...

Portal UMBU

Salvador (477), cidade mãe, muitas vezes madrasta

Imagem ilustrativa | Foto: Mauricio Lima/The New York Times/2013/Reprodução

Apesar de tanto não e tanta dor que nos invade

Somos nós a alegria da cidade

Apesar de tanto não e tanta marginalidade

Somos nós a alegria da cidade”

– Jorge Portugal e Lazzo Matumbi)

Nos seus 477 anos de existência, Salvador, cidade que nasceu vocacionada para ser a capital do império português no Atlântico Sul, continua encantando a tudo e a todos, do mesmo modo, que continua exibindo contrastes que nos incomodam profundamente.

Cantada em prosa e verso por suas belezas naturais, a exemplo do seu extenso e belo litoral, formado por praias paradisíacas, bem como por sua cultura rica, diversa e plural, hegemonizada pelas manifestações culturais afro-baianas. Salvador é também conhecida por suas assimetrias (desigualdades) econômica, social e racial traduzidas por uma pobreza gritante e uma violência assustadora, em particular contra sua juventude negra.

Ou seja, Salvador tem sido, há um só tempo, mãe e madrasta daqueles que a fazem singular.

Do mesmo modo que acolhe, por conta da generosidade, sabedoria e criatividade de uma população majoritariamente negra, também exclui, e de forma acintosa, exatamente aqueles que lhe dão essa singularidade – a população negra.

Salvador é considerada (por merecimento) a capital da cultura do país, afinal, daqui saíram não apenas talentos geniais para a cultura brasileira como Gilberto Gil, Margareth Menezes, Gal Costa, Carlinhos Brown, Itamar Vieira Junior, Lázaro Ramos, Mestre Pastinha, Mãe Stella de Oxóssi, Olodum, etc.

Também tem origem em Salvador movimentos culturais exuberantes que mudaram os rumos da cultura no Brasil, a exemplo do Tropicalismo, do Samba Reggae e da Capoeira.

Mas, apesar de toda essa genialidade cultural, Salvador continua exibindo números vergonhosos quando tratamos do cuidado com sua população, em particular com suas crianças e adolescentes.

O nível de aprendizagem adequada no ensino fundamental em disciplinas como português e matemática, por exemplo, estão abaixo da média nacional (39% em português e 27% em matemática).

No âmbito da adolescência e juventude (10 a 19 anos) – A violência letal tem sido o principal fator de mortalidade juvenil, superando até mesmo doenças e acidentes.

Em regiões como Subúrbio Ferroviário, Cajazeiras e São Caetano/Liberdade, as taxas chegam a mais de 100 homicídios por 100 mil (uma verdadeira carnificina) E o perfil dessas vítimas são jovens negros, sexo masculino e moradores de áreas pobres.

A ausência de políticas estruturantes nas áreas da educação, do trabalho e da cultura deixam essa juventude exposta a toda sorte de vulnerabilidades, em particular da violência letal.

E esse quadro não pode ser atribuído ao acaso, mas sim a sucessivas gestões de uma elite insensível que administra a cidade desde o período colonial.

Em muitos momentos essa população tem se rebelado de forma contundente contra a desigualdade e exclusão. Ora denunciando, ora propondo, ora exigindo mudanças.

Não nos esqueçamos da Revolta dos Búzios (1798) e seus mártires (João de Deus, Lucas Dantas, Manoel Faustino Luiz Gonzaga), hoje heróis nacionais, nem da Revolta dos Malês (1835), nem do Quebra quebra dos ônibus (1981), todas duramente reprimidas poder local.

Portanto, celebrar o aniversário de Salvador, é festejar, cantar, dançar, comer e beber, mas também, protestar, denunciar, exigir e propor mudanças a este quadro de violência e exclusão a que grande parcela da nossa população continua submetida.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

POSTS RELACIONADOS

plugins premium WordPress
Ir para o conteúdo