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Salvador na influência: Como as redes sociais e criadores de conteúdo colaboram para construir a imagem e contar histórias da cidade

Entre experiências pessoais, crítica social e afeto, criadores de conteúdo mostram uma Salvador que escapa dos estereótipos e ganha novos sentidos no ambiente digital

Centro Histórico de Salvador | Foto: IPHAN | Montagem: Portal Umbu

Em novembro de 2025, um vídeo publicado por uma influenciadora paulistana colocou Salvador no centro de um debate nacional. Ao relatar uma experiência negativa na cidade, ela associou o atendimento em estabelecimentos locais a uma suposta característica do “povo da praia”. A repercussão foi imediata: moradores, criadores de conteúdo e até a Prefeitura reagiram publicamente, acusando a fala de reforçar estereótipos e de reduzir a complexidade da capital baiana a uma leitura simplificada.

O episódio, que rapidamente viralizou nas redes sociais, expôs uma tensão recorrente: quem tem o direito de narrar Salvador e a partir de qual experiência essa narrativa é construída.

Salvador sempre foi uma cidade contada por muitas vozes mas, nas redes sociais, essas narrativas ganharam escala, velocidade e novos protagonistas. Nos livros de história, nos cartões-postais, nas músicas e nos relatos de turistas, a capital baiana construiu ao longo do tempo uma imagem forte, mas muitas vezes simplificada. Com a expansão das redes sociais, esse processo ganhou novas camadas, mais fragmentadas e também mais próximas da experiência cotidiana.

Esse movimento não se restringe apenas à percepção, como também aparece nos números. Durante o Carnaval de 2026, por exemplo, a Prefeitura de Salvador liderou o ranking nacional de engajamento entre perfis de instituições públicas no Instagram, acumulando cerca de 1,2 milhão de interações no período, quase o dobro do segundo colocado, o governo estadual de São Paulo, com 672 mil. Os dados são da pesquisa SocialMediaGov, que realizou o levantamento entre os dias 12 e 18 de fevereiro.

No mesmo intervalo, os perfis oficiais ultrapassaram a marca de 39 milhões de visualizações, alcançando milhões de usuários e reforçando a força da imagem da cidade nas plataformas digitais.

Esse desempenho evidencia que Salvador não é apenas vivida, mas também intensamente consumida no ambiente online. Nesse cenário, influenciadores locais assumem um papel estratégico ao produzir narrativas que partem da experiência direta com a cidade e dialogam com públicos diversos.

Mais do que mostrar lugares, esses criadores ajudam a construir sentidos sobre Salvador, produzindo narrativas que oscilam entre o afeto, a crítica e a tentativa constante de reequilibrar percepções sobre a cidade.

Quando a experiência pessoal vira narrativa sobre a cidade

O ponto de partida desses perfis revela muito sobre o tipo de narrativa que eles constroem e como cada criador se posiciona diante da cidade.

No caso de Caio Costa, criador da página ‘A Vida em Salvador’, a decisão de falar sobre Salvador surgiu de forma gradual, a partir da necessidade de segmentar o conteúdo que já produzia anteriormente. Ao perceber que o público não respondia bem às publicações sobre a cidade em um perfil voltado ao marketing, ele optou por criar um novo espaço dedicado exclusivamente ao tema.

Caio Costa trabalha com produção de conteúdo online há 22 anos | Foto: Reprodução

“Eu sou criador de conteúdo há 22 anos, sendo que boa parte deste tempo foi dedicado às plataformas do Blogcitário, meu blog sobre publicidade e Marketing Digital. Eu comecei em 2017 a postar fotos de Salvador neste perfil. Mas logo vi que as pessoas não tinham interesse em ver lugares de Salvador, pois estavam seguindo pra saber sobre publicidade e Marketing. Então resolvi criar o A Vida em Salvador para, justamente, só postar em relação à cidade e em pouco tempo aparecia pessoas comentando nos posts, o que me deu ânimo para continuar e me dedicar exclusivamente sobre ele”, afirma.

Já para Larissa D’Eça, criadora do perfil ‘As Melhores Coisas de Salvador’, a criação de conteúdo teve origem em uma experiência pessoal marcante. O projeto, que faz 10 anos em 2026, nasceu como uma forma de ressignificar a relação com a cidade após um episódio de violência.

“O ‘Melhores Coisas’ surgiu em outubro de 2016, criado como forma de combater um possível trauma após um assalto sofrido em Salvador. Foi uma estratégia para impulsionar novas saídas de casa, para conhecer ou revisitar locais e assim produzir conteúdo de forma despretensiosa”, explica.

Larissa D’Eça é Analista de Comunicação e cria conteúdo com o perfil As Melhores Coisas de Salvador há quase 10 anos | Foto: Ritielle Nunes

Apesar das diferenças de origem, ambos os percursos convergem em um ponto comum: Salvador deixa de ser apenas cenário e passa a ser também objeto de curadoria e narrativa. E se há algo que aproxima os discursos dos criadores, é a percepção de que Salvador não pode ser reduzida a uma única leitura.

Caio adota uma postura de contraponto ao que considera uma visão excessivamente negativa disseminada por parte dos moradores, buscando evidenciar experiências positivas na cidade.

“Eu tenho plena consciência de que Salvador, apesar de atrair muitos turistas todos os anos, tem problemas estruturais para quem mora aqui. Mas o meu objetivo é justamente trazer um outro ponto de vista porque eu percebo que muitos moradores têm uma visão pessimista sobre a cidade e mostrar que é possível curtir Salvador nos seus momentos de folga. Por isso, eu tenho esse objetivo muito claro em trazer pontos positivos sobre a cidade”.

Já Larissa assume a ambivalência como parte constitutiva da experiência urbana, sem tentar suavizar as contradições: “Certamente, porém procuro sempre deixar claro que trata-se de um blog, que, como tal, traduz opiniões pessoais. Logo, o crivo do que é bom ou ruim passa por toda a minha vivência, que é de uma pessoa apaixonada pela cidade e todas as suas peculiaridades. Sinto-me feliz por conseguir sustentar um deslumbramento por Salvador, mesmo ela me maltratando por tantas vezes com suas faltas de oportunidade, violência, e tantas outras questões complicadas”, diz.

Um olhar treinado para o detalhe

A prática contínua de produzir conteúdo transforma a maneira como os criadores percebem Salvador. O cotidiano passa a ser observado com mais atenção, revelando nuances antes ignoradas. Para Caio Costa, esse processo resultou em uma valorização mais profunda de áreas históricas da cidade, especialmente o Centro Histórico.

“Desde que eu passei a produzir de forma profissional os conteúdos sobre Salvador, desenvolvi um olhar mais atento sobre detalhes que passam batido por quem passa pelos locais sem prestar muita atenção ao redor. Uma área que eu passei a valorizar foi o Centro Histórico, principalmente o Pelourinho e o Santo Antônio Além do Carmo. Nos últimos anos este bairro se tornou popular entre moradores e turistas, mas é preciso ter o cuidado para não destruir a essência de ser um bairro residencial de muitas pessoas que moram lá há muitos anos”, explica.

Já Larissa D’Eça destaca que esse olhar se traduz em uma busca constante por conhecimento, ampliando a relação com a cidade.

“Impossível mensurar o quanto o Melhores Coisas influenciou e influencia na minha busca incansável por conhecimento sobre Salvador, sua cultura, seus costumes e sua gente. É difícil responder a essa pergunta”, comenta aos risos.

Nesse processo, Salvador deixa de ser apenas um conjunto de pontos turísticos e passa a ser compreendida como um território dinâmico, em permanente descoberta. Mas nisso, as diferentes formas de consumir conteúdo sobre a capital baiana também ajudam a moldar as narrativas produzidas.

Caio identifica três perfis principais de público, cada um com percepções distintas sobre a cidade.

“Olhando para as métricas, o conteúdo chega mais para quem está ou mora em Salvador. Mas tem um volume considerável de turistas que sempre tiram dúvidas nos comentários, principalmente sobre onde ir e passeios. Desde o início da página percebo três tipos de público: os moradores da cidade, os turistas que querem vir pra cá e quem nasceu em Salvador e hoje mora longe, seja em outras cidades do Brasil ou do exterior. Enquanto moradores daqui, às vezes, querem destacar os pontos negativos da cidade, os turistas relatam as experiências positivas que tiveram por aqui”, afirma.

Larissa observa um comportamento semelhante, mas destaca o papel afetivo dos seguidores que vivem fora da cidade.

“É muito equilibrado e varia de acordo com a rede. Além disso, há também os soteropolitanos que moram fora. Diria que atualmente, em nossa rede de maior alcance, que é o Instagram, há um predomínio da participação mais ‘calorosa’ por parte de pessoas que não são daqui ou estão longe de casa, saudosas de Salvador”, diz.

Esse cruzamento de experiências contribui para a construção de uma imagem plural da cidade no ambiente digital.

Influência que se materializa

A atuação desses criadores ultrapassa o campo simbólico e impacta diretamente decisões de consumo e turismo. Caio Costa, por exemplo, relata que seus conteúdos frequentemente ajudam a desconstruir percepções negativas e influenciam visitantes.

“Diariamente recebo depoimentos de seguidores que estavam com medo de vir pra Salvador por causa das opiniões que estão espalhadas pela internet. E depois agradecem por causa dos meus conteúdos mostrarem que o cenário não é tão ruim como alguns falam. É claro que é necessário ter cuidados, mas não é todo esse cenário caótico que as pessoas tentam passar sobre Salvador. Eu percebo que os moradores, mesmo quando eu trago alguma novidade, fazem questão de falar mal da cidade como se isso invalidasse a dica que eu estou postando. Mas, de qualquer forma, eu acredito que tem muitos seguidores ‘silenciosos’ que acompanham a página sem deixar like ou comentar, mas vão lá curtir os locais e talvez fiquem agradecidos por eu ter dado uma dica que foi além do óbvio”, afirma.

Larissa D’Eça contextualiza essa influência dentro de uma mudança mais ampla no comportamento do público e no ecossistema digital.

“Presenciei diversas fases dessa influência. Quando surgimos, o número de perfis sobre Salvador era bem menor e esse movimento de ‘seja turista em sua própria cidade’ ainda estava em ascensão. Com Salvador ficando cada vez mais na moda, notamos um crescimento no número de criadores de conteúdo que falam sobre a cidade. Isso impacta não apenas o turismo, mas também toda uma cadeia econômica e produtiva. Hoje, antes de realizar uma viagem, as pessoas costumam buscar dicas com pessoas locais, logo chegando a perfis como o Melhores Coisas”, explica.

Produzir conteúdo sobre Salvador vai além de registrar experiências, passando por disputar sentidos sobre a cidade e enfrentar estereótipos historicamente associados à população baiana. Caio aponta que há resistência, especialmente por parte dos moradores, mas acredita no impacto gradual de seu trabalho.

“Eu tento quebrar alguns pensamentos de senso comum que moradores e turistas possuem sobre a cidade com os meus posts, mas mesmo assim eu encontro resistência de parte dos moradores da cidade. De qualquer forma, eu faço lives no TikTok, vídeos mais longos no YouTube e sempre nestes conteúdos mais longos as pessoas elogiam e dizem que não imaginavam que tal bairro era assim, por exemplo. Então sim, eu acredito que meu conteúdo, de alguma forma, ajuda a quebrar estereótipos que as pessoas têm sobre Salvador”, afirma.

Larissa D’Eça também reconhece esse papel e destaca o enfrentamento direto a estigmas: “Eu tenho uma veia muito militante e de combate a estereótipos errôneos, como o mito da preguiça baiana. Busco fazer esse trabalho de conscientização, mas sei que é uma árdua batalha a ser enfrentada”, diz.

A cidade que só quem vive entende

A tensão entre experiência local e percepção externa se intensifica quando episódios negativos ganham visibilidade nas redes, especialmente quando partem de visitantes e acabam reforçando generalizações sobre a cidade.

Diante de repercussões como essa, Caio Costa chama atenção para o risco de leituras simplificadas e para a importância de compreender Salvador em sua totalidade.

“Salvador tem vários problemas como toda a capital brasileira, mas isso não a define”, inicia. “A questão principal de uma dessas influenciadoras foi criticar o mau atendimento em um estabelecimento. Está no direito dela, mas o erro, na minha opinião, foi usar um estereótipo ultrapassado sobre os baianos e definir o atendimento ruim como fator decisivo para não recomendar a visita. E quem vive aqui sabe como o povo, no modo geral, tem energia positiva para tratar bem a todos, algo que é um diferencial da gente e que certamente faz com que quem vem aqui se apaixone e recomende para seus amigos e familiares visitarem a capital baiana”, afirma.

Apesar das críticas, o sentimento de pertencimento permanece como eixo central. Caio Costa associa esse orgulho ao potencial turístico e à identidade acolhedora da cidade, sem deixar de apontar desafios ambientais.

“Dá orgulho de realmente ser uma cidade onde as pessoas de outras cidades passam férias e com pontos turísticos incríveis reconhecidos tanto no Brasil quanto no exterior. Uma coisa que precisa melhorar muito é justamente dar atenção à questão da preservação da flora em várias áreas da cidade, como na orla, por exemplo. Além de deixar o ambiente mais bonito, é fundamental para a qualidade de vida de todos. Se Salvador fosse uma pessoa, eu imaginaria ela como uma mulher preta que sabe ser gentil, divertida e hospitaleira com as pessoas que vêm visitar a sua casa”, afirma.

Larissa D’Eça, por sua vez, enfatiza a complexidade da cidade e a necessidade de avanços estruturais.

“Salvador é claramente uma mulher complicada e perfeitinha, com sua personalidade forte e um tanto bipolar”, brinca, comentando a previsão do tempo que volta e meia surpreende. “Me orgulho da sua história, do seu povo, das suas belezas naturais, da nossa identidade. É necessário que se mude uma série de coisas: valorização dos nossos profissionais; preservação das áreas verdes e uma mobilização séria sobre crimes ambientais; preservação dos nossos patrimônios históricos… e, claro, o combate à violência”, diz.

No fim, entre filtros, relatos e vivências, Salvador segue sendo construída como uma narrativa em disputa permanente. Nas redes sociais, essa disputa ganha escala, velocidade, novos protagonistas e transforma a cidade não apenas em cenário, mas em discurso, identidade e território simbólico.

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