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Política migratória dos EUA amplia apreensão a menos de 100 dias da Copa do Mundo de 2026

Donald Trump recebe Prêmio da Paz da FIFA de Gianni Infantino, presidente da federação | Foto: Hector Vivas/FIFA/Getty Images/Reprodução

A contagem regressiva para o pontapé inicial da Copa do Mundo deste ano já começou e, em 99 dias, Estados Unidos, México e Canadá abrirão as portas para 48 seleções e um calendário recorde de 104 partidas, com início previsto para 11 de junho. No entanto, com um de seus países-sede envolvido ativamente em ataques ao Irã e no genocídio em Gaza, enquanto reprime cidadãos e visitantes com sua temida força-tarefa anti-imigração, o clima que deveria ser de festa dá lugar à incerteza e à apreensão.

Principal anfitrião da competição, os EUA concentram a maior parte das partidas e também das preocupações. Na terça-feira (3), por exemplo, o presidente do país, Donald Trump, declarou, em entrevista ao site europeu Politico: “Eu realmente não me importo”, ao ser questionado sobre a participação da seleção iraniana no Mundial. “Acho que o Irã é um país muito derrotado. Eles estão sem forças”, afirmou ao veículo. O Irã está sob ataque desde a última semana, quando o aiatolá Ali Khamenei, líder do país, foi morto em ataques aéreos conduzidos por EUA e Israel, que também deixaram cerca de 175 mortos, entre crianças e funcionárias de uma escola infantil para meninas.

Além disso, internamente, o governo norte-americano congelou vistos de imigração de 75 países, incluindo quatro classificados para o Mundial: Haiti, Irã, Costa do Marfim e Senegal. A medida acendeu o alerta entre torcedores estrangeiros porque, embora a FIFA tenha anunciado mecanismos para agilizar agendas consulares, o ingresso para os jogos não substitui o visto tradicional.

Em audiência realizada também na terça-feira (3) perante o Comitê Judiciário do Senado, a secretária do Departamento de Segurança Nacional (Department of Homeland Security), Kristi Noem, afirmou que a Copa será tratada como evento de “segurança máxima”, com reforço da fiscalização em aeroportos e no entorno dos estádios. Ela declarou ainda que disputas orçamentárias no Congresso podem comprometer a preparação de um torneio “seguro e bem-sucedido”.

Em entrevista ao Portal Umbu, o professor de Relações Internacionais Tiago Matos, da Unijorge, afirmou que o momento atual representa uma ruptura com a lógica que marcou o pós-Guerra Fria. “Eu diria que o que nós estamos vivendo hoje são tempos sui generis”, analisou, destacando a singularidade dos acontecimentos recentes.

Ele contextualiza que houve uma geração formada sob a promessa da globalização. “Passamos a falar, dos anos 1990 em diante, em governança global, ou seja, abríamos mão daquela ideia de um mundo regido sob a ameaça da guerra nuclear, que foi a Guerra Fria após a Segunda Guerra Mundial, para um mundo agora preocupado com a sustentabilidade, preocupado em ampliar o escopo das políticas de desenvolvimento.”

Segundo Matos, esse ciclo se esgotou. “Toda essa promessa de um mundo mais liberal, de uma ordem de mundo mais cosmopolita do ponto de vista teórico kantiano. E o que a gente tem visto, talvez em uma escala e em uma velocidade inimagináveis, é um recrudescimento, é uma derrocada da estrutura que mantinha essa promessa de um mundo mais aberto, particularmente ao longo dos últimos dez anos.”

Tiago Matos é doutorando e mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) | Foto: Arquivo pessoal

Ao comentar os mandatos de Donald Trump, ele observa que houve escalada. “Entre 2017 e 2020 nós vivemos um pouco da agressividade com que Donald Trump sempre tratou os temas relacionados a direitos humanos. E eu entendo que migração é um tema muito caro para a perspectiva de direitos humanos.” E completa: “A ideia de que eu e você, como cidadãos, temos direitos respaldados em qualquer que seja a jurisdição para onde nos movamos é a síntese do que nós entendemos como direitos humanos. E essa agenda tem sido frontalmente atacada.”

Para o professor, o impacto é interno e externo. “O que nós temos testemunhado é um retrocesso na ideia de livre circulação de pessoas, no respeito à privacidade, no respeito às liberdades.” Ele também menciona o afastamento de organismos multilaterais: “Isso não apenas na forma como os Estados Unidos têm se comportado frente a outros países ou às instituições internacionais, como as agências do sistema ONU, das quais os EUA se retiraram em boa parte recentemente, mas também dentro do próprio país.”

Na avaliação de Matos, a imagem histórica dos EUA também passa por revisão. “Os Estados Unidos construíram historicamente a imagem de ‘terra das oportunidades’. Se olharmos para a história com seriedade, vamos entender que isso nunca foi de todo verdade, o que também não faz com que tenha sido de todo mentira. O país absorveu fluxos migratórios importantes no século XX. No entanto, sua formação também envolveu o genocídio de populações originárias, aspecto frequentemente omitido.”

Sobre a narrativa do “modo de vida americano”, ele observa: “Nos anos 1990, com o fim da União Soviética, os EUA conseguiram vender ainda melhor essa ideia aliada a um modo de vida típico de sociedade de consumo.” Hoje, porém, o cenário é outro. “A terra das oportunidades já não tem tantas oportunidades assim. A perda de competitividade da indústria americana e, consequentemente, da economia norte-americana tem impactado a capacidade de garantir o mesmo padrão de vida que os Estados Unidos conseguiram promover por tantas décadas.”

A imagem fragilizada, a perda de competitividade industrial, a precarização de setores do trabalho e a crescente imprevisibilidade política minaram a narrativa de estabilidade e de rule of law. “A ideia de liberdade em vários aspectos, a ideia de previsibilidade, a ideia de estado de direito, que eles chamam lá de rule of law, tem sido sistematicamente violada.”

A condução errática da política externa, o constrangimento público de aliados europeus e medidas econômicas abruptas, como tarifas impostas por decreto, geram insegurança jurídica e diplomática e, às vésperas da Copa, o impacto é direto. “Esse resultado, às vésperas de uma Copa do Mundo, cria um sentimento de insegurança, para dizer o mínimo, tanto de patrocinadores quanto de cidades que eventualmente vão hospedar os jogos. Muitos países sempre utilizaram a Copa do Mundo como uma forma de limpar sua imagem.” No contexto atual, diz, “os Estados Unidos têm na Copa do Mundo um holofote negativo sobre a condução da vida política e econômica e principalmente sobre a postura do seu líder máximo com relação às liberdades civis.”

Questionado sobre eventuais reações internacionais, Matos pondera: “O que a comunidade internacional pode fazer, lamentavelmente, é muito pouco.” Ele explica que o evento envolve “duas entidades muito poderosas: de um lado, a Federação Internacional de Futebol (FIFA), cujo poder econômico todos nós conhecemos; do outro, a maior potência política, econômica e militar do planeta, liderada por um sujeito cada vez mais imprevisível.”

Em dezembro de 2025, a FIFA concedeu a Donald Trump um reconhecimento simbólico “em nome da paz”. Gianni Infantino, presidente da federação, entregou ao presidente estadunidense o Prêmio da Paz, um troféu que se trata de uma distinção anual concedida a alguém que, segundo a organização, tenha tomado “medidas excepcionais e extraordinárias pela paz e, ao fazê-lo, unido pessoas em todo o mundo”.

Apesar do cenário, o entrevistado vê espaço para pressão, mas de potenciais torcedores e turistas. “Os boicotes são uma forma muito interessante de chamar a atenção para o desacordo com relação à postura do presidente.” Ele lembra que “os próprios Estados Unidos boicotaram os Jogos Olímpicos de Moscou no início dos anos 1980”. Além disso, afirma: “O poder da desobediência civil não pode ser deixado de lado contra esses grandes players.” Para ele, “o futebol está permeado, impregnado da política e isso é incontornável.

No plano doméstico, com ações violentas do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, o professor descreve uma tensão crescente e aponta para “uma atmosfera de paranoia social que tem tomado os Estados Unidos”. Em análise, destacou que há um viés étnico-racial nas ações de fiscalização. “Donald Trump tem, demonstradamente, caracterizado os imigrantes latinos e africanos e de países majoritariamente muçulmanos como alvos preferenciais das ações do serviço de fronteira.” E acrescenta: “Há um racial profile nessas abordagens.”

Foto: Jamie Kelter Davis/The New York Times

Sobre a possibilidade de escalada nas ações internas do país, ele afirmou: “Eu espero que não, mas todos nós, no fundo, acreditamos que sim, que as coisas devem escalar, devem ganhar contornos ainda mais dramáticos.” Isso pode afetar diretamente o público do torneio. “Eu fico me colocando no lugar dessas pessoas e pensando que eu talvez não quisesse me arriscar a estar transitando em ruas cujo esquema de segurança vai estar reforçado e talvez com ordens claras para parar, investigar e ser truculento com pessoas com o meu perfil étnico-racial.”

O reflexo pode atingir inclusive brasileiros. “Isso vai desencorajar muitas pessoas, sejam hispano-americanos e afro-americanos, quanto potenciais turistas de regiões da América Latina ou de países de renda média, como o Brasil, que teriam condições de ir e participar dos jogos e talvez decidam não se arriscar. Eu acho que é muito grave o cenário e é absolutamente desestimulante.”

Ao comentar o posicionamento do Brasil, Matos defende firmeza estratégica. “Donald Trump é um tubarão. Se você sangrar no tanque dele, é aí que ele te devora.” “Entre a política da fachada e a política dos bastidores há muitos fatos”, explicou, observando que, no momento, o país deve manter postura “altiva e soberanista”, mas “não precisa de nenhum chauvinismo burro, não precisa de nenhum nacionalismo estúpido.”

Ele também defende fortalecimento estrutural. “Fortalecer as capacidades de defesa nacional, modernizar as forças armadas, investir em defesa e também no âmbito cibernético.” E amplia a análise: “Quem quiser ter o mínimo de soberania nesse mundo, que já não é mais aquele mundo da governança das instituições como outrora foi, vai precisar fazer o dever de casa.”

Na avaliação final, o sistema internacional caminha para maior fragmentação. “Estamos entrando em um mundo governado pela força bruta, um mundo do jogo das grandes potências, um mundo fragmentado em zonas de influência.”

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