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São João e sua impressionante habilidade de garantir alianças entre culturas

Foto: Prefeitura Municipal de Baependi – MG/Reprodução

Chegamos a uma das mais esperadas festas do ano: São João. É tempo de forró, de licor, de canjica, de amendoim cozido e de treta, afinal é grande a disputa entre quem prefere a música raiz da festa e quem defende os ritmos cada vez mais alienígenas. Com Copa do Mundo pelo meio tem mais debate principalmente entre a escalação do técnico oficial e aquela feita pelas e pelos milhares de treinadoras e treinadores informais em que brasileiras e brasileiros se transformam neste período. Mesmo com esta agenda intensa se você é do clube da defesa do São João como um bem cultural total do Nordeste chega aqui que preciso te contar três coisas sobre como esta festa consegue preservar vários elementos de cultura diferentes por meio de uma criatividade inacreditável do povo. Pega um milho cozido, assado ou o potinho com canjica e venha no ritmo do baião. Recomendo deixar o licor para depois, pois na empolgação você pode terminar confundindo Pedro com João e este com Antônio ou achar que já é Natal. Vamos lá que é muita lenha para queimar.

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1. Os rastros dos cultos do campo e de muita encantaria

No século IV, já depois da passagem de Jesus Cristo pela terra, Constantino um dos últimos fortes imperadores romanos, iniciou o processo que culminou no cristianismo como religião oficial do império. Uma religião ainda jovem se tornou a referência para um mosaico cultural impressionante que se espalhava por várias regiões do mundo. Mas, mesmo com a força de ser apontada como a crença hegemônica, uma religião não apaga facilmente os rastros das outras. Elas podem até desaparecer, mas alguns elementos sobrevivem ou são incorporados. O cristianismo católico absorveu muito das referências do sistema religioso greco-romano, sobretudo nas narrativas sobre alguns dos seus santos. Mas houve também muita contribuição popular, sobretudo de ritos que eram feitos nas passagens de estações com festas pelos campos, o que era chamado de paganismo.

O São João é uma destas. Nosso hábito de acender fogueira, por exemplo, na tradição católica oral, ou seja, não oficial, é atribuída a um recurso de Santa Isabel para anunciar a Maria que seu filho, João Batista, havia nascido. Para povos gaélicos, que viviam no território da hoje Escócia e Irlanda, festas de passagem de estações, como uma realizada em maio, no início do verão de lá, tinha a fogueira como centro do rito de abençoar o rebanho. O gado, por exemplo, era levado a passar na proximidade de muitas delas acesas para garantir prosperidade e benção para os campos.

Muitas das tradições portuguesas que chegaram ao Brasil por meio da colonização tinham o fogo também inserido neste contexto de purificação, renovação dos ciclos da vida e da força comunitária. Portanto, o cristianismo não apagou totalmente muito destes elementos, mas os incorporou. Vale lembrar que São João, com base nos próprios evangelhos é considerado o precursor, ou seja, aquele que tinha a missão de abrir os caminhos para a missão de Jesus, ou seja, de um período de total transformação. Portanto, quando você assar o milho, usar uma brasa para acender os fogos, mesmo aqueles bem infantis, ou pular a fogueira com aquela amiga ou amigo inseparável para se tornar comadre ou compadre você agora já sabe que relembra hábitos que já estiveram na base de crenças em coisas bem diferentes da sua. Fascinante, não é mesmo?

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2. A mão, a técnica e o paladar indígena na mesa junina

Se a gente consegue comer pamonha, canjica, bolo e tanta coisa gostosa desde o início das trezenas de Santo Antônio, temos muito que agradecer a paiaiás, maracás, kariris e tantos povos, especialmente aqueles que habitaram os chamados sertões. O milho é um alimento típico das Américas e, se a festa é cristã-católica, o cardápio é uma grande herança dos chamados povos originários.

E não é apenas se atentar ao preparo, afinal são muitas culturas ali envolvidas inserindo ingredientes e a forma de fazer, mas, se não fosse o conhecimento indígena sobre a forma de cultivo e beneficiamento deste alimento, ainda estranho para quem vinha de fora, a gente não chegaria a esta maravilha de protagonismo do milho em quase tudo que se come no São João. E há também muito da forma de pensar sobre o mundo e as suas relações entre sagrado e a humanidade. Para muitas das culturas indígenas não há separação entre o mundo das mulheres e homens e aquele que é habitado por plantas e animais. Assim é possível entender o ambiente de forma melhor e acompanhar seus ciclos.

Ainda hoje, as regiões do semiárido baiano são exemplos. Praticamente todo mundo fica apreensivo se chega o dia 19 de março, ou seja, a segunda quinzena do chamado mês das chuvas, e elas ainda não apareceram. A principal preocupação é não se poder plantar o milho esperando a colheita em junho, ou seja, para o São João. No sertão se reza para São José, articulando mais uma vez o ciclo das estações com o período que vai vir depois. Logo, São José, unido a São João pelo parentesco entre os filhos, olha que coisa bonita, também estão articulados neste símbolo de patronos da fartura. Um encaminha as condições- chuva nos modos que o sertão espera, ou seja, nem pouca e nem em excesso- e o outro vai garantir uma festa com muita comida, ou seja, fartura.

Você pode pensar: mas são festas católicas. Sim, são mesmo, mas a comida que a acompanha é resultado da contribuição dos povos que já estavam aqui e que, mesmo em seu sofrimento, tiveram a grandeza de legar formas de subsistência, ou seja, leva a gente a pensar sobre como encontros culturais não são coisas fáceis de interpretar de forma apressada. São muitas e muitas camadas. Portanto, antes de comer, faça também seu agradecimento aos Encantados dos generosos povos indígenas que ainda hoje estão na batalha para proteger seus filhos, que precisam lutar sem parar para defender os territórios que lhes pertencem por origem e direito.

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3. A sabedoria do povo transformou um profeta rigoroso em um menino festeiro

São João é uma exceção à regra dos santos: sua festa acontece no que é considerado o seu nascimento e não a sua morte. Além disso, a exuberância da comemoração — música animada, estrondo e luzes por conta dos fogos e da fogueira e muita, mas muita comida e bebida — destoa do João canonizado pela Igreja Católica.

Segundo as narrativas dos evangelhos, que são a principal fonte reconhecida pelo cristianismo sobre o que Jesus pregou e realizou, João era uma pessoa, digamos, de gênio muito forte. Seus pais, Zacarias e Isabel o conceberam quando já tinham idade avançada e ele foi anunciado como alguém que teria uma grande importância em algo novo. Ao receber a visita de sua prima, Maria, a mãe de João logo disse que ela estava diante de um milagre, pois bastou vê-la e o menino havia saltado em seu ventre.

Adulto, João se tornou um profeta reconhecido e sério candidato a Messias. Houve até quem visse nele, Elias, um profeta do Antigo Testamento que não morreu, pois antes disso foi arrebatado aos céus. João vivia no deserto, se vestia com peles de animais e tinha uma dieta baseada apenas em gafanhotos (isso mesmo) e mel. Sua pregação era dura, pois ele dizia que estava perto um tempo de grandes mudanças. Ele fazia um rito de conversão que era purificar as pessoas com água, mas dizia que viria alguém que faria esse processo com fogo e espada. Jesus, ao encontrá-lo, se deixou batizar por ele e foi quando João o apontou como o cordeiro de Deus sinalizando o sacrifício futuro que ele faria.

Por conta de um discurso de base moral – acusou o rei Herodes de adultério por ter se casado com uma cunhada- foi preso. Por vingança, a mulher em questão, Herodíades armou uma cilada: mandou a filha conhecida como exímia dançarina atender o pedido do rei para uma demonstração entre os convidados de um jantar. Em troca pediu a cabeça de João Batista em um prato de servir e assim foi feito. Há a versão evangélica de que o episódio causou tanta influência sobre Jesus que ele chorou, ou seja, o Deus encarnado sucumbiu a uma fragilidade humana que é a dor pelo luto por alguém que se ama.

Pois aí o Brasil deu um jeito e foi além de fazer uma festa de arromba para festejar esta figura tão importante na narrativa cristã: resolveu contribuir com uma iconografia, digamos, alternativa para São João. Se nas igrejas dedicadas a ele sua representação é de um homem com expressão sisuda, barbudo e coberto com peles, nas festas pelo Nordeste afora São João é representado como um pré-adolescente- talvez em oposição à representação do Jesus recém-nascido- segurando um carneirinho e com uma expressão muito dócil. Mas o coitadinho, na narrativa popular, passa essa sua festa de aniversário dormindo porque afirma-se que, caso ele acorde, vai ficar tão animado e emocionado que descerá à Terra para festejar e aí será um cataclisma. Tanto que uma das músicas diz: São João está dormindo/não acorda, não. É uma trajetória que só mostra o quanto a memória glauberiana estava certa ao grafar no nosso imaginário a expressão: “Mais forte são os poderes do povo”.

Agora que você já fez essa pausa para mergulhar em coisas de cabeção sobre o São João vamos deixar o estudo de lado que combina mais com a face de João como profeta e está aberta a temporada de cair na festa celebrando a sua imagem recriada no Nordeste: o menino que quer mesmo é muita diversão. Mas atenção: cuidado para não acordar o aniversariante. Vai que o povo tem razão e aí lá vem Apocalipse. Que São João, mas o outro, evangelista e autor do livro homônimo, nos livre e guarde.

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