Com programação até 21 de abril, evento ocupa o Centro de Convenções Salvador com autores de projeção nacional, debates, sessões de autógrafos, atividades para diferentes públicos e expectativa de superar a marca de 120 mil visitantes

Salvador abriu, nesta quarta-feira (15), mais uma grande vitrine da cena literária nordestina com o início da Bienal do Livro Bahia 2026, no Centro de Convenções Salvador, na Boca do Rio. Com o tema “Bahia: identidade que ecoa nos quatro cantos do mundo”, a edição deste ano chega maior, mais espalhada e com fôlego ampliado: serão sete dias de programação, até 21 de abril, reunindo autores, artistas, educadores, estudantes, editoras e leitores em torno de uma agenda que combina literatura, oralidade, pensamento contemporâneo, música, formação e experiências voltadas a diferentes faixas etárias.
Logo no primeiro dia, um dos destaques da programação foi a mesa “Festas, feiras e festivais literários – Programa Bahia Literária”, realizada às 16h, no Café Literário. O encontro reuniu o jornalista e escritor Ricardo Ishmael, a professora, pesquisadora e escritora Bárbara Carine, Manoel Calazans, Assessor Especial da Secretaria da Educação da Bahia, Bruno Monteiro, secretário de Cultura do Estado e com mediação de Sandro Magalhães, diretor-geral da Fundação Pedro Calmon. O debate colocou no centro da conversa a potência dos eventos literários nos territórios baianos e o papel da leitura como direito, política pública e ferramenta de formação humana.
Foi justamente nesse ponto que a mesa se destacou, ao falar sobre as distâncias históricas entre livro, leitura e populações atravessadas por desigualdades sociais, raciais e territoriais. Bárbara Carine chamou atenção para o quanto o acesso à literatura ainda é tratado, muitas vezes, como algo distante de comunidades periféricas, negras, indígenas e tradicionais. “Sobretudo quando a gente vai interseccionalizar o debate, quando a gente vai falar de pobreza, quando a gente vai falar de gênero, quando a gente vai falar de comunidade negra, de comunidade indígena, de territórios, de culturas tradicionais, parece que a leitura e a literatura são coisas distantes, e o direito à literatura é sobretudo o direito do desenvolvimento humano”, afirmou.

A fala de Sandro Magalhães ampliou esse raciocínio a partir de uma memória pessoal marcada por origem popular e descoberta cultural. Ao lembrar a infância em Serrinha, ele relatou que o acesso ao conhecimento começou pela música e, depois, pelos livros. “Eu tive acesso ao livro, e ao conhecimento a partir dos livros, a partir da música. Eu também sou um jovem da periferia de Serrinha”, disse. Em seguida, reforçou a dimensão política do tema ao afirmar que o direito à literatura ainda é um espaço em disputa, sobretudo para quem cresce sem biblioteca doméstica, sem acervo e sem convivência cotidiana com o livro. O depoimento dialoga diretamente com a política de expansão do acesso à leitura defendida pelo Governo da Bahia dentro da Bienal e em iniciativas associadas à Fundação Pedro Calmon e à Secretaria de Cultura.
A escolha dessa mesa como um dos pontos de maior repercussão do primeiro dia não foi casual. Ela sintetiza bem o espírito de uma Bienal que tenta se afirmar não apenas como feira editorial ou agenda de celebridades do livro, mas como espaço de circulação de repertórios, disputa simbólica, formação crítica e valorização das identidades culturais baianas. Na programação deste ano, essa proposta aparece tanto na presença de nomes consagrados do mercado quanto na abertura para autores baianos, quadrinistas, cordelistas, mediadores, educadores e vozes ligadas à literatura produzida a partir dos territórios.

A dimensão do evento também ajuda a explicar o peso simbólico desta edição. A Bienal 2026 reúne mais de 150 autores e personalidades, mais de 100 horas de conteúdo e mais de 250 participantes confirmados, além de atrações distribuídas entre mesas de debate, espaços infantis, sessões de autógrafos e encontros temáticos. Entre os nomes anunciados para a programação estão Julia Quinn, Paula Pimenta, Ailton Krenak, Raphael Montes, Vitor Martins, Eliana Alves Cruz, Luciany Aparecida, Aline Bei, Elayne Baeta, Thalita Rebouças e artistas como Melly e Chico Chico. A expectativa da organização é superar o público da última edição e alcançar mais de 120 mil visitantes ao longo dos sete dias.
No ambiente do Centro de Convenções, a Bienal se apresente como espaço de grande circulação, com presença expressiva de estudantes, professores, profissionais do livro, famílias e leitores de diferentes idades. Corredores movimentados, filas em áreas de interesse e forte ocupação dos espaços de debate desenharam um primeiro dia de alta expectativa para o restante da programação.
A própria abertura oficial contou com a presença do prefeito de Salvador, Bruno Reis, do governador Jerônimo Rodrigues, do secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, e de gestores ligados à política do livro e da leitura, reforçando o caráter institucional e estratégico do evento. Segundo Bruno Monteiro, a Bienal representa o ápice de uma movimentação que vem sendo construída em diferentes municípios baianos por meio de feiras, festas e festivais literários.
Nesse contexto, a mesa do Café Literário funcionou como uma espécie de síntese do primeiro dia: mais do que discutir calendário ou programação, ela apontou para uma questão de fundo, que é a permanência da literatura como direito cultural, educacional e humano. Ao aproximar leitura de território, pertencimento, desigualdade e acesso, o debate ajudou a deslocar a ideia do livro como objeto restrito a nichos e reforçou sua dimensão pública.
A Bienal do Livro Bahia 2026 segue até a próxima terça-feira, 21 de abril, no Centro de Convenções Salvador. O evento funciona das 9h às 21h, com ingressos vendidos por dia, nos valores de R$ 33,00 a inteira e R$ 16,50 a meia-entrada. A classificação etária é de 14 anos, e menores dessa idade só podem entrar acompanhados pelos pais ou responsáveis legais. Ao longo da semana, a expectativa é que Salvador reafirme a Bienal como uma das principais vitrines literárias do Nordeste, conectando mercado editorial, formação de leitores, diversidade cultural e presença pública da palavra.




