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“Uma cultura é viva na medida em que a gente coloca as tradições em xeque e discute aquilo que nos une”, diz o antropólogo Michel Alcoforado

Durante sua participação na tarde de encerramento do projeto Encontros Negros 2025, no Teatro Irdeb, em Salvador, o antropólogo, escritor e PhD especializado em Consumo e Comportamento, Michel Alcoforado, conversou com exclusividade com o Portal Umbu sobre o mapeamento de tendências do mercado brasileiro,  como o comportamento do consumidor, as transformações culturais entre diferentes gerações e as tendências de futuro, antes de participar da mesa “Os Negros, a Mídia, o Consumo e a Riqueza no Brasil”, mediada pela também doutora em Antropologia e jornalista Cleidiana Ramos.

Foto: Marcella Figueiredo

PORTAL UMBU: Para você, enquanto antropólogo, neste cenário de presente, passado e futuro — e nesse novo contexto de fazedores de cultura e história no Brasil — como é estar nesta edição do Encontros Negros 2025?

Michel Alcoforado:
É um privilégio enorme estar aqui. Não só pela possibilidade que a gente tem de trazer gente pra Salvador — essa cidade que, marcadamente, é a mais negra do mundo fora da África. Isso é fundamental, não só pra gente ter a possibilidade de nos (re)conectarmos com as nossas origens, mas também de fazer uma cultura viva, né? Uma cultura é viva na medida em que a gente coloca as tradições em xeque, discute aquilo que nos une e se une para reinventar o futuro. E não tem como fazer isso na telinha do celular, num grupo de WhatsApp ou nesses aplicativos que permitem que a gente encontre pessoas à distância e se conecte, apesar de não estar tão conectado assim. Precisamos estar de braços dados, juntos, ninguém largando a mão de ninguém — e o Encontros Negros é um evento que abre essa possibilidade. Estou muito feliz de ter sido convidado para esta edição, não só pelos participantes deste ano de 2025, mas também por todos que vieram antes. Sabemos que é um evento importante para nós, e acredito que continuará sendo por muito tempo. Pra gente continuar mantendo a cultura viva, é preciso se encontrar — pra discutir, pensar e refletir juntos.

PORTAL UMBU: Falando de qualidade de presença e presença de qualidade — enquanto antropólogo, escritor e colunista da CBN — e considerando sua chegada à Bahia, o que você projeta para os próximos anos, levando em conta que sua narrativa é marcante e sua performance nas redes sociais também? O que você diria?

Michel Alcoforado:
Acho que o ponto importante é entender que os outros são os outros, e a gente precisa compreender o ponto de vista deles pra aguentar viver junto. Num mundo marcado pelo individualismo, com cada um se achando único, você imagina a loucura que é acreditar que, entre 8 bilhões de pessoas, cada um é único e diferente de todos os outros. Precisamos entender que dependemos dos outros pra inventar quem somos. Então, precisamos criar modelos de sociedade mais saudáveis para nossa capacidade de nos reinventar. Uma sociedade onde a diversidade não seja apenas um discurso de um setor, de uma categoria ou de um momento específico, mas algo presente nas conversas cotidianas. Precisamos inventar um mundo onde o outro seja uma forma de entender quem somos, nosso lugar no mundo — e não um obstáculo, um inimigo, alguém que atrapalha mais do que ajuda. Acho que, daqui pra frente, a pergunta fundamental será: “Que outros vamos trazer para a convivência conosco pra ajudar o mundo a ficar melhor e inventar melhores versões de nós mesmos?”. O caminho é apostar no outro. Já está provado que quem olha apenas para o próprio umbigo produz mais sofrimento do que conexão, mais discórdia do que união, mais problema do que solução. O caminho é esse: apostar no outro pra plantar um futuro melhor pra gente mesmo.

Foto: Marcella Figueiredo

PORTAL UMBU: Qual sua opinião, enquanto antropólogo, diante da performance da Inteligência Artificial (IA)? Você a utiliza como ferramenta aliada ou é do tempo analógico das realizações?

Michel Alcoforado:
Eu uso. Uso com medo, mas certo de que a solução pra gente, que vive num mundo onde as inteligências artificiais vão dominar todos os cantos — como já aconteceu com a internet e as plataformas digitais — será virar humano de vez. As máquinas são muito inteligentes, têm sagacidade, mas a delas é diferente da nossa. O problema é quando os humanos começam a se comportar como máquinas, porque aí elas fazem o papel melhor do que nós. Vamos precisar valorizar ainda mais nossa empatia, o pensamento crítico, a capacidade de liderar e resolver problemas com o tom e a embocadura dos humanos. O que nos difere das máquinas não é só o pensar, mas o pensar sobre o pensar. A reflexão, a capacidade de olhar pro mundo, identificar novos problemas e novas soluções, reenquadrar questões — isso é o que sobrou pra gente. Tenho dito: “Onde tem máquina, aos humanos só caberá uma coisa: se humanizar de vez”. Gente que se comporta como máquina vai virar máquina e perder espaço pra elas.

PORTAL UMBU: Um antropólogo que tem vários livros lançados e referenciados nas livrarias físicas — como você lida com isso? Como se vê nesse cenário diante das livrarias digitais?

Michel Alcoforado:
Quando lancei meu último livro, Coisa de Rico, eu brincava que achava que o tema tinha algum burburinho, mas tinha contra mim o fato de ser um livro. Esse é um país em que, todos os anos, perdemos leitores — os números variam, mas o cenário é claro. Ainda assim, acredito que o livro continua sendo uma mídia fundamental pra nos blindar da invasão das redes sociais. Quando você abre um livro e ele te captura, você fica imerso naquele universo e se desloca pra outros mundos — sem notificações, sem grupos de WhatsApp, sem contatinhos. Está ali, entregue à capacidade do autor de te levar pra outro lugar. Fico muito feliz de conseguir proporcionar isso aos leitores em 2025, quando muitos achavam que livro não se vendia mais, que livraria não era mais espaço de encontro, que tudo viraria código. Um livro de antropologia, uma das ciências mais humanas, escrito por um antropólogo — uma profissão ainda pouco conhecida no Brasil —, com começo, meio e fim, sem o formato de post, me causa uma surpresa enorme e me deixa envaidecido. E mais ainda por saber que há gente lendo. Até quando criticam o livro, gosto — é sinal de que leram. Precisamos formar um país com mais leitores, um país que forme novos leitores. Enquanto tentarmos competir com as máquinas, vamos perder. O que nos resta é fazer o que elas não fazem: ler uma frase, ser perturbado por ela, perder o sono, abrir um livro e perder a hora querendo saber o que vem na próxima página. Entrar numa história sem saber onde ela vai te levar — isso é o que há de mais humano. Então, voltemos aos livros. E que sejam escritos e lidos por humanos.

PORTAL UMBU: Você acabou de chegar à Bahia? Já está aqui há alguns dias? Já provou “o molho” da Bahia?

Michel Alcoforado:
Venho provando o molho da Bahia há décadas. Brinco sempre que nasci carioca, mas minha alma é baiana. Não é à toa que sou mal faladíssimo entre os corretores de Salvador! Estou na expectativa de que este livro venda bastante e me dê um dinheirinho pra comprar um apartamento aqui — e aí viro soteropolitano de vez. Sou apaixonado por isso aqui. Acho que a Bahia é o Brasil, no sentido de congregar tudo o que é fundamental na nossa cultura. O Brasil não nasceu na Bahia por acaso — e a Bahia não está na Bahia por acaso também. Vivenciar essa potência que a Bahia tem me motiva demais. Toda vez que venho, chego feliz e vou embora triste. Volto pra São Paulo achando tudo mais cinza do que é. Estar aqui me deixa muito feliz.

Texto: Patrícia Bernardes – jornalista, redatora, mobilizadora de projetos de impacto social em educação, letramento e cultura identitária, e repórter colaboradora do Portal UMBU.

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