante a campanha. É preciso conhecer a rotina de quem vive esses problemas. Onde essa pessoa pega ônibus? Quanto tempo leva para chegar em casa? Como chega ao trabalho, à escola e aos serviços públicos? Quais obstáculos enfrenta diariamente? E, inclusive, como chega para votar?

É aí que política e educação política se encontram.

Precisamos ensinar o cidadão a viver a democracia

Eleição não é apenas um domingo diferente. Não é somente escolher nomes e apertar uma tecla. É conhecer direitos, compreender responsabilidades, acompanhar o poder público e saber cobrar representantes.

Democracia também exige participação depois da eleição. Não podemos entregar um cheque em branco por quatro ou oito anos e esperar que o cidadão só volte a participar na próxima votação.

Educação política, portanto, não deveria ensinar apenas como votar. Deveria ensinar a compreender as condições que tornam possível o exercício do voto.

Porque democracia também acontece no ônibus, na escola que funciona como local de votação, na rua, no acesso à informação e na possibilidade concreta de chegar ao lugar onde a escolha será registrada.

Depois dessa eleição, fiquei com uma pergunta: Que cidade estamos oferecendo ao cidadão para que ele possa exercer o direito de escolher?

Não basta perguntar se a passagem foi gratuita. Precisamos saber se o serviço funcionou para quem dependia dele. Votar pode não custar dinheiro, mas pode custar tempo, cansaço e praticamente um dia inteiro. E a pergunta que fica é simples:

De que adianta dizer que votar é um direito de todos se nem todos conseguem viver a experiência de votar nas mesmas condições?

A democracia precisa caber na urna. Mas também precisa caber na cidade.

E, para muita gente, a democracia começa no ponto de ônibus.

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