...
Pular para o conteúdo principal

Portal UMBU

Oficina de turbantes fortalece autoestima e identidade de mulheres na Baixa do Tubo

Atividade do projeto Foco nas Infâncias utilizou a cultura afro-brasileira para promover pertencimento, letramento racial e valorização da ancestralidade

Foto: Arquivo/Avante

Uma curiosidade despertada por um turbante deu origem a uma experiência de fortalecimento da autoestima, da identidade e do pertencimento de mulheres da comunidade da Baixa do Tubo, em Salvador. Promovida pelo projeto “Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho”, realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Kindernothilfe (KNH), a oficina utilizou a cultura afro-brasileira como ferramenta para estimular o diálogo sobre ancestralidade, representatividade e enfrentamento ao racismo.

A atividade nasceu de forma espontânea durante um encontro da Roda de Mulheres, espaço de convivência do projeto. Segundo Joice Cristina, assistente social da iniciativa, a ideia surgiu depois que as participantes demonstraram interesse pelo turbante que ela usava.

“Na semana anterior à roda, cheguei à comunidade usando uma roupa confeccionada com tecido africano e as mulheres começaram a perguntar como era feita a amarração do turbante. Percebi ali uma curiosidade que ia além da estética e resolvi transformar aquele interesse em uma atividade da Roda de Mulheres”, conta, em entrevista ao Portal Umbu.

Para Joice, a experiência reforçou a importância de construir ações a partir da escuta da comunidade. “Essa experiência mostrou algo muito importante: quando as ações partem da escuta das participantes, elas fazem muito mais sentido. A oficina revelou o desejo dessas mulheres de se reconhecerem na própria história, valorizarem sua identidade e criarem espaços de troca. Mais do que aprender a fazer um turbante, elas encontraram um momento para falar sobre pertencimento, ancestralidade e autoestima, fortalecendo vínculos entre elas e com o próprio território”, afirma.

Além das técnicas de amarração, a oficina promoveu uma conversa sobre a história dos turbantes, a ancestralidade africana e a diferença entre o turbante e o ojá, utilizado nas religiões de matriz africana. “O turbante não é apenas um acessório. Ele carrega história, memória, ancestralidade e diferentes significados culturais. Conversamos sobre como, em vários povos africanos, as formas de amarração podem representar momentos da vida, pertencimento, identidade ou posições sociais das mulheres”, explica.

Ela destaca que compreender esses significados também contribui para o letramento racial e o enfrentamento da intolerância religiosa. “Quando contextualizamos essas histórias, promovemos letramento racial, valorizamos a cultura afro-brasileira e contribuímos para o enfrentamento do racismo e da intolerância religiosa”, acrescenta.

Um novo olhar sobre si mesmas

Para muitas mulheres, foi a primeira vez usando um turbante. A experiência despertou sentimentos de orgulho e valorização da própria imagem. “Foi emocionante perceber que muitas delas nunca tinham usado um turbante. Ao experimentarem, começaram a sorrir, a fotografar umas às outras e a dizer o quanto estavam bonitas. Esse movimento fortalece a autoestima, o sentimento de pertencimento e mostra que a valorização da cultura negra também é uma forma de cuidado e promoção da saúde emocional”, afirma.

Foto: Arquivo/Avante

A oficina foi realizada em referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrados em 25 de julho e, mais do que um encontro semanal, a Roda de Mulheres tornou-se um espaço de acolhimento para discutir temas como maternidade, violência, saúde, racismo e acesso a direitos.

“A Roda de Mulheres é um espaço construído pela confiança. Ali elas compartilham suas histórias, falam sobre maternidade, violência, acesso a direitos, saúde, racismo e tantos outros temas que atravessam suas vidas. Ao longo do tempo, percebemos que o grupo deixou de ser apenas um encontro semanal e passou a ser uma rede de apoio entre elas”, destaca Joice.

Segundo ela, atividades como a oficina de turbantes fortalecem esse processo ao estimular a solidariedade e a valorização coletiva. “Quando uma mulher ajuda a outra a colocar um turbante, elogia sua beleza ou compartilha uma experiência de vida, ela também fortalece vínculos comunitários. Isso contribui para ampliar a autonomia, a participação social e a capacidade coletiva de enfrentar situações de vulnerabilidade”, diz.

Joice ressalta que a valorização da identidade negra faz parte do trabalho contínuo desenvolvido pelo projeto e não deve se restringir a datas comemorativas: “Espero que elas saiam desse encontro reconhecendo que suas histórias importam, que suas raízes são motivo de orgulho e que a identidade da mulher negra deve ser celebrada todos os dias. O turbante foi apenas um caminho para conversar sobre autoestima, ancestralidade e pertencimento, mas o principal objetivo era fortalecer o olhar que cada uma tem sobre si mesma.”

Ela explica que essa perspectiva surgiu a partir do diagnóstico realizado pela Avante na comunidade. “Desde o diagnóstico realizado pela Avante, identificamos que as questões étnico-raciais atravessam a realidade da Baixa do Tubo. Por isso, entendemos que trabalhar identidade, letramento racial e valorização da cultura negra não pode acontecer apenas em novembro. É um compromisso permanente, presente nas rodas de mulheres, nas atividades com as crianças e nas ações comunitárias, contribuindo para a formação de sujeitos mais conscientes de seus direitos, de sua história e de sua potência”, conclui.

O projeto “Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho” é realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Kindernothilfe (KNH), e desenvolve ações voltadas à promoção de direitos, fortalecimento comunitário e valorização da identidade de crianças, adolescentes e suas famílias.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado

POSTS RELACIONADOS