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“O verão não pode ser só vitrine: precisa gerar trabalho digno para quem sustenta a cultura”, afirma a professora e pesquisadora Daniele Canedo

Alta visibilidade, baixa proteção: os limites da economia criativa no verão de uma cidade majoritariamente negra

Foto: Arquivo Pessoal.

O verão transforma Salvador em um dos principais polos culturais e turísticos do país. Entre dezembro e março, festas populares, ensaios de blocos afro, eventos privados e o carnaval de rua impulsionam setores como música, gastronomia, artesanato, moda autoral, serviços técnicos e turismo cultural. Essas atividades fazem parte do setor cultural, que emprega cerca de 5,9 milhões de pessoas no Brasil, o equivalente a 5,8% da população ocupada, e apresenta níveis de informalidade superiores à média nacional, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na capital baiana, cidade majoritariamente negra, essa engrenagem econômica se sustenta diretamente nas expressões da cultura afro-brasileira, responsáveis por projetar Salvador no cenário nacional e internacional. Apesar da centralidade dessas manifestações, o setor cultural está entre os mais marcados pela informalidade no país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base na PNAD Contínua, indicam que cerca de 44,6% dos trabalhadores da cultura atuam sem vínculo formal, percentual superior à média nacional.

No verão, esse cenário tende a se intensificar com a ampliação do trabalho de rua, da prestação de serviços temporários e de atividades sem contratos, garantias trabalhistas ou previsibilidade de renda. Embora o período concentre maior visibilidade, fluxo turístico e circulação de recursos, esses fatores não se traduzem automaticamente em melhoria das condições de vida de quem sustenta o verão. Trabalhadores negros da cultura especialmente mulheres negras das periferias seguem enfrentando jornadas extensas, baixo poder de negociação, falta de infraestrutura e maior exposição a riscos econômicos e sociais.

Para analisar essas contradições, a reportagem ouviu a professora e pesquisadora Daniele Canedo, especialista em economia criativa e políticas públicas. Segundo ela, raça, gênero, classe e território estruturam o acesso às oportunidades no verão de Salvador. “A cidade celebra a potência da cultura negra, mas nem sempre garante condições dignas para quem a produz”, afirma.

Canedo destaca que pessoas negras, sobretudo mulheres, são a base da economia do verão, mas operam com pouca proteção. “Sem contrato, capital de giro ou garantias, o discurso do empreendedorismo transfere o risco para o trabalhador, que assume prejuízos com cancelamentos, chuva e custos”, analisa. A pesquisadora também aponta que a informalidade não é escolha, mas resultado histórico da ausência de políticas de inclusão econômica após a abolição.

Para que o verão deixe de ser apenas um pico de trabalho exaustivo, Canedo defende políticas públicas contínuas, com recorte racial e de gênero. Entre as medidas necessárias estão acesso garantido a espaços de trabalho, regras mínimas de contratação e pagamento, infraestrutura urbana adequada, crédito orientado e planejamento antecipado. “Sem isso, a cultura segue como vitrine, mas não como caminho de redistribuição de renda e reconhecimento para quem a sustenta o ano inteiro”, conclui.

Confira a entrevista com a pesquisadora Daniele Canedo na íntegra: 
Como esse momento de ebulição comercial e turística, promovido pelas festas populares e pelo carnaval de rua nos circuitos, pode representar uma virada para as oportunidades de crescimento para os empreendedores que trabalham com criatividade? Expressões afro-brasileiras como a capoeira, o artesanato e as festas populares estão no centro da economia simbólica de Salvador. Como evitar que essa centralidade se traduza apenas em valor turístico, sem retorno econômico e político para as comunidades negras que as sustentam?

O ponto central é como transformar a visibilidade de Salvador em redistribuição de renda e trabalho digno. Eu penso isso a partir de três tipos de acesso: acesso ao espaço, acesso ao contrato e acesso ao capital de giro. Isso é racializado e atravessado por classe, porque quem tem rede, equipamento e fôlego financeiro negocia melhor. Também é atravessado por gênero, já que as mulheres negras concentram trabalho intensivo e de bastidor e encontram mais barreiras para chegar às posições de maior remuneração e visibilidade.

A cidade investe para viabilizar o verão. A pergunta é se o trabalho digno entra como prioridade da gestão. Quando se cria uma estrutura urbana para o carnaval, como passarelas, circuitos e ordenamentos, isso amplia o fluxo, mas não resolve automaticamente as condições de quem trabalha, como vimos no caso das passarelas para ambulantes na Barra. A inovação poderia ser usada para desenhar estruturas físicas e serviços de suporte: pontos de descanso e sombra, água, banheiros, armazenamento, logística, segurança e acolhimento para quem coleta recicláveis e para quem carrega carga. Mas isso ainda é insuficiente e não está na agenda prioritária da gestão pública.

Pensando em gestão cultural e políticas públicas, o que significa, na prática, construir uma economia criativa antirracista, especialmente em um contexto de grandes eventos e alta concentração de recursos como o verão? Que caminhos você enxerga para que o verão de Salvador deixe de ser apenas uma vitrine e se torne um espaço de redistribuição de poder, renda e reconhecimento para quem produz essa cultura o ano inteiro?

Construir uma economia criativa antirracista, na prática, é criar oportunidades reais ao longo de todo o ano. A sensação que temos é que a cidade, aqui me referindo a todos os agentes envolvidos, trabalhadores, empresas privadas e governo não planeja o verão com antecedência suficiente. Todos os anos vemos as mesmas cenas de sufoco, uma maratona de sobrevivência para pessoas pretas, pobres e periféricas que estão trabalhando nas ruas.

Empreendedorismo sem crédito, suporte e proteção tende a reforçar desigualdades históricas. Se a cultura afro é tratada como “marca” de Salvador, precisa existir política pública contínua para converter esse ativo simbólico em condições materiais para quem produz. Isso passa pelo desenvolvimento de cadastros e pesquisas sobre o perfil dos trabalhadores; pontos de venda previstos e garantidos; meios de pagamento acessíveis; apoio à logística; crédito orientado; compras públicas; regras mínimas de contratação e pagamento; e capital de giro para quem mais precisa. Ou seja, precisamos de políticas públicas estruturadas para garantir apoio e suporte ao longo do ano.

Durante o verão, especialmente em uma cidade tão conhecida por seu artesanato, arte de rua, música e culinária como Salvador, quais são os nichos de mercado que costumam se destacar e apresentar maior crescimento econômico?

Eu não tenho dados consolidados para afirmar quais crescem mais, mas o que se observa é que os nichos ligados à experiência ganham muito volume e movimentam a economia: comida de rua e culinária identitária, música e serviços técnicos, artesanato e moda autoral, beleza e estética, além de roteiros e experiências culturais e turísticas. O ponto interseccional é que isso pode significar muito trabalho e pouca margem para quem está na ponta. A pessoa trabalha até a exaustão, mas, no fundo, não consegue melhorar suas condições materiais de existência como resultado desse trabalho.

Para microempreendedores, artesãos e produtores culturais negros, a informalidade no verão pode ser lida como resistência, herança histórica ou como resultado direto da ausência de políticas públicas racializadas?

A informalidade pode carregar dimensões históricas e até de resistência, mas não podemos romantizar. Ela é atravessada por raça, gênero, classe e território. Historicamente, a informalidade ficou associada a pessoas pretas, pobres e periféricas porque a abolição da escravização no Brasil não veio acompanhada de inclusão econômica. Não houve reparação, nem acesso estruturado à terra, à educação, ao trabalho e à proteção social.

O resultado é que, para muita gente, até hoje, o trabalho informal não é escolha, é a única porta aberta. No verão, isso se intensifica porque o mercado aquece, mas as regras e a infraestrutura não acompanham. A informalidade aparece em mecanismos concretos: falta de capital de giro para comprar insumo e estoque; dependência de intermediários que organizam o acesso a pontos e mercadorias; ausência de contrato e previsibilidade de pagamento; e insegurança na rua, especialmente para mulheres negras, que ainda acumulam a tarefa do cuidado.

Formalizar, mesmo via MEI, continua caro e burocrático para quem está lutando pelas condições mínimas de sobrevivência. Eu conheço casos de mulheres que acumularam dívida porque interromperam a atividade para dar conta do cuidado  que é invisibilizado socialmente e deixaram de pagar a taxa do MEI. As festas populares e o ciclo do verão são, sim, oportunidades de ganho. Mas, para isso virar melhoria real de vida, são necessárias políticas públicas com recorte racial e de gênero. Sem isso, o verão vira apenas um pico de trabalho exaustivo, e não uma alavanca de mobilidade econômica para quem produz cultura.

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