
Em uma semana intensa de debates, encontros, manifestações culturais e trocas intelectuais no Festival Akwaaba, saí de São Paulo com uma sensação que vai muito além da satisfação de participar de um grande evento. Voltei com uma inquietação.
Afinal, se já produzimos tanto conhecimento, por que ainda temos tanta dificuldade em transformá-lo em poder econômico, político e institucional?
Essa pergunta me acompanhou durante os painéis sobre diplomacia afro-cultural, juventudes negras globais, inovação digital, economia criativa, literatura negra, educação e cooperação afro diaspórica. Em cada mesa, em cada corredor e em cada conversa informal, era possível perceber algo que talvez seja o maior patrimônio do festival: a capacidade de reunir pessoas que não estão apenas discutindo o passado da população negra, mas imaginando o seu futuro.
E isso faz toda a diferença.
Durante muito tempo, os eventos voltados para a população negra ocuparam um lugar de resistência. Eram espaços de denúncia, reivindicação e visibilização. O Akwaaba preservou essa dimensão, mas avançou para um estágio mais sofisticado. Ele propôs uma conversa sobre desenvolvimento, inovação e dinheiro.
Não por acaso, a programação reuniu temas que normalmente aparecem fragmentados nos debates públicos: empreendedorismo negro, patrimônio cultural, inovação tecnológica, direitos quilombolas, juventudes, literatura e economia criativa. Essa arquitetura temática revela uma compreensão estratégica de que o desenvolvimento negro não será construído por uma única agenda, mas pela conexão entre várias delas.
O que mais me chamou atenção foi perceber que estamos diante de uma mudança de paradigma.
Historicamente, a luta negra reivindicou acesso ao conhecimento. Hoje, o desafio é outro: transformar conhecimento em infraestrutura econômica e de capital social. Temos intelectuais, pesquisadores, escritores, artistas, empreendedores, lideranças comunitárias e produtores culturais produzindo soluções sofisticadas para os desafios contemporâneos. No entanto, ainda operamos em um ecossistema marcado pela dispersão.
Produzimos conhecimento.
Produzimos cultura.
Produzimos inovação.
Mas nem sempre produzimos sistemas capazes de sustentar economicamente essas produções e escalar esses ativos. Talvez seja exatamente por isso que o Festival Akwaaba seja tão importante.Ele nos lembra que o conhecimento negro não pode continuar sendo tratado apenas como patrimônio cultural. Ele precisa ser reconhecido como ativo econômico e estratégico.
Em uma época em que a economia global é cada vez mais baseada em informação, criatividade, propriedade intelectual e construção de narrativas, a questão central não é apenas quem produz conhecimento, mas quem controla sua circulação, sua monetização e sua legitimidade.
A população negra brasileira movimenta trilhões de reais na economia nacional. Consome cultura, educação, tecnologia e informação. Ainda assim, continua sub-representada nos espaços que concentram capital, investimento e poder simbólico.
Essa contradição apareceu de forma recorrente ao longo do festival. Seja quando esse discutiu economia criativa, logo geração de riqueza.
Quando foi discutido literatura negra, o festival discutiu soberania de narrativas. Quando os painéis discutiu inovação digital, o evento trouxe para o centro a reflexão sobre quem ocupará os espaços de poder na economia do conhecimento.
O painel de juventudes negras globais, foi a mais promissora, pois ela trouxe para o centro da discussão liderança para os próximos cinquenta anos. O Akwaaba compreendeu algo que muitos ainda não perceberam: o futuro das populações afrodescendentes não será decidido apenas nos parlamentos ou nas urnas. Ele será definido também nas plataformas digitais, nos mercados criativos, nas universidades, nos algoritmos, nas editoras, nos centros de pesquisa e nos ecossistemas de inovação.
Por isso, uma das reflexões mais importantes que levo desta experiência diz respeito à economia da atenção.
Vivemos uma era em que todos disputam visibilidade. Empresas, governos, influenciadores, marcas e movimentos sociais competem pela atenção das pessoas. Mas atenção não é sinônimo de transformação.
A população negra conquistou mais visibilidade nos últimos anos. O desafio agora é converter visibilidade em estrutura de investimento, narrativa em política pública. Portanto, converter memória em desenvolvimento é converter identidade em estratégia. Esse talvez seja o próximo grande passo do movimento negro contemporâneo. E o Festival Akwaaba demonstra que essa transição já começou.
Ao reunir empreendedores, acadêmicos, gestores públicos, lideranças comunitárias, artistas e intelectuais em um mesmo ambiente, o evento cria algo raro: um espaço onde diferentes formas de conhecimento dialogam sem hierarquias artificiais. Ali, a ancestralidade encontra a inovação. A literatura encontra a tecnologia e o território encontra a diplomacia, logo, sobre esses elementos a cultura encontra a economia sobre outras perspectivas e diversidade de construções de pensamento e conhecimentos.
Essa capacidade de articulação é precisamente o que precisamos fortalecer.
O Brasil possui uma das maiores populações negras fora do continente africano. Ao mesmo tempo, vivemos um momento histórico de fortalecimento das conexões Sul-Sul e de reaproximação entre África e diáspora. Nesse cenário, eventos como o Akwaaba deixam de ser apenas festivais culturais. Tornam-se plataformas estratégicas de cooperação internacional, circulação de conhecimento e construção de futuros compartilhados.
Mais do que celebrar heranças, o Akwaaba nos convida a construir legados. E talvez seja justamente essa sua maior contribuição. Num mundo marcado por crises de sentido, fragmentação social e disputas narrativas, o festival reafirma algo fundamental: o conhecimento negro não é apenas uma ferramenta de resistência.
É uma tecnologia de futuro.
E investir nesse futuro deixou de ser uma questão de inclusão.
Passou a ser uma questão de desenvolvimento e estou grata por ter sido parte deste momento.


