
Com o verão já instalado em terras soteropolitanas no nosso calendário próprio chegou a hora da pausa. Isso mesmo porque este calendário é muito especial e cheio de detalhes mágicos. No próximo dia 13, com a Festa de Santa Luzia, essas celebrações organizadas no Calendário de Verão entram em uma espécie de intervalo até o último dia de dezembro. Santa Luzia é mais do que especial e merece a atenção para três características sobre a comemoração em sua homenagem. Puxa a cadeira que temos algumas boas histórias sobre a devoção em honra da protetora da visão, afinal enxergar bem, nos mais variados sentidos, é uma virtude.

A devoção italiana que se instalou na igreja espanhola
Santa Luzia é a forma aportuguesada para se referir a Santa Lucia, uma devoção que vem da região de Siracusa, na Itália. O nome deriva de uma expressão latina para “a luminosa”, “a que traz luz” ou “nascida da luz”. Segundo a tradição católica, Luzia, dona de uma beleza estonteante recusou casamentos porque, convertida ao cristianismo, decidiu se manter virgem. Foi denunciada e presa em uma época de perseguição ao cristianismo. Passou por várias torturas, mas se manteve firme. Foi quando decidiram arrancar seus olhos, mas, ainda assim, ela continuou enxergando. Por fim foi decapitada. Em sua iconografia mais comum ela segura, com uma das mãos, a palma, símbolo da castidade. Na outra, apresenta um prato onde estão seus olhos arrancados. Na capital da Bahia, a devoção a Santa Luzia está instalada na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, no bairro do Comércio. O templo, construído no século XVIII, faz referência a uma invocação a Maria, comum na Espanha. É um exemplo da forte influência da comunidade de imigrantes espanhóis na região onde fica a igreja, com protagonismo principalmente na administração dos trapiches. O templo tem um cemitério em anexo e uma fonte com águas consideradas milagrosas. Este manancial está profundamente ligado ao culto de Santa Luzia.

A cura passa pela paciência
A celebração para Santa Luzia em Salvador tem como elementos da festa a missa solene seguida de procissão pelas ruas do Comércio, mas muita gente passa um tempo considerável na fila para conseguir coletar água na fonte considerada milagrosa. Segundo os devotos, a água recolhida diretamente de uma parede rochosa no interior do templo tem poderes para curar glaucoma, conjuntivite e outros problemas de visão. A espera nos dias da festa dura, em média, 1h30. Posso afirmar com segurança este cálculo, povo, pois cronometrei cuidadosamente, quando estava realizando meu trabalho de campo para a tese. Uma coisa muita interessante: tem até quem tente vender as garrafinhas com a água da fonte, mas não é um negócio próspero. Faz parte da devoção, ao que parece, ficar aguardando a vez na fila para coletar a água por ação própria, demonstrando paciência.
Associação religiosa especializada
Praticamente todas as festas do calendário de verão em Salvador tem uma associação religiosa direta entre os santas e santos do catolicismo e as religiões de matrizes afro-brasileiras. Na Festa de Santa Luzia isso acontece, mas de uma forma muito específica. A protetora da visão é associada a uma apresentação específica de Oxum o que, no vocabulário dos estudos sobre candomblé, se chama “qualidades”. Em seu livro Orixás, Pierre Verger listou algumas destas formas de entendimento sobre a Senhora das Águas Doces associada a formas de cultos em locais específicos, como as águas mais profundas, domínio sobre mistérios ou dádivas, como a fertilidade. No encontro entre as diferentes práticas religiosas comuns nas festas de largo, portanto, Santa Luzia é associada a Oxum Apará ou Oxum Opará.

Um itan- as narrativas sobre as cosmogonias das civilizações africanas de base nagô, que são aquelas com origem no território da hoje Nigéria- conta que Oxum ficou chateada com muitos elogios feitos à beleza da sua irmã, Iansã, afinal ela é considerada a dona desta qualidade. Como conhece bem os mistérios da magia, Oxum enfeitiçou um espelho e o deu de presente a Iansã. Todas as vezes que a Senhora dos Raios se mirava via uma imagem distorcida e foi ficando tão impressionada que acabou enlouquecendo.
Olorum, o Senhor Supremo, ficou muito aborrecido Ele chamou Oxum até as alturas onde vive, a repreendeu e disse que ia fazer com que uma das suas apresentações tivesse algo que lembrasse da sua irmã, Iansã, e do que havia feito a ela. Assim, nesta “qualidade”, Oxum tem em meio às suas vestes amarelas tons de vermelho e usa, além do abebé- o seu espelho dourado- uma espada. Desta forma, esta apresentação da Dona das Fontes e Cachoeiras assume um tom guerreiro e de vontade forte se aproximando do arquétipo atribuído a Iansã. No livro Orixás, santos e festas: encontros e desencontros do sincretismo afro-católico na cidade de Salvador, o professor da Ufba e babalorixá, Vilson Caetano de Sousa Junior também aponta a associação de Santa Luzia com Ewá, uma orixá que tem características próximas do orixá Oxumarê, no sentido da renovação, como também de uma jovem caçadora. É por isso que na festa vai ter muita gente combinando no traje vermelho e amarelo, por conta de Oxum Apará, ou rosa, em homenagem a Ewá.
Eu recomendo a todas e todos acompanhar essa bonita festa que, diferentemente do que muita gente pensa, continua firme, forte e bela com participações muitas vezes do afoxé Filhos de Gandhy e da Banda Didá na procissão. Vale uma visita à fonte ou aquela reza forte para pedir uma visão potente, não apenas do ponto de vista físico, mas espiritual, e depois fazer a pausa que o calendário de verão impõe nas celebrações de largo. Mas logo, logo, dia 31, este belo espetáculo de ocupar as ruas e dinamizar tradições tão antigas, vai estar de volta com a Festa de Bom Jesus dos Navegantes.


