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Senzala do Barro Preto recebe 45ª Noite da Beleza Negra neste sábado (17)

Evento do Ilê Aiyê acontece na Senzala do Barro Preto

Lorena Bispo (centro), atual Deusa do Ébano do Ilê Ayiê, passará o título para uma das 15 candidatas deste ano | Foto: André Frutuôso/Casa de Mainha

Neste sábado (17), a Senzala do Barro Preto, no Curuzu, em Salvador, recebe a 45ª edição da Noite da Beleza Negra, tradicional evento do Ilê Aiyê que reúne 15 mulheres negras na disputa pelo título de Deusa do Ébano. Em celebração às quatro décadas e meia do concurso, a equipe responsável pelo espetáculo concedeu uma coletiva de imprensa na manhã desta sexta-feira (16), no Quality Hotel, no bairro do Stiep, também na capital baiana.

Mais do que um concurso, a Noite da Beleza Negra se consolidou como um espaço de valorização da cultura negra, da ancestralidade e da autoestima feminina. Para Jaci Trindade, integrante da coordenação do evento, o impacto social do concurso se aprofunda a cada edição. “A cada ano que passa é uma surpresa. Essas meninas estão cada vez mais preparadas, já sabem o que querem. Começam a se preparar desde o início do ano e seguem até o final”, afirmou. Segundo ela, o clima entre as candidatas também mudou ao longo do tempo. “Antes era muito competitivo. Hoje elas se veem como amigas, se acolhem, se abraçam. Isso, para mim, é maravilhoso.”

Jaci Trindade | Foto: Caio Batista

A edição deste ano reforça esse caráter formativo, com uma programação que vai além do palco. “Eu não trabalho sozinha. Temos oficinas de dança, de mídia social e hoje também acompanhamento psicológico, algo muito necessário no pós-pandemia”, destacou Jaci Trindade. Sobre as expectativas para o espetáculo, ela resumiu: “Quero ver aquela Senzala cheia, muita gente preta lá, as torcidas gritando. É lindo de ver.”

Apresentadora da Noite da Beleza Negra, Val Benvindo ressaltou que o evento segue cumprindo um papel fundamental na ressignificação do que é belo. “São muitos relatos de meninas que, ao assistir à Noite da Beleza Negra, passaram a se entender como bonitas. Quarenta e cinco anos depois, podemos dizer que ela é uma das responsáveis por essa mudança que vemos no nosso país, especialmente aqui na Bahia”, afirmou. Para ela, trata-se de um espaço de acolhimento coletivo. “É uma noite de gala, de exaltação do povo preto. Eu gosto de dizer que é um serviço para o país — e até para o mundo.”

Val Benvindo | Foto: Caio Batista

Val também destacou a dimensão política do concurso. “Não se mede cintura, busto ou quadril. O que importa é saber dançar, saber de onde a gente vem, saber de si”, disse. Segundo ela, esse processo contribui para que mulheres negras reconheçam suas ausências em determinados espaços e passem a ocupá-los. “A Noite da Beleza Negra cumpre um papel político importante de reconhecimento e auto-reconhecimento.”

Responsável pela direção artística do espetáculo, Ridson Reis explicou que cada edição carrega uma identidade própria. “Cada edição tem uma pulsação diferente, uma respiração própria, a partir da temática proposta pelo Ilê Aiyê”, afirmou. Ele ressaltou que nada no espetáculo é aleatório. “Cada canção, cada texto, a escolha dos cantores, tudo está ali porque precisa estar. São escolhas maduras.”

Ridson Reis | Foto: Caio Batista

Neste ano, a Noite da Beleza Negra amplia seu olhar para incluir as raízes afro-indígenas. “Falamos dessas coroas que não são forjadas: a coroa de pena, o cocar, o turbante. Falamos de reinado através da beleza”, explicou Ridson Reis. Segundo ele, o público pode esperar uma edição mais madura e concentrada. “Abraçamos o que o Ilê representa: a mulher, a canção, a percussão e o enfrentamento ao racismo e ao machismo, inclusive abordando de forma sutil o feminicídio da mulher preta.”

A valorização das raízes afro-indígenas também foi destacada por Vovô do Ilê, fundador do bloco. “Sempre houve dificuldades, mas nunca desistimos. Desde 1980, a Noite da Beleza Negra acontece sem interrupção”, afirmou. Ele ressaltou que esta é a primeira vez que o tema ganha centralidade. “Vamos falar sobre o povo afro-indígena de Salvador e buscar as heranças indígenas do nosso país.”

Antônio Carlos “Vovô”| Foto: André Frutuôso/Casa de Mainha

Outro símbolo do evento é o troféu entregue à vencedora, assinado pelo artesão Aless. Para ele, a criação vai além do trabalho artístico. “Fazer o troféu da Noite da Beleza Negra não é trabalho, é missão”, disse. Segundo Aless, a peça busca representar valores coletivos. “A figura não representa uma mulher específica, mas as mulheres como um todo. A dança é central na nossa cultura, é como celebramos, resistimos e nos alegramos.”

Aless assina a confecção dos troféus do evento | Foto: Caio Batista

A parceria do artista com o Ilê Ayiê teve início em 2013, e a primeira Deusa do Ébano a receber um troféu criado por ele foi Cynthia Paixão, eleita em 2014. A respeito das inspirações e dos materiais utilizados na confecção, Aless conta: “Para mim, materializar todo esse simbolismo também é uma forma de militância. Os materiais são o latão e o cobre. O latão remete à nobreza, à realeza, ao ouro. Já o cobre, outrora, era um metal mais valioso até do que o ouro e, pela cor, remete ao vermelho, ao sangue, à luta”.

Peças feitas de latão e cobre fazem reverência a Orumilá, orixá ligado à profecia | Foto: André Frutuôso/Casa de Mainha

“Quanto à estética da peça, foi algo muito natural. Busquei inspiração no próprio Ilê Aiyê. O braço levantado, apontando para o céu, é uma reverência a Orumilá e um gesto de agradecimento”, disse.

Encerrando um ciclo à frente do título, Lorena Bispo, Deusa do Ébano 2025, falou sobre o sentimento de transição. “Meu coração está extremamente emocionado. Sinto alegria e a certeza de dever cumprido”, afirmou. Para ela, ocupar esse lugar exige consciência e responsabilidade. “Não representamos apenas nossas próprias histórias, mas uma multidão de pessoas que se inspiram. Tudo o que fazemos reverbera.”

Lorena Bispo | Foto: Caio Batista

Sobre o espetáculo deste sábado, Lorena Bispo fez um convite direto ao público. “É um momento de reverência, de celebração da nossa história, de acolhimento. Um dos poucos espaços em Salvador onde podemos nos olhar nos olhos, nos reconhecer e nos divertir”, concluiu.

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