Especialista em pele negra, Jéssica Magalhães destaca que o reforço de um padrão estético europeu ainda representa obstáculo para tratamentos especializados

A descolonização da estética é um tema emergente e vital na sociedade contemporânea. Com a ascensão dos movimentos de valorização das culturas ancestrais, especialmente em países com uma significativa população negra, como o Brasil, a discussão sobre padrões de beleza se torna cada vez mais relevante.
Historicamente, os ideais de beleza foram dominados por características eurocêntricas, relegando as características dos corpos negros a um lugar de invisibilidade e, muitas vezes, de desprezo.
A persistente preferência por características associadas a padrões de beleza europeus em estudos se configura como uma falha grave no estudo da saúde. O relatório “Peles pretas importam: um manifesto em prol da abordagem de afecções dermatológicas em pele negra”, publicado na Revista Extensão & Sociedade da UFRN, destacou que a falta de representatividade de diferentes etnias em estudos e práticas de dermatologia perpetua desigualdades no tratamento de pele.
Jéssica Magalhães, biomédica esteta especialista em pele negra, com mais 10 anos de experiência, destaca que a formação e o desenvolvimento de tratamentos geralmente não consideram os corpos negros. “Não só é perpetuado o conceito de beleza europeia, como sequer se fala sobre as características de outras etnias”, afirma. Para ela, atuar na estética permite combater séculos de preconceito, resgatando o conceito de beleza a partir do olhar negro e exaltando traços que foram historicamente marginalizados.
O estudo “Disparidades raciais em dermatologia”, publicado na National Library of Medicine, corrobora o cenário. A partir da análise de 4.146 imagens de livros didáticos de anatomia pré-clínica geral, com edições entre 2013 e 2015, atribuídos às principais escolas médicas nos EUA, constatou-se uma representação de apenas 4,5% das imagens referentes a tons de pele mais escuros. Em 2021, o cenário manteve a tendência: apenas um livro didático teve aumento superior a 1% na representação.
Os desafios para a descolonização da estética não são apenas técnicos, mas também culturais e psicológicos. A mídia, ao perpetuar um padrão de beleza restrito e excludente, desempenha um papel crucial na formação da autoimagem das pessoas. A representatividade nas passarelas de moda, por exemplo, ainda é limitada, apesar de um breve aumento. De acordo com relatório de 2021 da Fashion Spot, 41,3% das modelos em grandes desfiles de moda internacional não eram brancas. O número ainda mostra uma discrepância considerável, com predominância da pele branca e menos da metade das modelos escaladas serem de outras etnias.
Esta falta de visibilidade reforça a ideia de que a beleza está associada a traços europeus, impactando negativamente a autoestima e a percepção de valor estético das pessoas negras. No contexto da biomedicina estética, a descolonização é um processo complexo e repleto de desafios.
Jéssica Magalhães observa que muitos dos seus pacientes buscam procedimentos estéticos para se aproximar de um padrão de beleza branco, muitas vezes sem perceber que essa busca é influenciada pela falta de representatividade e incentivo ao reconhecimento dos próprios traços como belos. “É reescrever o que é belo de acordo com a nossa ancestralidade, não a de outros povos. É reconstruir um conceito profundo e intimamente relacionado a mágoas e opressões. Só assim resgataremos a força de nossa identidade”, explica.
A mídia e a indústria da moda têm um papel fundamental na promoção da diversidade e na valorização da estética não colonizada. A predominância de imagens e propagandas que exaltam corpos não negros como o ideal de beleza impacta diretamente a autoimagem das pessoas negras, criando um sentimento de inadequação. Jéssica ressalta a importância de romper esse ciclo: “É isso que precisamos fazer, descolonizar nossos corpos e estética, e resgatar as características dos povos que foram trazidos e compõem nossa história”.
Os efeitos psicológicos e sociais dessa pressão para se adaptar a padrões estéticos eurocêntricos são profundos e devastadores. A biomédica relata casos de mulheres que enfrentam químicas agressivas para modificar seus cabelos, afinar seus narizes e clarear suas peles.
“A cada relato, é possível sentir a dor de ter sua imagem taxada de feia, inapropriada, inaceitável pela sociedade. E o mais triste é que eu consigo ver o quanto são lindas, só estão sofrendo porque ainda acreditam que precisam se aproximar de um padrão feito justamente para excluí-las”, conta. Para ela, a valorização da ancestralidade e a naturalidade dos resultados são princípios essenciais em sua prática clínica. “Meu padrão é ser eu mesma, assim como você é o seu próprio padrão”, conclui.
A descolonização da estética exige uma mudança estrutural e cultural profunda. A valorização dos traços naturais e a promoção de uma estética inclusiva e diversa são passos fundamentais nesse processo. Jéssica, com uma visão crítica, exemplifica como é possível caminhar na contramão dos padrões estabelecidos e construir um novo conceito de beleza, enraizado na diversidade e na valorização da ancestralidade.
“A valorização da ancestralidade é um dos princípios de minha prática clínica, juntamente com a naturalidade dos resultados. Não trabalho com transformações e sempre reafirmo em consulta. Não acredito nem vivencio o conceito arrogante de reduzir 8 bilhões de pessoas a um único modelo padrão. Meu padrão é ser eu mesma, assim como você é o seu próprio padrão. Ainda que utilize de procedimentos semelhantes, ações para reduzir rugas, flacidez, perda estrutural do tempo, cada procedimento será único porque você também é. É através do conhecimento profundo da estrutura e reação do corpo negro que consigo tratar o que é necessário, elevar autoestima e resgatar essa potência ancestral sem a escassez de beleza dos procedimentos de padronização”, finaliza Jéssica Magalhães




