
Há muito tempo não vejo uma exposição tão marcante como a que está em cartaz no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), intitulada “Inclassificáveis” e que ficará aberta à visitação pública até o início do mês de julho.
O título e a exposição são, na verdade, uma grande provocação.
Desde a entrada somos chamados a refletir, a pensar e apreciar o quão importante são as obras dos artistas negros na contemporaneidade, assim como o papel que elas desempenharam e desempenham na construção da autoestima e no enfrentamento dos desafios que a população negra e nordestina vive no país chamado Brasil.
E não há nada de “ingênuo” ou “primitivo” nessas obras (assim elas eram classificadas) que impeça o reconhecimento do talento e criatividade desses artistas.
Mais que isso, as obras são tão ricas, complexas e expressam tantas dimensões e sentimentos que são verdadeiramente inclassificáveis. Aliás, como é a vida da maioria dos/as artistas que as produziram, assim como a vida da maioria do povo afro-brasileiro.
A caminhada pelos diversos núcleos – “Restituir Sentidos”, “Escolas Invisíveis” e “Cotidianos” – que a exposição oferece nos faz revisitar nossos anseios, nossas dores, nossos sonhos e as nossas visões de mundo, assim como os desafios que são interpostos a cada um de nós, seja pela condição de sermos afrodescendentes ou de nordestinos.
Jamile Coelho, uma das diretoras do Muncab e também uma das curadoras, traduz com rara sabedoria o sentimento que se apossa de quem visita a exposição:
“É um momento onde a gente rompe com a ideia de resistir e afirma a ideia de existir como povo preto. Todos os dias a gente sabe como criar narrativas que perpassam a dor e criam outras atmosferas”.
Em verdade, a exposição é sucesso antes mesmo de acontecer, visto que é fruto de uma iniciativa corajosa do Ministério da Cultura (repatriação de obras de arte), liderado pela Ministra Margareth Menezes, que impacta não só as artes visuais brasileiras, como as relações internacionais do Brasil com os países africanos.
Essa iniciativa se articula fortemente com um movimento internacional, que envolve vários países africanos, a exemplo da Nigéria, Etiópia, República Democrática do Congo, Gana e Senegal que buscam a repatriação de obras de arte e artefatos culturais que foram saqueados pelos países europeus, durante o período colonial.
Portanto, parabéns ao Ministério da Cultura!
É importante lembrar que todas as obras da exposição “Inclassificáveis” são oriundas da repatriação da coleção “Con/Vida”, com 666 obras de 135 artistas, doadas por duas norte americanas – Barbara Cervenka, (artista plástica), e Marion Jackson, (historiadora da arte) – e que esteve nos Estados Unidos por mais de 20 anos.
Parabéns ao Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira!
No total, são 666 obras de 135 artistas afro brasileiros – pinturas, esculturas, fotografias, xilogravuras e arte sacra. Temos obras de J. Cunha, Goya Lopes, Zé Adário, Raimundo Bida, Babalu, Louco, etc. São artistas que ao longo de suas trajetórias revelaram os diversos olhares e suas múltiplas visões sobre o cotidiano de lutas e idiossincrasias da sociedade brasileira, com rara sensibilidade.
Toca a zabumba que a terra é nossa!


