
Desde a premiação no último Festival de Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, é a nova sensação do cinema nacional. Tal qual Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, as salas estão lotadas para assisti-lo, só se fala nele e a torcida, em clima de Copa do Mundo, só cresce até o dia da premiação do Oscar 2026. É possível que saiamos novamente com uma estatueta dourada da festa de Hollywood. Mas é curioso perceber também as sutis diferenças entre as duas campanhas.
A começar pela reação do público. Estive na pré-estreia de ambos no Cine Glauber Rocha. As palmas efusivas após a sessão do filme de Walter Salles contrastam com as tímidas do filme de Kleber. Senti uma certa sensação de decepção por parte do público. Algo que se repete em diversos comentários que classificam o final como anticlimático, o filme como “sem sentido”, apontam a não compreensão de alguns símbolos, como a “perna cabeluda”, ou mesmo do nome da obra, entre outros comentários negativos.
A verdade é que, apesar de uma campanha mais consistente e com mais força entre a crítica, O Agente Secreto não é unanimidade em seu país de origem. Não me espanta. Walter Salles vem de uma escola mais “clássica” de cinema, inspirada no neorrealismo, com forte veia melodramática. Ainda Estou Aqui é um drama muito bem feito, mas dentro de um padrão. Acaba sendo mais fácil de digerir, de se emocionar e de gostar. E está tudo bem.
Já Kleber Mendonça Filho é um diretor que gosta de experimentar. Seu cinema é extremamente irônico, cheio de metáforas, referências ao próprio cinema e experimentações na linguagem. Não quero com isso dizer que não seja um filme capaz de conquistar o grande público, nem entrar em um julgamento de valores entre arte erudita, moderna e popular. Apenas observando os fatos, O Agente Secreto é um filme incômodo. E foi feito para isso: para incomodar, frustrar, fazer pensar. É natural sair da sala de cinema com essa sensação ruim.
O cinema é uma arte. A sétima arte, como definiu Ricciotto Canudo no início do século XX. Mas, para alguns, é apenas entretenimento. Então, um bom filme é aquele que diverte, tem uma boa história e emociona. Ficar observando questões técnicas é papo de “crítico chato”. A minha reflexão é apenas esta: será que não dá para se divertir também com O Agente Secreto? Tem ação, tem romance, tem emoção e tem, sim, muitas cenas divertidas, a começar pela personagem Dona Sebastiana, vivida pela atriz Tânia Maria. A questão é que a escolha do final abrupto frustra a plateia que esperava a catarse. Afinal, estamos acostumados a isso desde a Grécia Antiga.
Não quero aqui dar spoilers, já que a obra ainda está nos cinemas e ainda tem muitos prêmios por vir, quem não viu, corra. Mas fiquei refletindo sobre a parte final, e é curioso como a gente se sente um pouco perdido mesmo. Não porque o filme seja confuso, ele se explica bem, mas pela maneira como nos joga em determinada cena e nos deixa com várias lacunas, principalmente emocionais. Mas isso faz parte da vida. Temos que aprender a lidar com frustrações. As escolhas de Kleber Mendonça Filho são conscientes.
O fato é que, gostando ou não, O Agente Secreto já bateu recordes de bilheteria, é assunto em diversos espaços e tem ajudado os brasileiros a olhar para o seu próprio cinema, discuti-lo. A relevância foi tanta que a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) fez um dossiê com textos diversos sobre a obra. Isso é o que fica. Só nos resta torcer por muitas outras obras que consigam chamar a atenção e levar o público ao cinema. Afinal, isso também é ser um bom filme.


