Por que o Brasil precisa de um pacto que entenda as múltiplas barreiras que impedem o povo de ler

Foto: Ricardo Stuckert/PR
O Brasil não sofre de um “desinteresse” crônico pela leitura; sofre as consequências de um projeto deliberado de exclusão. O novo Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), o documento que define as metas do Estado para o setor nos próximos dez anos (2026-2035), assume essa premissa com uma honestidade necessária, classificando suas ações como instrumentos de reparação histórica.
Ao reconhecer que o processo colonial brasileiro se baseou no impedimento do desenvolvimento da escrita entre os mais pobres e escravizados, lembrando que a impressão foi proibida no país até 1808, o Plano deixa de ser apenas uma peça burocrática para se tornar um pacto de justiça social.
O olhar atento: O que é Interseccionalidade na prática?
O diferencial deste novo Plano é a adoção da interseccionalidade. Para quem não está familiarizado com o termo, ele significa que o governo passou a entender que as desigualdades não acontecem de forma isolada; elas se cruzam e se acumulam na vida de uma mesma pessoa.
Pense assim: uma pessoa não sofre dificuldades apenas por ser pobre. Se ela for uma mulher negra, moradora de uma comunidade quilombola e com deficiência visual, ela enfrenta quatro barreiras diferentes ao mesmo tempo (gênero, raça, localização geográfica e acessibilidade física). A interseccionalidade é o esforço do Estado para não oferecer uma solução “tamanho único”, mas sim garantir que o livro chegue ao quilombo, que o autor seja negro para gerar identificação e que o formato do material seja acessível (como braile ou áudio).
A evolução das metas: O que muda entre o antigo e o novo Plano
Para entender o avanço da nova proposta, é preciso comparar como o Estado lidava com o tema anteriormente. No plano que vigorou até a última década, a fundamentação política era voltada quase exclusivamente para a democratização do acesso e a construção de infraestrutura básica. Agora, o PNLL 2026-2035 coloca o combate ao racismo estrutural como a espinha dorsal de suas metas.
Em termos de impacto, saímos de uma expansão genérica da rede de bibliotecas para um objetivo numérico ousado: elevar o percentual de leitores no Brasil de 47% para 55%, garantindo que nenhum município brasileiro fique sem, ao menos, uma biblioteca ativa. A visão sobre o que compõe essas bibliotecas também mudou. Se antes as compras públicas focavam em grandes editoras e títulos puramente comerciais, o plano atual prioriza a bibliodiversidade, com editais de equidade que valorizam autores indígenas e periféricos.
Até a abordagem tecnológica foi atualizada. Enquanto o plano anterior falava em “inclusão digital básica”, o novo PNLL diagnostica o “sequestro de atenção” pelas redes sociais, o chamado brain rot ou deterioração intelectual por conteúdos superficiais. A resposta é a criação de uma Biblioteca Digital de Acesso Público, que utiliza a tecnologia para ampliar o repertório crítico, e não apenas para o consumo funcional.
Dados que expõem a urgência
Os dados do Plano qualificam a necessidade desse novo olhar: apenas 12% dos brasileiros conseguem compreender textos complexos e 5,6% da população ainda é totalmente analfabeta. Além disso, pela primeira vez desde 2007, o número de não-leitores (53%) superou o de leitores (47%).
A resposta estratégica é o fomento direto. O Plano prevê a distribuição de 100 milhões de livros literários até 2035 e a utilização de recursos como os R$ 67,5 milhões já mapeados pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Democratizar o acesso é, portanto, um ato de soberania. O novo Plano Nacional do Livro e Leitura é a aposta de que o futuro do Brasil depende da nossa capacidade de transformar páginas em direitos e leitores em cidadãos críticos.
Comparativo: Antigo Plano vs. Novo Plano (2026-2035)
1. Fundamentação Política
- Anterior: Democratização do acesso e construção de infraestrutura básica.
- Atual: Reparação histórica e antirracismo. O combate ao racismo estrutural é a espinha dorsal das novas metas.
2. Metas de Impacto
- Anterior: Expansão genérica da rede de bibliotecas.
- Atual: Meta clara de elevar o percentual de leitores de 47% para 55% e garantir ao menos uma biblioteca por município.
3. Representatividade e Acervo
- Anterior: Compras públicas focadas em grandes editoras e títulos comerciais.
- Atual: Foco na bibliodiversidade (diversidade de vozes), com editais de equidade para valorizar autores negros, indígenas e periféricos.
4. Tecnologia
- Anterior: Inclusão digital básica.
- Atual: Combate ao “sequestro de atenção” das redes sociais através da criação da Biblioteca Digital de Acesso Público.




